Morreu Bernardo Bertolucci, o último imperador do cinema italiano

O Último Tango em Paris talvez seja o seu título mais "célebre", se o escândalo for a bitola. Quanto a Óscares, há os nove O Último Imperador. Mas a obra-prima será A Tragédia de um Homem Ridículo (1981), filme em que se confrontava com a Itália desses anos. Esses títulos mostram o calibre de um percurso: do cinema lírico sobre a experiência pessoal à megaprodução de prestígio.

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Ernesto Ruscio/Getty Images

Bernardo Bertolucci morreu de cancro esta segunda-feira, em Roma, aos 77 anos. O jornal La Repubblica, que avançou esta manhã a notícia, despede-se do realizador com um addio logo no título do obituário dedicado “ao último mestre do cinema italiano”.

O Último Tango em Paris (1972) talvez seja o seu título mais "célebre", se o escândalo e suas sequelas forem a bitola. Quanto a Óscares, houve O Último Imperador (1987): nove recebidos, entre os quais os de Melhor Filme e de Melhor Realizador. Mas a sua obra-prima talvez seja A Tragédia de um Homem Ridículo (1981), em que se confrontava com a "fealdade" da Itália desses anos. Vistos retrospectivamente, esses títulos mostram o calibre de um percurso: cineasta, poeta, documentarista, produtor, Bernardo Bertolucci tornou-se símbolo de um cinema internacional, passou do cinema sobre a experiência pessoal à mega-produção de prestígio.

Desaparecidos Pasolini (1975), Visconti (1976), Rossellini (1979), Fellini (1993) ou Antonioni (2007), Bernardo Bertolucci era possivelmente o último realizador italiano com uma projecção verdadeiramente mundial. Filho do poeta Attilio Bertolucci, os seus primeiros filmes, estreados no princípio dos anos 60, foram fundamentais para a percepção pública de um "novo cinema" italiano, nascido sob os auspícios da nouvelle vague e estabelecendo um relacionamento complexo com a norma do cinema italiano, quer o do "grandes mestres" quer o cinema popular. Títulos como La Comare Secca (1962) ou Antes da Revolução (1964), feitos antes de cumprir 24 anos, sinalizaram o lançamento fulgurante de uma nova sensibilidade no cinema italiano, a par com os filmes de Marco Bellocchio (apenas dois anos mais velho do que Bertolucci), e sob a égide intelectual e artística de Pier Paolo Pasolini (a principal referência dos dois, Bernardo e Marco).

Prima della Rivoluzione (1964)

Corpo e pensamento, psicanálise e política

Nascido em 1941 em Parma, começou a sua carreira no cinema aos 20 anos como assistente de Pasolini – em Accattone, de 1961. Na primeira vez que se viram, Bernardo confundira Pier Paolo com um ladrão – ele batera à porta da casa de Attilio, de quem era amigo, e Bernardo sentiu-se assaltado pela "violência" que via naquele corpo. Era uma das coisas bonitas narradas no documentário Bertolucci on Bertolucci, de Luca Guadagnino e Walter Fasano, realizado em 2013, que consistia basicamente no espectáculo do corpo e do pensamento de Bernardo, ele, um amoroso da psicanálise, a narrar-se, a interpretar-se e aos seus 50 anos de cinema. 

Começara por ser poeta aos seis anos, para imitar o pai, como dizia. Depois, trocou a poesia pelos filmes, e assim o foi matando simbolicamente. Política e psicanálise, Marx e Freud: a dieta dos interesses do jovem Bernardo Bertolucci era muito daquela época, e muito de Bernardo são as conversas sobre pais e filhos, em filmes como A Estratégia da Aranha (1970), La Luna (1979) ou Eu e Tu (2012). Pegue-se em Antes da Revolução (1964) e em A Tragédia de um Homem Ridículo (1981). O primeiro mostrava o burguês Bertolucci a querer fazer corpo com o que para ele era a hipótese de futuro: o proletariado. Logo no genérico inicial: “Quem não viveu os anos anteriores à revolução não sabe o que é a alegria de viver”.

A Tragédia de Um Homem Ridículo, de 1981

Mas já era um requiem. Que A Tragédia de um Homem Ridículo confirmaria a chumbo, sem doçura. A conversa sobre pais e filhos acabava. Ugo Tognazzi interpretava um industrial que ficava sem o filho, raptado por uma brigada terrorista, mas o filho e os raptores teriam sido cúmplices para extorquir dinheiro ao industrial. Era o “filme italiano sobre Itália” que Bertolucci queria fazer, filme impenetrável, parecia calar-se, o que deixou os espectadores da altura sem norte. Bertolucci também considerou que chegara a algo de terminal. Não conseguindo encarar mais a fealdade de Itália, como ele dizia, partiria à procura "da beleza", na China ou em Marrocos, em O Último Imperador ou Um Chá no Deserto (1990), este adaptando Paul Bowles, com os quais deixou beliscar a reputação: a revolução dava lugar à decoração.

Mas já antes, em O Conformista (1970), com Jean-Louis Trintignant, adaptando Moravia e investigando a "normalidade" do fascismo, dera um primeiro sinal de que procurava a grandiosidade e o impacto, na produção e no público a conquistar. Inaugurava-se com esse filme, exibido há pouco entre nós no âmbito do LEFFEST, o seu período de maior celebridade. Tal como boa parte da sua geração, claro, Bertolucci tinha sido também amoroso de Godard, com quem se zangou por alturas do revolucionário ano de 1968 e a quem, como uma nova declaração de amor para além de todas as turbulências, deu o Leão de Ouro de Veneza, na primeira vez que foi júri da competição, por Prénom Carmen (1983), filme in memoriam small movies (quem viu o recentemente estreado Godard, o Temível, de Michel Hazanavicius, teve, por fraquinho que fosse o filme, um vislumbre da tempestuosa zanga entre os dois: em O Conformista, o número de telefone e a morada do professor universitário anti-mussoliniano, refugiado em Paris, cuja confiança é suposto a personagem de Jean-Louis Trintignant conquistar correspondem ao que eram então as coordenadas da casa parisiense de Godard).

O Conformista, de 1970

Esses anos 70 inaugurados por O Conformista foram também os anos de O Último Tango em Paris (1972), o frisson com as acrobacias sexuais de Marlon Brando e Maria Schneider, sucesso de escândalo que ainda não deixou de ecoar (pelo que Schneider contou, anos depois, sobre episódios da rodagem); foram os anos de 1900 (1976), épico sobre as primeiras décadas do século XX italiano, resumido a um confronto entre forças progressistas e forças reaccionárias, o socialismo e o fascismo, num filme com vedetas do cinema americano (Robert de Niro, Donald Sutherland); e foram ainda os anos de La Luna (1979), onde uma actriz americana (Jill Clayburgh) interpretava a figura da "mãe" sobre a qual o filho projectava – ainda a reverberação psicanalítica – os seus fantasmas incestuosos. Este período encerra-se em 1981 com o referido A Tragédia de um Homem Ridículo, ecos dos "anos de chumbo" italianos, em diálogo com a sensação de falência moral da sociedade (como dizia o realizador Mario Monicelli a propósito do seu tremendo Un Borghese Piccolo Piccolo, realizado poucos anos antes, que "matava" a "comédia à italiana": "Os italianos tinham-se tornado infilmáveis por perda irreversível das suas características positivas").

Depois de Itália, o mundo

Depois de A Tragédia de um Homem Ridículo há então um hiato (marcado por um documentário de despedida a Enrico Berlinguer, em 1984, também espécie de requiem pelo comunismo italiano). Quando Bertolucci volta, vem já vestido de "cineasta internacional", indumentária que não voltaria a abandonar – é sobretudo tremendamente decepcionante O Pequeno Buda (1993). Depois de um último filme de produção e elenco totalmente internacionais – Beleza Roubada (1996) –, em que se sente um realizador a perseguir "temas" mas a fazê-lo de forma descaracterizada, levanta o pé do acelerador: apenas duas longas-metragens em 20 anos, Os Sonhadores (2003), evocação distanciada, romântica e desencantada em simultâneo, daquele período que circundou o Maio de 1968; e um surpreendentemente discreto e intimista fecho de obra, Eu e Tu (2012), história de dois meio-irmãos a descobrirem-se um ao outro enquanto se escondem na cave da casa da família, entre muitos ecos (em auto-citação ou auto-paródia expressas, de Antes da Revolução e até O Último Tango em Paris) e uma canção com a voz de David Bowie a narrar em italiano a história de um ragazzo solo e de uma ragazza sola.

Dependia há anos de uma cadeira de rodas, depois de ter sido operado a uma hérnia discal. Num dos seus últimos filmes, Sapatos Vermelhos, curta feita para a encomenda dos 70 anos do Festival de Veneza, Future Reloaded, e que era um pequeno clarão, era assim que o víamos, na batalha diária para circular pelo Transtevere romano.