Morreu Fernando Belo, o filósofo que nos deu outra leitura de São Marcos

A filosofia da linguagem e a articulação da filosofia com a ciência foram as áreas mais fortes do seu percurso académico e da sua bibliografia.

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O filósofo Fernando Belo DR

O filósofo Fernando Belo morreu na madrugada desta segunda-feira aos 85 anos, na sequência de uma doença respiratória, confirmou a sua mulher, Teresa Joaquim, ao PÚBLICO. Os seus cursos, enquanto professor, e grande parte da sua obra publicada incidiram muito especialmente na filosofia da linguagem, dos gregos a Jacques Derrida. Mas a importância de todo o seu trabalho bastante heterodoxo e com um âmbito alargado na história da filosofia e das ciências reside também no facto de ter atravessado fronteiras disciplinares e ter posto em diálogo a filosofia com os vários domínios da ciência e das ciências humanas. 

Fernando Belo nasceu em 1933 e antes de ter sido professor de Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa, entre 1975 e 2003, fez um percurso, cheio de inflexões, por caminhos muito diferentes. Começou por se licenciar em Engenharia Civil no Instituto Superior Técnico, em 1956, mas, terminado o curso, não ingressou na vida profissional: respondeu a uma “experiência espiritual” que tinha tido aos 19 anos, num retiro, e entrou para o seminário. Num texto datado de 30 de Outubro deste ano, intitulado "Experiência espiritual, o que é?”, publicado no seu blogue sobre filosofia e ciência, Fernando Belo descreve longamente essa experiência e conta como tomou a decisão de se tornar padre: “A escolha veio a manifestar-se depois, primeiro com a decisão de entrar no seminário acabados os seis anos de licenciatura e mais tarde, depois da licenciatura em teologia em Paris, em 1969, e da ruptura com a condição de padre católico, com a decisão de prosseguir pela leitura materialista do evangelho de Marcos a que se seguiu, em Lisboa e na Faculdade de Letras, a inesperada possibilidade duma vocação filosófica – aberta no seminário por um extraordinário professor de filosofia, o P. Honorato Rosa –, sempre com um pé fora da filosofia, nas ciências, no cristianismo e na história europeia. O que se manifestou como efeito daqueles minutos de transe foi uma enorme paixão intelectual, totalmente ignorada pelo adolescente de 19 anos que foi ao tal retiro espiritual.”

Dos seus doze anos de clérigo, destaca-se a sua actividade de professor no Liceu Camões (onde foi professor de nomes que se viriam a destacar, tais como Luis Miguel Cintra, Jorge Silva Melo e José Mariano Gago), que desempenhou ao mesmo tempo que era capelão militar na Base Aérea da Ota. As suas actividades políticas levaram a que fosse transferido para a paróquia da Baixa da Banheira, na Moita. 

A sua segunda licenciatura foi em Teologia, iniciada em Lovaina e acabada em Paris, em 1968. Muito importante foi o livro publicado em francês, em 1974, Lecture matérialiste de l’évangile de Marc. Récit, pratique, idéologie (1974), traduzido em Espanha, na Alemanha e nos Estados Unidos, em que articulava uma leitura textual da narrativa do Evangelho de São Marcos, influenciada por Roland Barthes, à estrutura social da Palestina da época bíblica, servindo-se de fortes referências francesas, muito importantes à época, nomeadamente Louis Althusser e Georges Bataille. O estruturalismo francês, com o diálogo que este promoveu entre a filosofia e as ciências sociais e humanas, foi o campo e o horizonte teórico e epistemológico em que Fernando Belo se inscreveu.

Esse livro sobre o Evangelho de São Marcos, um estudo teológico muito marcado por um modelo analítico de carácter estruturalista (onde linguística e política se cruzam em complexas elaborações teóricas), abriu-lhe, em tempos de revolução, as portas do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, onde apresentou, em 1989, uma tese sobre a linguística de Ferdinand de Saussure, mais precisamente sobre a epistemologia da semântica saussuriana. A filosofia da linguagem e a articulação da filosofia com a ciência foram as áreas mais fortes do seu percurso académico e da sua bibliografia. 

Os seus cursos na Faculdade de Letras, onde promoveu o diálogo, até a um nível institucional, entre a filosofia e a literatura, e entre a filosofia e a linguística, resultaram na publicação, em francês, de Le Jeu des Sciences avec Heidegger et Derrida (2 vol. 2007), entre outros livros, tais como Heidegger, Pensador da Terra (2012). Enorme foi a diversidade dos seus interesses e a variedade dos temas em que se aventurou, com um espírito ensaístico muito agudo. Era-lhe muito cara a ideia de que sem a filosofia não haveria Europa. Os temas ecológicos também o solicitaram com alguma frequência nos últimos anos. O último texto que publicou no seu blogue é de 30 de Novembro e mostra como a sua paixão pelo saber e pela ciência se manteve intacta até aos últimos dias de vida.

A sua intervenção pública, nos últimos anos, sobre questões políticas, culturais e sociais da actualidade manifestou-se sobretudo em artigos pontuais no PÚBLICO.

Amanhã, será celebrada uma missa às 13h30 na Igreja de Santa Isabel, em Lisboa, seguindo depois o corpo para o Cemitério do Alto de São João, onde o funeral se realiza às 15h.

Notícia actualizada às 19h