Instrutores da GNR terão agredido formandos já no chão

Ministério da Administração Interna ordenou abertura de inquérito ao caso que envolverá perto de dez candidatos a guardas que terão sido assistidos no hospital. Situação já estava a ser averiguada pela própria GNR.

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César Nogueira defende que este tipo de formação “deve ser dada por profissionais com experiência” MIGUEL MADEIRA/ARQUIVO

Instrutores de um curso de formação para cerca de 600 novos guardas da GNR, que ainda está a decorrer em Portalegre, terão agredido com violência vários alunos, que tiveram de receber tratamento hospitalar.

“Os relatos que nos chegaram apontam para entre oito e dez instruendos assistidos no hospital, um deles sujeito a uma pequena intervenção cirúrgica na vista. E retratam casos de agressões deliberadas e constantes. Mesmo depois de os instruendos estarem no chão continuaram a ser agredidos”, descreve César Nogueira, presidente da Associação dos Profissionais da Guarda (APG), a maior organização socioprofissional da GNR. Acrescenta que, segundo as informações que recolheram, “enquanto as agressões decorriam, os formadores ainda se riam do que estava a acontecer”.

O caso foi noticiado este domingo pelo Jornal de Notícias, que adianta que num módulo do curso dedicado ao uso do bastão extensível, e que decorreu entre Outubro e Novembro, os guardas provisórios terão sido agredidos com pontapés na face e socos no nariz. Aquele jornal refere que houve narizes partidos, fracturas nos dedos das mãos e num caso lesões oculares, relatando que alguns alunos perderam os sentidos durante a formação.

Todos terão sido assistidos no Hospital de Portalegre, que, contactado pelo PÚBLICO, não tinha informação sobre o caso. No Hospital de São José, em Lisboa, para onde terão sido transferidos vários formandos, não houve ninguém disponível para prestar informações.

O Ministério da Administração Interna (MAI), liderado por Eduardo Cabrita, ordenou este domingo à Inspecção Geral da Administração Interna a abertura de um inquérito sobre o caso. A própria GNR tinha aberto há perto de três semanas um processo de averiguações.

O porta-voz do Comando Nacional da GNR, Hélder Barros, confirmou ao PÚBLICO a abertura do processo de averiguações, a 13 de Novembro, devido a uma “ocorrência” num curso de bastão extensível que obrigou “alguns” instruendos a receber tratamento hospitalar. Hélder Barros recusou-se a precisar mais pormenores sobre o caso, referindo apenas que todos os alunos já regressaram ao curso.

Numa nota enviada à Lusa, o MAI refere que o inquérito visa o "apuramento dos factos e determinação de responsabilidade" e acrescenta que, a confirmarem-se, estes factos "não são toleráveis numa força de segurança num Estado de direito democrático".

César Nogueira refere que as informações que recolheu indicam que os alegados agressores são oficiais com vinte e poucos anos. “Estes formadores são alferes saídos da Academia Militar, que nunca tinham dado aquela formação antes e garantidamente nunca utilizaram o bastão numa situação operacional”, refere o dirigente da APG. César Nogueira defende que este tipo de formação, que reconhece ser dura — já que se aproxima uma situação real —, deve ser dado "por profissionais com experiência”.

O mesmo dirigente explica que há cerca de oito anos que esta formação, que era primeiro dada apenas à Unidade de Intervenção, se alargou ao resto dos militares que mostrassem interesse nela. E, desde então, chegou à APG cerca de uma dezena de queixas de excesso de violência, nunca com esta gravidade. “Nesses casos, o último com um militar há cerca de um ano, interviemos e os formadores foram chamados à atenção”, afirma, mostrando-se convicto de que nenhum resultou em qualquer processo disciplinar. César Nogueira realça a especial vulnerabilidade dos guardas provisórios que se fizerem queixa de um oficial que está a avaliar podem estar a comprometer a sua entrada na GNR.

O vice-presidente da Associação Sócio-Profissional Independente da Guarda, Adolfo Clérigo, teve conhecimento do caso pelo Jornal de Notícias. “Se tudo isso é verdade, é gravíssimo. Isto não é formação, é atrocidade”, avalia, exigindo que a “responsabilidade não morra solteira”.

Neste momento estão a ser julgados em Lisboa 19 militares acusados de vários crimes relacionados com a morte de dois recrutas dos Comandos, ambos com 20 anos, em Setembro de 2016, após uma prova do curso. Este não foi a primeira vítima mortal na formação de comandos, tendo em Abril de 1988 outros dois instruendos morrido após uma prova similar.