Opinião

E no entanto ele também fez grandes filmes...

Sim, Bertolucci fez filmes tão desastrados ou mesmo horrendos como 1900, O Pequeno Buda ou Beleza Roubada. Mas também foi grande, às vezes mesmo grandíssimo.

As perfomances sexuais de O Último Tango em Paris e os nove Óscares de O Último Imperador, ganhando em todas as categorias para o qual estava nomeado, feito antes apenas ocorrido com Gigi de Vincente Minnelli (“Signor Oscar”, assim mesmo, em italiano, foi a capa da Time), eis as imagens de marca que ficam associadas a Bernardo Bertolucci (1941-2018). A responsabilidade é em grande parte sua, claro que sim, mas este selo é tremendamente injusto para um cineasta que quando foi grande foi por vezes mesmo grandíssimo.

Antes da Revolução, O Conformista, A Estratégia da Aranha ou A Tragédia de um Homem Ridículo são obras-primas. E, contra a generalidade das opiniões (estou bem isolado neste caso, sei-o bem), acho que mesmo O Último Tango em Paris é muito mais do que as tais performances sexuais. No seu confronto de homem que com a idade quer provar a si próprio a virilidade com uma jovem atraente, Marlon Brando é comovente (isso mesmo, comovente) – basta lembrar o incrível monólogo em grande plano em que o olhar parece vaguear para uma qualquer altura (de facto Brando estava a ler o texto num cartão colocado frente a si).

“Quem não viveu antes da revolução não sabe o que é a doçura de viver” é uma frase de um homem célebre pelo modo como foi sobrevivendo ao longo de regimes e disso se tornou um arquétipo, Charles Talleyrand (1754-1838), Um Homem Diabólico no título português do admirável filme sobre ele de e com Sacha Guitry. Como sobreviver ou, mais prosaicamente, como passar de uma idade a outra, necessariamente confrontando-se também com a sexualidade, é o tema de Antes da Revolução, que Bertolucci fez na sua cidade – e de Verdi –, Parma. De como sobreviver ou “simplesmente” considerar banal o quotidiano de participar no fascismo italiano tratou depois em O Conformista.

Tema do Traidor e do Herói se chama o conto de Borges que inspirou A Estratégia da Aranha – e o filho que descobre que o pai, supostamente um herói resistente morto pelos fascistas, foi afinal um traidor. Inversamente, houve o pai que suspeita que o filho, supostamente raptado pelas Brigadas Vermelhas a troco de um resgaste, é afinal um traidor que montou um estratagema para o extorquir, em A Tragédia de um Homem Ridículo.

Sim, Bertolucci fez filmes tão desastrados ou mesmo horrendos como 1900, em que Gérard Depardieu é o filho de camponeses e Robert de Niro o dos proprietários, épico da luta de classes vista do ângulo do “compromisso histórico” representado pelo líder dos comunistas italianos, Enrico Berlinguer (ao qual, quando da morte daquele, o cineasta dedicou um documentário), no que ele próprio designou o seu “período Mosfilm”. Ou como os três sucessivos filmes produzidos por Jeremy Thomas, O Último Imperador, Um Chá no Deserto e O Pequeno Buda, que vão indo da mega-produção histórica e exótica “de prestígio” ao desastre mais total. Ou ainda o ridículo do seu regresso a Itália mas com actores internacionais, Beleza Roubada.

E no entanto, convém repeti-lo agora, Bertolucci também fez grandes filmes, e chegou a ser grandíssimo.