Editorial

O Natal é humor

E o humor está em todo o lado: à mesa — o Ricardo Dias Felner almoçou com Miguel Esteves Cardoso e Ricardo Araújo Pereira e conversaram sobre o “gosto por enfardar” comum a pessoas com uma “inclinação humorística”.

Na festa de Natal da 3.ª classe, o colégio elegeu o álbum Os Operários do Natal para representarmos. À minha turma calhou-nos “Os pais”, a quem nós, de dedo em riste, dávamos um recado do palco abaixo, da autoria de Fernando Tordo, Paulo de Carvalho e Carlos Mendes: “Não nos mintam nunca mais porque a mentira é uma vergonha, fomos feitos pelos pais e não viemos na cegonha.”

O refrão dizia: “Hoje é Natal e amanhã vai ser Natal outra vez, porque afinal quando é Natal a gente nasce outra vez.” A revolução tinha desmistificado o Natal, desvalorizado o nascimento de Cristo, tinha-o banalizado — passou a ser o nascimento de todo e qualquer um e não d’Aquele Menino que nasceu para nos salvar, dizia a minha mãe sempre que eu começava a cantar a primeira estrofe: “Tu nasceste foi Natal, no teu berço pequenino. É Natal em todo o mundo, sempre que nasce um menino.”

A canção é lindíssima e gostava de dançar ao mesmo tempo que a cantava, rodopiando e imaginando que era uma bailarina. Esta fez parte de algumas das festas que eu própria organizava na noite de Natal, em casa, obrigando os meus irmãos a mascararem-se. Com canetas de feltro e folhas dobradas, fazia o programa de Natal que distribuía pelos adultos; com paletes de cores para os olhos e para os lábios, pintava os meus irmãos como se fossem actuar para centenas de pessoas — eram só os pais e os avós. Na década seguinte, foi Ana Faria e os seus Brincando aos Clássicos que entraram nas nossas noites de Consoada, antes do bacalhau e da Missa do Galo.

Com o nascimento dos meus filhos e sobrinhos, continuamos a fazer desta noite uma festa com música, poesia ou teatro. Durante dez ou 15 minutos, o humor toma conta da casa fria, os espectáculos são micro e de há dois anos para cá deixou de ser possível convencê-los a fazer seja o que for porque já atingiram, quase todos, a maioridade. Nem a chantagem emocional de que o primo mais pequeno não terá lembranças como as deles os convence a tocar, cantar ou a recitar um poema.

Mas a noite de Natal não deixa de ser a mais divertida e, por isso, foi no humor que pensei quando começámos a desenhar esta revista. Nascemos ou somos educados para o humor? A Helena Viegas foi falar com duas mães de três humoristas: a escritora Rita Ferro e a apresentadora Júlia Pinheiro. E como é fazer humor no feminino? Na capa estão Cátia Domingues, Joana Marques e Marta Bateira, que preferiam que não continuássemos a pôr o género à frente da sua profissão, confessaram ao Vítor Belanciano, que as entrevistou.

E o humor está em todo o lado: à mesa — o Ricardo Dias Felner almoçou com Miguel Esteves Cardoso e Ricardo Araújo Pereira e conversaram sobre o “gosto por enfardar” comum a pessoas com uma “inclinação humorística”. Está nas nossas casas — a Susana Pinheiro conversou com designers e arquitectos sobre o humor. E até na ciência — David Marçal disseca o humor na ciência.

Espero que se divirta e feliz Natal!