“Se assumir riscos, o Estado deve poder ser recompensado”

Leonor Sopas, professora na Católica Porto Business School, defende as vantagens da diversificação e aumento da complexidade da economia portuguesa, num processo que envolva vários actores, privados e públicos.

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Leonor Sopas coordenou o estudo “Diversificação e Crescimento da Economia Portuguesa” NELSON GARRIDO

Coordenadora do estudo “Diversificação e Crescimento da Economia Portuguesa”, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, Leonor Sopas explica como uma economia que produza mais produtos complexos, isto é que exijam a existência de mais saberes e capacidades, tem o potencial para crescer mais. Os autores – que incluem ainda Ricardo Ribeiro, Marisa Tavares, Vasco Rodrigues e João Meneses – encontram uma série de produtos que, dadas as características actuais da economia portuguesa, podem representar um bom caminho de diversificação.

O vosso estudo é sobre a complexidade dos produtos e das economias. O que querem dizer com complexidade?
Complexidade económica, o que significa é ser capaz de fazer coisas, ter capacidades para fazer. Não é aquele conhecimento que conseguimos adquirir no mercado comprando um equipamento ou acedendo a um manual de instruções. É o conhecimento que existe, não só nas pessoas, mas também nas organizações e na própria sociedade, na forma como nos conseguimos relacionar. Um produto é tão mais complexo quanto mais desse conhecimento que está na cabeça das pessoas e que está nas organizações é necessário para fabricar este produto. E um país é tanto mais complexo quanto mais produtos complexos consiga fabricar e consiga exportar com vantagem comparativa.

E essa complexidade significa mais crescimento?
Sim. A primeira parte do estudo verifica se é assim. Comparámos países com diferentes níveis de complexidade e verificámos que os países mais complexos, ou seja os que tinham uma estrutura económica mais diversificada, eram os países mais ricos. Depois tentámos perceber se, pegando num determinado país como Portugal, se aumentarmos a sua complexidade económica, daí resultaria um aumento do PIB per capita. E, confirmado isso, verificámos os caminhos para essa diversificação.

Que caminhos encontraram?
Um país pode diversificar a sua capacidade produtiva de diferentes maneiras, escolhendo diferentes produtos. As medidas de complexidade permitem-nos não só identificar os produtos que são mais complexos, mas também nos permitem aferir se a nossa estrutura produtiva actual está mais próxima ou mais distante desses produtos. O estar mais próxima significa que já temos em Portugal várias capacidades que são necessárias a esses produtos complexos. O estar mais distante, significa que vai exigir um esforço adicional. Criámos um mapa que mostra quais são os produtos em que Portugal tem vantagem comparativa e aqueles em que não tem. E quando falo em mapa é porque tenho mesmo uma rede em que os produtos aparecem no espaço, mais próximos ou mais distantes. Assim, já consigo ter visualmente uma ideia da distância que os produtos, em que Portugal tem vantagem comparativa, têm de outros produtos que ainda não fabricamos. Assim fica-se com uma ideia de caminhos a seguir e se esses caminhos vão ser mais difíceis ou mais fáceis.

Há produtos que se destacam?
Nós acabámos por destacar mais de 200 no conjunto de cerca de 800 possibilidades que conseguimos identificar. Nós partimos de uma base de cerca de 1200 produtos, desses excluímos aqueles em que já temos vantagem comparativa e nos outros produtos tentámos identificar aqueles (os tais 200) que cumprem os critérios de estarem relativamente próximos, de serem mais complexos e de colocarem o país mais próximo de outros produtos, abrindo-lhe novas oportunidades.

Exemplo?
Encontramos em Portugal oportunidades de diversificação naquilo a que geralmente se chama "máquinas e equipamentos", que abrange mais de 100 oportunidades de diversificação. Dentro do material de transporte, também encontramos algumas oportunidades de diversificação interessantes. Nos metais e produtos metálicos, nos plásticos e produtos de plástico, nos produtos químicos. Em vários sectores, encontramos uma concentração interessante de produtos-oportunidade. Depois, a escolha dos produtos vai ser uma escolha das empresas, não vai ser uma escolha de políticos ou académicos.

Depois de identificados os produtos, como é que se chega lá?
Para criar capacidades, para desenvolver saber de fazer preciso da contribuição de vários actores - e que não são só as empresas, são também as associações sectoriais, os centros tecnológicos, as organizações de interface, todos aqueles actores que trabalham com conhecimento e que são importantes para criar e transferir conhecimento. E não me posso esquecer do Estado, mas a trabalhar com as empresas, com as organizações do sistema de investigação e de inovação.

Qual deve ser o papel do Estado?
Vejo o Estado como parceiro. Do ponto de vista teórico, a nossa visão do mundo neste trabalho é evolucionista, que não é uma visão tradicional na economia. A visão evolucionista é algo que é muito mais de baixo para cima, as coisas vão-se construindo. Assume-se que nem o Estado, nem as empresas, nem outros actores têm informação completa sobre tudo. Sabem é que têm problemas que têm de resolver e na procura de soluções para esses problemas, sabem que vão cometer erros. Se aprenderem com esses erros, não há problema, quer do lado privado, quer do lado público. E portanto, o papel do Estado é o de parceiro das organizações privadas, não fica acima ou abaixo. É um parceiro essencial porque o Estado tem um controlo sobre recursos e sobre políticas públicas que são essenciais neste processo: a política de educação, de formação, de investigação e de inovação.

E assumir riscos, o Estado deve ter esse papel também?
Se assumir riscos, o Estado deve depois também assumir uma parte das recompensas quando o resultado é positivo.

Isso não acontece?
Em regra, numa visão da economia distinta da evolucionista, o Estado só deve intervir quando existem falhas de mercado, e se as coisas correm mal o Estado suporta uma parte do risco, mas quando corre bem o Estado não se apropria da quota parte equivalente à que o sector privado se apropriou. E hoje em dia há muitos instrumentos que permitem que a distribuição dos ganhos seja diferente. É importante o Estado ter esse retorno porque precisa desses recursos para financiar os próximos ciclos de evolução.

No seu estudo, os serviços não são analisados.
Infelizmente. Por não haver dados disponíveis.

O papel cada vez mais importante do turismo na economia portuguesa torna-a mais ou menos complexa?
Todas as actividades económicas exigem capacidades, exigem saber fazer. Não há razão nenhuma para que dentro do turismo não haja uma série de produtos ou serviços que sejam de elevado valor acrescentado e, portanto que sejam serviços complexos que há países que não dominam tão bem como nós.

Ouça a entrevista completa à investigadora Leonor Sopas no podcast Com Tempo e Alma: