Crítica

Portugal, a Ibéria e a Europa: cruzamentos criativos em quatro séculos de música

O último fim-de-semana foi palco, em Lisboa, de uma série de eventos musicais complementares entre si, dos quais, por impossibilidade de desdobramento físico de quem aqui assina, só uma parte será devidamente comentada.

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Ana Quintans e Carlos Mena defenderam com verve DR

Em co-produção com Fundação Juan March, decorreu na Fundação Gulbenkian o ciclo Iberia, dedicado às relações musicais entre Portugal e Espanha, e composto por quatro concertos de música antiga e duas curtas mesas-redondas. O período cronológico estendeu-se de c. 1550 a c. 1800; no concerto inaugural, só os 50 anos mais recentes ficaram de fora, enquanto os restantes se concentraram numa época ou num estilo.

O recital do cravista Pierre Hantaï percorreu, na primeira parte, peças desde Antonio de Cabezón (1510-1566) a Juan Bautista Cabanilles (1644-1712), enquanto a segunda parte foi dedicada a Carlos Seixas (1704-1742) e Domenico Scarlatti (1685-1757). Em tudo o cravista colocou a marca do seu virtuosismo, feito não só de fluidez e fulgor, mas também de clareza na articulação e de perfeição no balanço rítmico. As célebres variações sobre o tema Las Vacas, de Cabezón, soaram surpreendentes e acutilantes, enquanto as Passacalles de primer tono, de Cabanilles, apresentadas como primeira audição moderna, foram dadas de forma absolutamente feérica. A conexão estilística entre Seixas e Scarlatti foi sublinhada por uma interpretação em que não se negou ao primeiro o golpe de asa geralmente associado ao segundo, nem a este último a delicadeza galante característica do primeiro. Longe vão felizmente os tempos em que se tentava, com Seixas, demonstrar a oposição entre a alma portuguesa e a espanhola, e em que se supunha ter sido Scarlatti surdo à música ouvida em Lisboa!

De facto estava-se então em pleno período de assimilação, nos reinos ibéricos, da música coeva italiana, processo que se acentuou com a chegada de alguns dos seus mais destacados representantes, como Scarlatti. Pelo contrário, Jayme de la Té y Sagau, músico de origem catalã que residiu em Lisboa cerca de 30 anos (entre 1706-7 e 1736), é ilustrativo do anterior período de transição. Embora tenha montado na capital uma oficina de impressão musical, é hoje virtualmente desconhecido como artista; este ciclo deu-nos a oportunidade de o apreciar como compositor capaz da expressão textual mais veemente. Deliciámo-nos com a faceta amável da cantata a solo Ansia enemiga, mas também com a faceta furiosa e virtuosística, mais ao estilo italiano, da cantata a solo Qué me quieres, ambas defendidas com inigualável verve por Ana Quintans e Carlos Mena, respectivamente. As duas facetas surgiram bem representadas no último duo do programa, Miró a Matilde el Amor, uma obra belíssima que demonstra à saciedade o virtuosismo retórico do autor e, por implicação, a capacidade de realização artística e intensificação emocional da vida musical lisboeta de inícios do século XVIII. Contudo, sendo estas cantatas relativamente curtas e sem forma fixa, a opção de as interromper a meio para que o teclista mudasse de instrumento (cravo ou órgão) prejudicou desnecessariamente a percepção da sua unidade; também a opção de as intermediar com uma só peça para cravo de cada vez pecou por saber a pouco.

No que respeita à música vocal, o ciclo contou ainda com o Coro Gulbenkian, numa versão de apenas 16 vozes, sob a direcção segura e sensível de Pedro Teixeira. Este apresentou um programa de obras marianas ibéricas dos séculos XVI-XVII, em que avultou, na segunda parte, a estreia moderna do Magnificat do 8º Tom de Filipe de Magalhães (c. 1571-1652) e, na primeira, a Missa Maria Magdalena, a seis vozes, de Francisco Garro (c. 1556-1623). A textura frequentemente cerrada desta última obra deriva de um motete de Guerrero; o tratamento do Credo e especialmente o Sanctus e o Agnus Dei revelaram-se admiráveis, apesar de os naipes de soprano terem soado pontualmente pouco confiantes e coesos. Houve também ensejo de escutar, entre outras peças, a exploração magistral do hino Ave maris stella por Estêvão Lopes Morago (c.1575-c.1630); de Diego Ortiz (1510-1570), o motete Beata es Virgo Maria (raramente executado, mas bela ilustração do ideal de suavidade sonora da época); e a inspiradora energia de Estêvão de Brito (c. 1570-1641) no gradual Sancta Maria e no motete O Rex gloria, que fechou o concerto.

A parte cronologicamente mais recente do ciclo foi confiada ao quarteto de cordas Quiroga, cujas coesão e musicalidade foram patentes ao longo do programa, dedicado ao estilo clássico de raiz haydniana. A par da escrita competente e agradável, mas pouco aventurosa, de João Pedro de Almeida Mota (1744-1817) — um lisboeta que fez carreira em Espanha —, pudemos apreciar a inspiração do Quinteto para cordas com duas violas nº1, de José Palomino (1755-1810) — um madrileno que, a partir de 1733, se integrou na vida musical da corte e dos teatros lisboetas.

Enquanto se realizava este concerto, no Museu da Música dava-se a ouvir, através do pianista Philippe Marques, João Domingos Bomtempo (1771-1842), da geração seguinte, cujas referências se encontravam sobretudo em Paris e Londres. Ao princípio da noite, num programa intitulado Viena-Lisboa 1816-1916, a Orquestra Metropolitana, sob a batuta de Pedro Neves, apresentou no Teatro Thalia uma bela interpretação da Sinfonia nº 4 de Schubert, escrita em 1816, e o Concerto para violino de Luís de Freitas Branco, escrito um século depois. Embora haja ainda margem para que a interpretação cresça em equilíbrio orquestral e convicção solística, o violinista Carlos Damas alardeou segurança técnica e beleza tímbrica numa obra tardo-romântica, em muitos aspectos atractiva, sobre a qual pairam o melodismo de Grieg e o fôlego épico de Rimsky-Korsakov, especialmente patente na orquestração, onde sobressaem, de forma surpreendente, os metais.

Mais um século decorrido, Luís Tinoco escreveu Cassini em celebração dos 25 anos da Orquestra Sinfónica Portuguesa — mas sobre a sua estreia no passado domingo, no Centro Cultural de Belém, pela mesma orquestra, ao mesmo tempo que Té y Sagau era revelado na Gulbenkian, infelizmente só podemos especular.