Opinião

Não é só a China: vem aí uma nova Índia

A Índia ambiciona superar a China e os EUA em duas décadas. Mas não há boas notícias da “maior democracia do mundo”. Narendra Modi quer criar um Estado etno-religioso. Os ventos identitários também sopram na Índia.

Para lá da dimensão, e apesar das diferenças de cultura e de tradição política, a Índia e a China têm algo em comum: a ambição de serem, dentro de 20 anos, as potências mais influentes do planeta. Xi Jinping formulou a nova “grande estratégia” da China no último congresso do Partido Comunista (PCC). Mas também a Índia sonha em fazer deste século o “Século Indiano”, ultrapassando as economias dos Estados Unidos e da China — e exercendo uma influência universal. A Índia tem aspirações paralelas às da China, dos EUA e da Europa em criar uma ordem mundial que reflicta os valores da sua civilização. Depois da era dos impérios, seria a sua vez.

A dimensão da economia indiana é ainda um quinto da chinesa. A China está muito mais avançada na sua projecção universal. Pequim avança ordenada e metodicamente, sob a direcção férrea do PCC. A Índia dá a imagem de “uma anarquia que funciona”. Mas tem trunfos. O primeiro é o demográfico: 1,3 mil milhões de habitantes, ultrapassando a população da China até 2022. Não é só o número. É a sua juventude e a qualidade das universidades. A Índia tem a mais jovem população dos grandes países em crescimento. A média etária é de 29 anos, contra 37 na China e 48 no Japão. A Shining India (a Índia que brilha), a do “milagre económico”, é hoje a sexta potência económica mundial, prestes a superar a Grã-Bretanha. A sua taxa de crescimento, superior a 7,5%, é a maior entre as novas potências económicas.

Este genérico intróito apenas visa chamar a atenção para a grande mudança política que está em curso na Índia. Tudo o que lá se passa é para nós relevante.

A revolução de Modi

O país já está, de facto, em campanha para as eleições de Abril-Maio de 2019. “Esta eleição pode ser a mais crucial da História da Índia”, escreve um jornalista. O que está em jogo é a perspectiva de uma mudança cultural, da identidade e da natureza do Estado indiano. Vai a Índia abandonar o seu modelo secular, pluralista e multicultural, para se tornar numa “etno-democracia” tipo Israel, em que a identidade do Estado se confunde com a ideologia da hindutva (hinduidade), ostracizando as minorias? Os hindus representam 80% da população.

É necessário ir um pouco atrás. As eleições de 2014 marcaram uma ruptura política. O Partido do Congresso, que foi hegemónico durante décadas, sofreu uma hecatombe. O vencedor foi o Bharatiya Janata Party (Partido do Povo Indiano, BJP), porta-voz do nacionalismo hindu e liderado por Narendra Modi. Conquistou a maioria absoluta nas duas câmaras do Parlamento e governa hoje 29 dos 36 estados e entidades autónomas. O Congresso caiu por muitos factores: desgaste da dinastia Gandhi, maus resultados económicos e “corrupção do sistema”. Modi, que evitou falar em hindutva, seduziu as classes médias e o mundo empresarial, apresentando-se não como um político mas como um “superadministrador” do país. O tom da sua campanha foi a criação de esperança num “horizonte de desenvolvimento”.

O BJP já tinha estado no poder entre 1998 e 2004, através do primeiro-ministro A. B. Vajpayee, mas sem maioria, em coligação e sem tentações hegemónicas. O movimento hinduísta surgiu no princípio do século XX, mas só ganhou dimensão política na década de 80. O seu objectivo é modelar a sociedade segundo os valores e símbolos hindus. As outras religiões seriam livres apenas no foro privado. As suas organizações militantes sempre estiveram na linha da frente no confronto com a minoria muçulmana.

O conflito cultural agudizou-se com o monopólio do poder pelo BJP que, à imagem dos movimentos identitários que se espalham pelo mundo fora, tenta “hinduizar” o Estado e romper com o modelo secular.

Ascensão do nacionalismo

A politóloga Kanchan Chandra publicou na Foreign Affairs um artigo com este título: Requiem por uma antiga ideia da Índia. A antiga ideia é a concepção de Gandhi e Nehru, de um Estado secular e pluralista, “uma entidade política que pertence a todos os indianos e não apenas a um grupo. A Índia não pertence à maioria hindu, (...) não é o espelho do Paquistão muçulmano, mas o pluralismo contrário ao princípio maioritário do nacionalismo.” Uma coisa é reconhecer a identidade do hinduísmo, outra é confundi-lo com a nação e o Estado.

O orientalista francês Christophe Jaffrelot explicou há anos no The Indian Express que o modelo indiano pouco tem a ver com o laicismo europeu, pois implica o reconhecimento de todas as religiões. “O secularismo indiano tem mais afinidades com o multiculturalismo do que com a laicidade.” Mais do que um Estado-nação, a Índia é um Estado-civilização.

Outra consequência da identificação entre maioria e nação é relegar as minorias para um estatuto legal inferior. A Índia é um mosaico de minorias e diversidades. Tem 180 milhões de muçulmanos — a maior minoria do mundo. “A Índia não é um Paquistão hindu”, repetem os secularistas. Após as eleições de 2014, escrevia o linguista Ganesh Devi: “A diversidade indiana funciona como uma válvula de segurança contra todas as ideologias de exclusão. Modi vai certamente tentar promover políticas de clivagem, mas a Índia não o deixará fazer.” Mas Modi está a fazê-lo e o BJP lançou-se numa escalada de polarização religiosa da sociedade. O grande confronto não é entre hindus e muçulmanos: é entre hindus secularistas e hindus fundamentalistas.

A Índia não é estranha aos novos ventos nacionalistas e identitários que assolam grande parte do mundo. Muito jovens procurarão uma identidade “que os ajude a navegar no moderno e globalizado mundo em que a Índia se está a transformar numa superpotência económica”, anota Chandra. Outro analista, Milan Vaishnav, acentua que o fenómeno vai para lá do nacionalismo. “O BJP representa mais do que o nacionalismo hindu. Também advoga uma política externa e de segurança musculada.”

Sinais inquietantes são a pressão que o Governo e o BJP exercem sobre a liberdade de imprensa e a independência dos tribunais, primeiros sinais de uma deriva autoritária. Será exagerado comparar Modi a Erdogan. Mas a cópia duma máxima do antigo nacionalismo europeu — “Um país, uma cultura, um povo” — significaria o fim da “Índia que nós conhecemos”.

Modi tem um grande trunfo: o crescimento económico. A oposição tenta ser agressiva mas está, de facto, na defensiva. As eleições de 2019 serão determinantes para o projecto de Modi, o de um Estado etno-religioso. O segundo mandato poderá acentuar a vocação autocrática.

Assim vai a “maior democracia do mundo”.