O teatro das Comédias do Minho é quase porta-a-porta

A companhia fundada em 2003 para servir os cinco municípios do Vale do Minho está de novo na estrada, até domingo,para cumprir uma das suas missões: levar o teatro até cada um dos 57 mil habitantes da região. No salão da junta, no quartel dos bombeiros, no centro cultural ou onde for preciso, aqui o teatro é mesmo para todos.

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Paulo Pimenta
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As pessoas aconchegam-se nos bancos, num dia frio, sarapintado pela chuva. As portas fecham, as luzes acendem, o motor arranca e a carrinha segue para mais um capítulo de um périplo pelo vale do Rio Minho em curso há já 15 anos. As Comédias do Minho nasceram em 2003, enquanto estrutura profissional de teatro para servir os municípios de Vila Nova de Cerveira, Valença, Paredes de Coura, Monção e Melgaço, e estão desde o início de Novembro a apresentar a sua mais recente produção, Sementes. O que, no caso desta companhia, é quase um serviço porta-a-porta.

Cerca de meia hora depois, quando a noite já banha o vale e tinge o seu verde de negro, a equipa chega ao seu destino: a sede da União de Freguesias de São Julião e Silva. Depois das passagens por Vila Nova de Cerveira, Melgaço e Paredes de Coura, as Comédias apresentam o primeiro de quatro espectáculos em Valença, repartidos, como é habitual, pelas freguesias e pela cidade. Tal critério na escolha dos locais, diz Luís Filipe Silva, um dos actores da companhia, enquadra-se na missão de “democratização e dignificação do cidadão” preconizada pela companhia sediada em Paredes de Coura. “Os nossos espectáculos são oferecidos”, diz. “A companhia é de todos: dos munícipes, das Câmaras e também dos artistas."

Quando chega a hora, o auditório improvisado, com quatro filas de cadeiras de madeira em frente ao palco, não recebe mais do que uma dezena de pessoas. Assíduo quando as Comédias visitam aquela zona, José Areias culpa o estado do tempo pelo número anormalmente baixo de espectadores. Mas há quem percorra quase um quilómetro a pé desde casa para ver teatro pela primeira vez. “Estava muita chuva, mas quis vir na mesma. Nunca vi”, confessa Maria de Lurdes Fernandes.

O desenho de luz de Vasco Ferreira, obrigatoriamente adaptado a um lugar sem as condições técnicas de um centro cultural, não tarda a incidir nos corpos das cinco personagens de Sementes, interpretadas pelos quatro actores residentes da companhia – Rui Mendonça, Tânia Almeida, Joana Magalhães e Luís Filipe Silva – e por Edi Gaspar, actor convidado. O assalto a um banco de sementes é a premissa para uma hora de teatro rodeada de tensão. A missão é devolver essas sementes à terra e assegurar a diversidade futura dos alimentos produzidos, perante o cenário já bem real de um mercado de sementes geneticamente modificadas, dominado por grandes corporações agroquímicas. Mas a busca é sinuosa e a dúvida ensombra as falas e as expressões dos assaltantes.

A dramaturgia de Fernando Giestas e a encenação de Rafaela Santos, ambos da Amarelo Silvestre, companhia co-produtora do espectáculo, foram realmente pensadas com o intuito de despertar os espectadores para a questão do futuro das sementes, afirmam ao PÚBLICO. “Na Amarelo Silvestre, temos sempre a preocupação de olhar o mundo e temo-nos apercebido de agricultores que cada vez mais negligenciam a prática de guardar sementes. Dizem comprar todos os anos para evitar riscos na produtividade”, explica a encenadora, sobre o ambiente que rodeia a companhia, em Canas de Senhorim.

Para transformar o assunto em teatro, Rafaela Santos diz ter-se inspirado sobretudo no livro Guardar as sementes – Preservar a biodiversidade agrícola e a pluralidade cultural (Deriva, 2017), da antropóloga Maria Helena Marques, na citação “comer é poder”, da física e activista ambiental Vandana Shiva, e no filme Stalker (1979), de Andrei Tarkovsky, para criar a ideia de labirinto durante o assalto.

Para a representante em palco do poderio das corporações, Joana Magalhães, a obra consegue retratar o impacto das empresas agroquímicas – a Syngenta e a Bayer são-no, por exemplo – nos hábitos alimentares do planeta, através do controlo das patentes das sementes. 

Intérprete de António, a personagem mais veemente na luta contra esse poder, Rui Mendonça diz que a peça surge diante do público "como uma interrogação". E as reacções de quem vê têm diferido. “Alguns ainda despertam para a questão. Outros já estão mais bem informados e vêem em toda esta ficção uma metáfora da luta de regresso ao passado”, refere. O actor crê mesmo que o tema vai “marcar os próximos anos do activismo político”, apesar de estar, por ora, em “13.º plano na agenda cívica”.

À saída, outra das espectadoras, Vanessa Cunha, elogia a peça por “retratar perfeitamente o problema”, antes de dizer, com orgulho pelo meio, que ainda mantém a prática. “Os meus pais e os meus avós guardavam. Eu também o faço. Apesar de ser relativamente nova, com 40 anos, ainda semeio, colho e guardo a semente, para voltar a fazê-la crescer”, reitera.

Para além do palco

Em exibição até domingo, dia em que sobe ao palco do Centro Cultural do Vale do Mouro de Tangil, em Monção (esta sexta-feira está no Cine-Teatro João Verde, na sede do concelho, às 21h30, e no sábado chegará à Casa do Passal de Pinheiros, às 21h), Sementes é a terceira produção apresentada pela companhia de teatro em 2018, após O Princípio da Incerteza e Ante Mim.

Mas a missão das Comédias do Minho estende-se além da sua temporada de espectáculos. Inclui também o projecto pedagógico, que actua junto de todos os alunos do pré-escolar e do 1.º Ciclo da região, mas não só – na iniciativa Atlas, por exemplo, cinco artistas de áreas diferentes trabalham com alunos entre os 12 e os 18 anos durante uma semana, no mês de Julho. O outro eixo da missão é o projecto comunitário, para fortalecer os laços com os grupos de teatro amador e com as associações culturais de um território com cerca de 57 mil habitantes.

No ano passado, os espectáculos da companhia reuniram 2218 espectadores, mas, graças aos dois outros projectos, as Comédias do Minho chegaram a um total de 12.659 pessoas. Directora artística desde Outubro de 2016, Magda Henriques realça que as Comédias não apenas sobreviveram, como foram capazes de se “complexificar”.

Esse crescimento, diz, foi possível graças às cinco Câmaras Municipais, que nunca puseram em questão o investimento, mas também ao projecto que dá corpo aos três eixos orientadores das comédias, desenhado em 2007 pela então directora artística, Isabel Alves Costa (1946-2009) – a histórica directora do Teatro Municipal Rivoli, no Porto – e por Miguel Honrado, até há bem pouco tempo secretário de Estado da Cultura.

Depois de 15 anos a trabalhar no Centro Cultural de Paredes de Coura, as Comédias mudaram-se, em Outubro passado, para o antigo quartel dos bombeiros voluntários, após um investimento de 220 mil euros. Agora dotado com espaço para residências artísticas, o edifício contém ainda o auditório onde vários courenses viram cinema e teatro pela primeira vez.

Semear o futuro

Mas apesar de sobressair pelo que faz no Vale do Minho, a companhia também está de portas sempre abertas a artistas de outras paragens. Depois de, em 2016, feito uma Ocupação Minhota no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, a companhia já agendou, para 2019, co-produções com o Teatro do Vestido e com o Teatro Meridional, também de Lisboa, refere a directora artística. Magda Henriques salienta ainda que a justiça social vai ser a bússola das produções das Comédias até 2021, embora a sua presença em palco não tenha de ser óbvia, como acontece em Sementes. “Aqui essa presença não é explícita, mas está na ideia de guardar as sementes. Implica que as nossas acções individuais podem ter consequências globais”, observa.

Há 13 anos no Alto Minho, Rui Mendonça vê as Comédias do Minho como “uma força viva que dinamiza as outras forças vivas” do território. Uma das vias para fortalecer os laços com a comunidade é o trabalho com os grupos de teatro amador, disseminados por todos os concelhos do Vale do Minho. Alguns deles, conta, tinham-se extinguido nos anos 80 e regressaram ao activo com o aparecimento das Comédias do Minho. Para o actor, essa relação deu origem a “alguns dos espectáculos de que tem melhor memória”, fruto de “um ou dois meses de ensaios muito intensivos”. Mas há outra marca que o trabalho tem deixado. Uma semente, mais propriamente. A da representação entre os mais jovens desses grupos: “Há dez anos, ninguém via a representação como uma profissão ou um futuro. Hoje em dia, temos vários jovens na faculdade, a quererem seguir a área.”