Us, uma curta para mostrar como é ser jovem, negro e gay

Us é uma curta-metragem que reúne dez britânicos queer e os põe a falar na primeira pessoa sobre ser jovem, negro e gay. O filme, dirigido por Catarina Almeida, lisboeta, e Chanel Baker, inglesa, foi criado no âmbito da licenciatura em Comunicação de Moda com especialização em Filme, da Universidade de Middlesex, em Londres, e foi estreado na revista Dazed & Confused.

Catarina, 21 anos, explica, ao telefone com o P3, o motivo que as levou a abordar a moda de uma forma tão imprevisível: “Sempre me senti fascinada com a condição humana e a sua vulnerabilidade. E penso que não tinha que fazer uma coisa literal e superficial, como colocar lá um par sapatos ou uma saia.” Por achar que a moda pode ser algo mais “relevante e importante”, decidiu “contar uma história” — ou dez. Procuraram, então, rapazes negros e queer, que estivessem disponíveis para contar, em frente a uma câmara, a sua perspectiva da masculinidade do homem negro e da falta de representação que ele tem na comunidade gay.

O filme encerra em si uma certa espontaneidade, visível, por exemplo, nas roupas de cada um: “Nós não lhes fizemos qualquer tipo de styling, eles vestiram-se de forma natural e acho belíssimo que no vídeo se veja o estilo deles, porque acabamos por perceber como eles são”, refere Catarina. As imagens dos participantes a conviver na rua, a rir, a posar para a câmara, enquanto partilham as suas experiências pessoais e desfazem preconceitos, permitem que o espectador entre na intimidade de cada um.

“Para os deixarmos à vontade, pusemo-los numa sala e dissemos ‘falem do que quiserem’. Eles começaram a falar de assuntos aleatórios, até que chegaram às experiências pessoais”, conta Catarina. Foi neste momento que se descobriram as histórias, como a de um jovem cuja família "fazia uma grande pressão para ele não ser gay e parar de agir assim” por motivos religiosos, ou de outro que ouviu as palavras "vou ter que te renegar", quando a irmã encontrou pornografia gay no seu telemóvel.

Um dos problemas que os jovens destacam na curta-metragem, e que Catarina sublinha, é o facto de as pessoas não ligarem a homossexualidade aos negros: “Eles disseram que a homossexualidade era sempre associada aos homens brancos, magrinhos e femininos e que não achavam isso normal”, refere Catarina. Além disso, a realizadora lamenta que o preconceito venha “muitas vezes da própria comunidade negra” e que haja tanta pressão para “o homem negro ser masculino e até mais violento”.

Para Catarina, a “beleza do projecto” residiu no facto de “todos eles terem encontrado um elo comum”. A realizadora queria que “as pessoas vissem o filme e se identificassem", que percebessem que "não é uma coisa estranha”. E essa é a ambição que Catarina leva para o futuro: “Criar qualquer coisa que possa gerar e abrir uma conversa, seja dentro da área moda ou não, quero sempre dar um significado ao meu trabalho.”

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