Ifigénia em Azov!

Resta-nos saber que Ifigénia é hoje a Ucrânia e se Putin é mesmo Agamémnon. Porque Trump não é Aquiles!

O quê?

Depois da ocupação da Crimeia em 2014, Moscovo invalidou o acordo que tinha com Kiev sobre o uso do Mar de Azov e do Estreito de Kerch. Foi assinado em 2003 e determinava a partilha deste espaço. Na ilegítima alteração de fronteiras, a Rússia argumentou que as águas de Kerch são territoriais. A Ucrânia – e a maior parte do mundo – não reconhece a ocupação da Crimeia, logo insiste no direito de atravessar o Mar de Azov sem qualquer bloqueio. É uma região decisiva em termos económicos e de segurança. Tornou-se mais crítica, depois de Kiev ter perdido a Crimeia – Berdyansk e Mariupol passaram a receber parte do tráfego que ia para os portos na península.

Como?

A 25 de Novembro foram atacados e apreendidos três navios ucranianos que iam atravessar o Estreito de Kerch – dois torpedeiros e um rebocador. Seis dos 24 tripulantes detidos ficaram feridos. Logo, Poroshenko, o Presidente ucraniano, pediu ao Parlamento que declarasse lei marcial e se preparasse para o conflito. Na versão de Moscovo, três navios ucranianos entraram ilegalmente em águas territoriais russas e estavam com manobras perigosas. Depois do incidente, a Rússia colocou um navio de carga sob a ponte no Estreito de Kerch – o único acesso ao Mar de Azov –, entretanto reaberto.

A 26, o Parlamento ucraniano instaura uma lei marcial de 30 dias em regiões de fronteira com a Rússia. No dia seguinte, um tribunal da Crimeia acusa os 24 marinheiros ??de atravessar ilegalmente a fronteira russa. E a RT, televisão russa em língua inglesa, relata que a Rússia está a reforçar as defesas costeiras em Kerch, publicando um vídeo com veículos militares russos na estrada para Kerch a transportar mísseis anti-navio.

Entretanto, as forças ucranianas já aumentaram os ataques de artilharia contra as duas regiões rebeldes no leste da Ucrânia. E Poroshenko alertou sobre a iminência que um ataque russo (ou invasão).

Porquê?

1. Nos termos da Convenção da ONU sobre o Direito do Mar, navios e outras embarcações podem transitar por águas territoriais em condições de passagem inocente, ou seja, desde que não representem uma ameaça. Mas Moscovo acusa os ucranianos de militarizar o Mar de Azov, ao enviar navios patrulha e querer construir uma base naval. Em Setembro, por exemplo, houve navios da marinha ucraniana a passar o estreito em direcção a Berdyansk. E há um mês os russos alertaram que não iriam permitir a continuidade dessa militarização.

2. Kiev considera ter o direito de enviar navios e cargas através de Kerch: a Crimeia ainda pertence à Ucrânia! Mas, tendo em conta a muito limitada capacidade naval, não há forma de fazer frente à Rússia. Qualquer tentativa de forçar a reivindicação do Mar de Azov fracassará. Logo, dada esta assimetria, é de interesse destacar internacionalmente a agressão russa. 

Uma reaproximação dos EUA a Moscovo é pouco favorável para a Ucrânia – sugere o reconhecimento da legitimidade da ocupação da Crimeia e da presença de tropas russas na região do Donbass. Além disso, é provável um encontro entre Trump e Putin, à margem da cimeira do G20, em Buenos Aires. Ou seja, a Ucrânia quer evidenciar as suas reivindicações marítimas e a beligerância da Rússia. Mas talvez não esperasse chegar à humilhação de ver os navios apreendidos e tripulação capturada. 

Há ainda outra perspectiva. Declarar lei marcial para intensificar os holofotes sobre as acções da Rússia também tem um impacto interno. É possível que Poroshenko use este incidente para obter apoio político, estimulando um sentimento nacionalista. Sondagens recentes demonstram que tem menos de 10% de popularidade. Decretar o estado de sítio pode ser uma boa razão para adiar e manipular as eleições presidenciais em 2019.

No mundo clássico há duas versões sobre o sacrifício de Ifigénia, necessário para que o pai Agamémnon e os Aqueus tomassem Troia. Numa houve morte. Noutra – lemos em Eurípedes –, Ifigénia foi salva pela deusa Artemis, que a substitui por uma corsa e a leva para a colónia grega de Táurica, onde se tornou sacerdotisa. Ali, deslocada e saudosa, tinha a tarefa de sacrificar todos os estrangeiros que se aproximassem daquela costa. Táurica é actualmente a Crimeia.

Resta-nos saber que Ifigénia é hoje a Ucrânia e se Putin é mesmo Agamémnon. Porque Trump não é Aquiles!