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Sabem aquela em que o Seinfeld e o Obama entram num Corvette de 1963 para irem beber café?

Na série Comedians in Cars Getting Coffee, Jerry Seinfeld e convidados dividem o protagonismo com carros da colecção do comediante ou escolhidos por ele. Os nossos holofotes recaem sobre algumas das peças de culto mais extraordinárias da série.

Jerry Seinfeld poderia ter sido apenas mais um entre os milhares de humoristas que fazem stand-up nos clubes nova-iorquinos. No entanto, em 1989, a sitcom que adoptou o seu nome mudou o rumo da sua carreira, tornando-o uma das caras mais conhecidas do humor norte-americano — melhor: do acutilante humor tipicamente nova-iorquino. Seinfeld, onde assumia uma personagem que era uma versão de si próprio e que contava com as inesquecíveis prestações de Julia Louis-Dreyfus (a neurótica Elaine), Jason Alexander (o inseguro George) e Michael Richards (o extravagante Kramer), teve nove temporadas, ao longo das quais somou dezenas de prémios. Terminou em 1998 com o estatuto de série de culto, aclamada pela crítica e pelo público, mas o seu maior feito foi ter transformado Seinfeld numa espécie de marca e de o tornar uma cara familiar um pouco por todo o mundo.

O que poucos fora do circuito televisivo saberiam na época sobre Jerry Seinfeld é que ele era também um apaixonado por automóveis, ao ponto de ter hoje uma das mais valiosas colecções dos Estados Unidos.

Catorze anos depois do fim da sua série homónima, o humorista decidiu voltar à TV, unindo as suas duas paixões e juntando à receita uma pitada de um ingrediente recém-descoberto — “Nunca tinha bebido café durante toda a minha vida adulta até há uns anos”, confessaria já este ano à também humorista e apresentadora de televisão Ellen DeGeneres, uma das convidadas de Comedians in Cars Getting Coffee e que retribuiu a gentileza levando Seinfeld ao seu programa, visto diariamente por uma média de 3,9 milhões de pessoas nos EUA. “Experimentei e pensei ‘eis uma bebida fantástica e que te põe tão conversador’, e daí pensei ‘porque não faço um programa com humoristas a beber café e a ficarem conversadores?’.”

Ideia tonta, diriam uns. Sim, talvez. Mas, atenção, estamos a falar de Seinfeld (2-em-1, entre o homem e a personagem). Portanto, qualquer ideia tonta é uma ideia com potencial, como saberá qualquer fã do actor e da série. Assim sendo, obviamente, esta ideia do comediante, enquanto bebia um dos primeiros cafés da sua vida, tinha tudo para ser um sucesso. Trouxe para o cenário automóveis, alguns de culto, e transformou o Comedians in Cars Getting Coffee num êxito com direito até a polémicas — arrancou na plataforma Crackle em 2012, uma concorrente da Netflix, amealhou prémios e, inesperadamente, migrou para a plataforma-mor do streaming de séries, a própria Netflix, no ano passado, mesmo a tempo da estreia da 10.ª temporada (cereja no topo do bolo: com um dos produtores iniciais a processar Jerry Seinfeld).

São já dez anos de humor feito de duplas inesperadas e de automóveis de encher o olho, escolhidos pelo próprio Seinfeld de entre a sua colecção, ou emprestados por especial favor (já que se trata de peças históricas) sempre a pensar na personalidade do seu convidado.

O Carocha da amizade

A estreia, a 19 de Julho de 2012, não poderia ter outro convidado: Larry David, o génio da comédia contemporânea que, em conjunto com Seinfeld, deu à luz o formato de sucesso dos anos 1990. O automóvel eleito encaixa na perfeição naquilo que Larry David procura num meio de transporte: “Gosto de carros que pareçam brinquedos”, confessa, enquanto se deixa conduzir pelas ruas de Los Angeles num Volkswagen Carocha “Split Window” de 1952, em azul-celeste brilhante.

Com um motor de quatro cilindros e uma potência de 25cv, o Carocha pode muito bem entrar hoje na categoria dos brinquedos. Porém, o seu projecto não foi propriamente uma brincadeira: o veículo, concebido para ser acessível após a Segunda Guerra Mundial, apresentou-se logo com uma motorização tão competente quanto económica e com uma construção irrepreensível. As poupanças chegavam de formas engenhosas, como aquela que lhe dá o nome “Split Window” — o óculo traseiro apresenta-se dividido por, como Jerry explica, ter sido feito a partir de duas peças para que o fabricante conseguisse poupar dinheiro. O carro perfeito, confessa Seinfeld, para pessoas que, “como eu, vêem a verdadeira humildade no que não está lá”. Um detalhe de fazer girar cabeças: os piscas mecânicos inseridos nos pilares B, junto às portas, que denunciam que de humilde o carro tem pouco. Afinal, trata-se da versão mais equipada do modelo, a Export, com um valor estimado em torno dos 30 mil dólares (cerca de 26.350 euros).

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O imperscrutável Mercedes 280 SL 

Se Larry David inspirou Seinfeld a escolher um carro-brinquedo, Alec Baldwin levou-o a procurar um desportivo para “tipos que não querem ser incomodados”, talvez levado pela postura muitas vezes imperscrutável do actor que tem arrancado gargalhadas pelo mundo fora com as suas participações no Saturday Night Live, em que veste a pele do Presidente Donald Trump.

O Mercedes-Benz 280 SL vermelho de 1970, especialmente cedido por um concessionário nova-iorquino de clássicos, é alimentado por um motor de seis cilindros em linha, com injecção multiponto, de 2,8 litros, que, logo nos primeiros segundos do episódio, revela o seu génio pela sonoridade do arranque, tão suave quanto agressivo. A debitar 170cv às 5750 rpm, este roadster, de capota de lona preta, admite uma velocidade máxima de 200km/h.

O 280 SL é a derradeira evolução do modelo apresentado em Genebra, em Março de 1963, e descrito pelo director técnico da empresa alemã, Fritz Nallinger, como “um carro desportivo muito seguro e rápido” capaz de proporcionar “um elevado grau de conforto em viagem”. Em 1967, a Mercedes-Benz conseguiu, por fim, o que tanto almejava, ao introduzir um motor maior e com mais potência, ajustando o binário máximo para os 244Nm.

Uma paixão chamada Porsche

A informação sobre a colecção de automóveis de Jerry Seinfeld não é pública nem fácil de encontrar, mas, e ainda que no fim de cada programa haja agradecimentos a empresas específicas sobre o empréstimo dos veículos, há suspeitas de que a grande maioria seja propriedade da chancela Seinfeld. Uma coisa, porém, é certa: os Porsches lideram a valiosa lista e o humorista tem a maior colecção do emblema nos EUA. Por isso, não admira que surjam em quase todas as temporadas: entre oito modelos apresentados, escolhemos quatro carros “especiais” ou “perfeitos”.

O primeiro foi um exemplar resgatado à propriedade da polícia holandesa — um Porsche 356 SC Cabriolet de 1966, ainda com o pirilampo azul bem visível e que instala a dúvida. “Por que razão é que a polícia holandesa de 1960 sentia que precisava de Porsches descapotáveis para fazer o seu trabalho?...”, desabafa Jerry, ainda antes de receber o seu convidado: Barry Marder, comediante de stand-up e, sob o pseudónimo de Ted L. Nancy, autor da colecção de livros Cartas de Um Louco (em Portugal com edição Gradiva), cuja primeira edição contou com o prefácio assinado por Jerry Seinfeld.

O 356 foi construído para ser leve, ágil, apresentando motor e tracção traseiros. Com apenas duas portas, poderia ser “servido” com coupé de tejadilho rígido ou com capota de lona. Em 1966, a Porsche já descontinuara a produção, substituindo este pelo icónico 911, mas uma encomenda especial da polícia holandesa — dez 356 cabriolets — levou a marca a criar uma série especial.

Foi precisamente com o especialíssimo 911 Carrera RS que Seinfeld recebeu Seth Meyers, na época um dos argumentistas de Saturday Night Live e que hoje tem um programa em nome próprio: Late Night with Seth Meyers, ocupando o lugar de Jimmy Fallon, que, por sua vez, se senta agora na cadeira que pertenceu durante anos a Jay Leno em The Tonight Show.

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“Há qualquer coisa neste carro que o torna perfeito”, desabafa Jerry, que não esconde o carinho extra pelo automóvel que estreou a produção em massa de um carro de corridas. “É o carro de um tipo morto; comprei-o a um tipo que morreu e não vai voltar a ser vendido enquanto eu não morrer; este carro não muda de mãos sem que alguém morra.”

Se este era um Porsche especialíssimo, o que se seguiu não lhe ficava atrás: na terceira temporada, Seinfeld convidou o conceituado apresentador televisivo Jay Leno para dar uma volta no seu 356/2 de 1949, originalmente produzido pela austríaca Porsche Konstruktionen GmbH e construído à mão numa serraria em Gmünd. A maioria das peças tinha origem Volkswagen, mas a carroçaria ganhou uma aerodinâmica pouco comum para a época, tanto pela forma como pelos detalhes, como os puxadores que surgiam recolhidos no interior das portas.

O emblema regressaria na quinta temporada, logo no episódio de estreia, com um 718 RSK Spyder de 1959, para receber o humorista e actor Kevin Hart, conhecido entre nós pela sua participação em filmes como Polícia em Apuros (2014) e Central de Inteligência (2016).

O RSK Spyder não é, como o comediante explica, automóvel para o dia-a-dia. É um carro de corridas e uma espécie de experiência da Porsche que pretendia provar que os pequenos motores (1,5 litros com 150cv) em pequenos carros (apenas 562 quilos) também podiam ser rápidos nas pistas. Para Seinfeld, o propósito pode ser muito mais básico: “Se se quer dar uma volta de carro apenas pelo prazer da condução, acho que este é o melhor carro que existe para o efeito.”

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A aura europeia

Enquanto os Porsches apresentados por Jerry Seinfeld se destacam pela potência, há outros carros que se tornam vibrantes pela falta dela. É o caso do incontornável 2CV, de 1950, com motor boxer de dois cilindros, refrigerado a ar, com uns incríveis nove cavalos de potência, que compensa com uns parcos 500 quilos que se tornam fáceis de empurrar, como o comediante exemplifica no episódio em que recebe Gad Elmaleh, o comediante e actor francês de origem marroquina que dobrou a voz de Seinfeld no filme A História de Uma Abelha (2007).

Desenhado para conseguir transportar em segurança cestas de ovos pelas irregulares estradas francesas em meados do século passado, o 2CV, diz Jerry Seinfeld, agrada “por ser tão francês”. Gad Elmaleh confirma que esta terá sido uma boa escolha: “Há tantos filmes antigos franceses com este carro; em todos os filmes franceses, as freiras conduzem isto.”

Talvez não pegue à primeira — e até a porta traseira se abra sozinha em andamento —, mas o 2CV, apresentado ao mundo no Salão de Paris de 1948, tornou-se extremamente popular na Europa pela sua racionalidade, tendo atingido um número de exemplares produzidos impressionante: mais de 3,8 milhões de unidades, entre 1948 e 1990, altura em que a sua produção já estava restringida à fábrica de Mangualde.

A Citroën regressou já este ano, com um SM de 1973. O coupé de elevada performance, nascido de uma parceria com a Maserati e premiado nos EUA (onde o 2CV não conquistou grande consideração), serviu de cenário para o encontro com Dave Chappelle, actor de stand-up, que também tem o seu próprio espaço na rede Netflix.

Em oposição às linhas fluidas francesas, Jerry Seinfeld levou ao seu programa vários exemplares germânicos de traços mais contidos. Caso do BMW 2002tii (o 2000 reflecte a cilindrada do carro; o dígito 2, o número de portas), modelo que conseguiu abrir as portas do mercado norte-americano à marca bávara, tão importante para a sua sobrevivência. Apresentado como um dos seus carros favoritos do início dos anos de 1970, o BMW 2002 é descrito como um automóvel “divertido, desportivo, lógico”, tal como a sua convidada: a comediante Kathleen Madigan, que traz consigo o amigo Chuck Martin.

Outra estrela da companhia foi o BMW 507 de 1957, um dos modelos mais icónicos de Munique, que actualmente atinge números surpreendentes em leilões que podem atingir os dois milhões de euros. Na realidade, o automóvel, que foi dos objectos mais bem conseguidos, com uma qualidade surpreendente até ao mais ínfimo detalhe, revelou-se um fracasso: foram produzidas apenas 252 unidades, uma vez que a empresa alemã depressa percebeu que não havia forma de ter lucro com este excepcional veículo. A excepcionalidade encaixava na perfeição com o seu convidado: o oscarizado actor alemão Christoph Waltz, de Sacanas sem Lei (2009) ou Django Libertado (2012).

Já da Suécia, o Volvo 1800S de 1967, com motor de quatro cilindros e 115cv, foi apresentado como um automóvel para “durar para sempre”, assim como o humor da convidada: Tina Fey, estrela do Saturday Night Live e da sitcom Rockefeller 30.

Estrelas americanas

Num programa americano, com personalidades americanas, não poderiam faltar carros associados à cultura americana, e alguns destes habitam o imaginário também dos europeus. Caso do espectacular DeLorean DMC-12, que levou os actores Christopher Lloyd e Michael J. Fox em viagens no tempo, e Seinfeld a convidar o actor Patton Oswalt, com quem contracenou na sitcom Seinfeld, para um café.

O automóvel, ainda que inicialmente construído em Belfast (Irlanda), só foi possível com o financiamento de capitais americanos. O sucesso comercial não foi animador — e o facto de deixar a dupla apeada pode explicar o fracasso —, mas o veículo mantém até hoje um carisma muito particular. “Ideal para alguém se fazer notar.”

Outra máquina que faz sonhar o Velho Continente é o Mustang, cuja comercialização deste lado do Atlântico arrancou já neste milénio. Contudo, os Mustang destacados por Seinfeld estão longe dos automóveis que hoje se passeiam, inclusive, por estradas nacionais. Por exemplo, com o actor e produtor Bill Burr, criador da sitcom animada F Is for Family na Netflix, Jerry tirou da garagem um Boss 302 de 1970: uma sinfonia de potência apoiada num bloco V8 a debitar 290cv. O modelo acelerava dos 0 aos 100km/h em 6,9 segundos, o que, para 1970, eram valores de respeito.

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O carro presidencial (ou não)

O Corvette Sting Ray de 1963 não é um carro americano qualquer: é, segundo Seinfeld, o carro “mais fixe” que a indústria americana já produziu. Em azul-prateado com um interior azul e “uma espécie de forro escuro e arroxeado”, vive de um motor V8 de 5,4 litros a debitar 250cv (com variantes que podiam ir até aos 360 cv). Jerry Seinfeld escolheu-o para um episódio com um convidado especial, que, não sendo comediante, “já disse um número suficiente de frases hilariantes para estar habilitado a participar neste programa”: Barack Obama, que na altura (Dezembro de 2015) ocupava a Casa Branca.

Mas ir beber café com o então Presidente neste carro estava fora de questão, e entra em cena o automóvel presidencial: “A Besta”, um Cadillac assente numa estrutura de um tanque militar, com alguns equipamentos especiais, como bancos aquecidos e contacto directo com submarinos nucleares.

Depois de uma conversa tão animada quanto séria, regada por um café de saco feito pelos próprios, ainda voltam a tentar sair do perímetro da Casa Branca com o Presidente ao volante do Corvette Sting Ray — mas nada feito. É que no programa, como actualmente nos automóveis, o divertimento é essencial, mas a segurança está em primeiro lugar.