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Imagem do projecto Filipe Balestra

Reabilitar em vez de destruir: Filipe quer salvar uma ponte na Suécia

Quando o Governo sueco decidiu demolir uma ponte histórica, Filipe Balestra propôs reabilitá-la através da construção de 50 apartamentos de luxo. A proposta foi recusada, mas o arquitecto não desistiu, recorreu ao Supremo Tribunal e diz ter um trunfo na manga.

“Se há uma maneira de preservar a ponte e poupar dinheiro, porque não?” Foi esta certeza em forma de pergunta que levou Filipe Balestra — arquitecto português de 36 anos, residente na Suécia há seis — a começar uma campanha para salvar uma ponte histórica de Estocolmo: a Gamla Lidingöbron.

A ponte que liga a capital sueca à ilha de Lidingö foi construída entre 1917 e 1925 e é, nas palavras do arquitecto, “uma varanda única com quase 100 anos”, que não só “tem um arco especial e único”, como também constitui um ponto de encontro para a comunidade: “As pessoas vão à ponte ver o pôr do Sol e até há histórias de pessoas a fazer casamentos lá”, conta ao telefone com o P3. Porquê, então, demoli-la?

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O projecto prevê um parque no topo da ponte. Filipe Balestra

“Querem construir uma nova. Há muita gente que não gosta de coisas velhas”, refere Filipe. Apesar de não haver qualquer risco de a ponte cair, o arquitecto acredita que a estrutura precisa de manutenção. Por isso, em 2010, juntamente com a Urban Nouveau — empresa que gere com Sara Göransson —, assinou um projecto de reabilitação da ponte para contornar a demolição e apresentou-o ao município de Lidingö, que "adorou a proposta". No entanto, foi apenas em 2018 que apresentou uma proposta completa ao Governo sueco, desta vez com o engenheiro António Adão da Fonseca e a construtora sueca Serneke na equipa. 

A ideia que propõem é a construção de 50 apartamentos de luxo debaixo da Gamla Lidingöbron, cuja venda pagaria toda a intervenção efectuada. O arquitecto explica os números: “A manutenção total da ponte não vai custar mais de 50 milhões de euros. Uma ponte nova em betão custa pouco mais, cerca de 70 milhões. Os 50 apartamentos podem ser vendidos pelo mínimo de 85 milhões de euros, dos quais 50 seriam para a renovação da ponte e o resto para construir os apartamentos.” Feitas as contas, o lucro seria de cerca de sete milhões de euros, “o que não é muito, mas é suficiente para preservar a ponte”.

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Filipe Balestra

A proposta foi recusada, mas os arquitectos recorreram da decisão ao Supremo Tribunal Administrativo da Suécia — o que bloqueia durante algum tempo o processo de demolição — e, em Setembro deste ano, puseram uma petição a circular (que conta com mais de três mil assinaturas), para “mostrar aos governantes" os comentários de "pessoas de todo o mundo" a dizer "que a ponte deve ser preservada”. O arquitecto refere ainda que, em Dezembro de 2016, a presidente da Câmara de Lidingö confirmou numa reunião que a "hipótese de demolição estava 'fora'" e que o projecto seria para "continuar". O apoio do município tornou os arquitectos da Urban Nouveau "imparáveis".

Além dos apartamentos, o projecto prevê a construção de um parque no topo da ponte, em vez do existente espaço para carros eléctricos, bicicletas e peões — estes passariam para a ponte vizinha, a cerca de 30 metros de distância, que seria reforçada para os poder receber. O resultado final seria uma “versão escandinava da High Line de Nova Iorque”.

Mas colocar apartamentos de luxo nesta ponte não vai acabar com a magia da sua história? A resposta é peremptória: “Não.” Para Filipe, este projecto é como a história do “Robin dos Bosques: tira-se dos ricos para dar aos pobres — ou à classe média, porque a Suécia não tem pobres”. O arquitecto sublinha que os apartamentos são a única forma de salvar a ponte, mantendo-a igual ao momento em que nasceu. “Vamos renová-la e entregá-la à civilização, para ela viver mais 100 anos.”

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Filipe Balestra é o arquitecto que quer salvar a Gamla Lidingöbron.

O arquitecto garante que não vai desistir e em Dezembro planeia apresentar uma “proposta irrecusável” ao presidente da Câmara, que no entanto não pode revelar. “Há cada vez mais gente contra a decisão de demolir”, realça. “Parece que não estão [o Governo] a perceber que é um crime cultural demolir uma ponte histórica como esta”, lamenta.

A reabilitação da Gamla Lidingöbron é mais um projecto que encaixa naquilo que a Urban Nouveau faz: em 2008, a empresa ajudou a renovar bairros na Índia e, em 2009, fez nascer uma escola numa favela brasileira. Por conhecerem o trabalho da Urban Nouveau, “cidadãos e arquitectos de Hamburgo e Praga já pediram ajuda para salvar duas outras pontes: a Freihafen-Elbbrücke e a Vyton.” Simultaneamente, estão a trabalhar no sentido de criar aldeias-ponte em Estocolmo, de forma a ligar bairros e a promover o sentido de comunidade, pouco existente no país. Afinal, “a arquitectura é a arte de puxar os limites do possível”.