Morreu o alfarrabista Pedro Chaminé da Mota

Fundador da carismática livraria portuense da Rua das Flores tinha 88 anos.

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Fernando Veludo/NFACTOS

O alfarrabista Pedro Chaminé da Mota, fundador e proprietário da Livraria Chaminé da Mota, na Rua das Flores, uma das mais importantes livrarias do Porto, morreu esta sexta-feira de manhã, aos 88 anos. O seu corpo estará em câmara-ardente na Igreja Lusitana do Salvador do Mundo, em Vila Nova de Gaia, e a missa do seu funeral será celebrada no sábado nesta mesma igreja, pelas 10h.

Leitor compulsivo e ecléctico – lia de tudo, do padre António Vieira a novelas populares do Repórter X, e tinha um fraco por banda desenhada e poetas obscuros do século XIX –, Chaminé da Mota levou esse gosto omnívoro para a sua livraria, onde tanto se podia encontrar uma respeitável primeira edição susceptível de adornar a colecção de um bibliófilo como um manancial inesgotável de edições populares.

O livreiro gostava de contar que se tinha tornado leitor aos oito anos, quando lhe veio às mãos O Menino da Mata e o seu Cão Piloto, texto que teve várias edições populares no início do século XX, designadamente da Livraria Evangélica. A partir daí, dizia, nunca mais deixou de ler e de acumular livros, até que se decidiu a montar uma livraria com a sua mulher. Inaugurou-a em 1981 e, ao longo dos anos, mudou-a várias vezes de sítio, mas mantendo-a sempre na Rua das Flores, onde ainda hoje tem porta aberta, no n.º 28, defronte da magnífica fachada da Igreja da Misericórdia, desenhada por Nicolau Nasoni. Calcula-se que nos vários pisos do seu actual edifício – cada um com uns longuíssimos 36 metros e meio –, a Livraria Chaminé da Mota conserve hoje cerca de um milhão de livros e outras publicações.

Mais recente do que a Livraria Académica, de Nuno Canavez, fundada em 1912, ou do que a Livraria Manuel Ferreira, criada em 1959, a Livraria Chaminé da Mota talvez não fosse tão procurada como estas pelos grandes coleccionadores, mas durante décadas foi a última esperança para quem já desesperara de encontrar o número em falta da colecção Vampiro, um fascículo da revista O Mosquito, os sete volumes da velha edição da Lello d'O Visconde de Bragelonne, de Alexandre Dumas, ou um livro infantil cujo autor o cliente já esquecera, mas que tinha uma capa assim e assado.

Outros livreiros também foram apostando nas edições populares, mas Chaminé da Mota foi o primeiro, no Porto, a investir a sério nesse sector: sabia o que tinha e onde o tinha, e boa parte do gigantesco acervo do seu estabelecimento estava (e está) organizado por temas, escritos à mão nuns pequenos cartões entalados nas pilhas de livros. Ele próprio calculava, há já bastantes anos, que andariam uns quatro mil cartões desses espalhados pela livraria. Alguns eram nomes de autores, outros de colecções, outros ainda podiam dizer xadrez, sindicalismo, biografias, ateísmo, esperanto…

Há que dizer que se compensava desse seu esforço de investigar, recolher e organizar edições populares, a que então quase mais ninguém no meio ligava nenhuma, carregando um tanto nos preços. Mas também era capaz de fazer descontos generosos quando via que o cliente era um leitor genuíno e não nadava em dinheiro. E tinha um método peculiar de assinalar o preço nos livros: em vez de um número, o cliente encontrava uma letra escrita a lápis na folha de rosto, que o livreiro depois traduzia num determinado valor, segundo uma tabela que presumivelmente ia evoluindo e de que só ele e os seus funcionários detinham a chave. 

Instalada num bonito edifício de uma das mais belas ruas do Porto, a Livraria Chaminé da Mota foi também sempre frequentadíssima por turistas (mesmo quando estes ainda não chegavam à cidade aos milhares), que se deixam encantar pela atmosfera da casa, com a habitual música clássica a tocar em fundo e uma panóplia de objectos expostos que inclui uma valiosa colecção de caixas de música ou um raro exemplar do fonógrafo criado por Edison. E Chaminé da Mota, um homem tão discreto quanto afável, tinha genuíno prazer em mostrar as suas relíquias, como o tinha em conversar sobre um autor da sua predilecção ou algum episódio pitoresco da história da cidade.

Doente há já alguns anos, tinha deixado o comando da livraria, que nos últimos tempos parecia estar um pouco limitada à gestão do seu imenso acervo, sem um esforço muito óbvio de renovação da oferta.