Comentário

Álvaro Malta (1931-2018), um cantor para recordar

Intérprete indissociável da Companhia Portuguesa de Ópera e do São Carlos, era o último sobrevivente das lendárias récitas de Maria Callas em Portugal.

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Álvaro Malta, falecido no passado sábado aos 87 anos, foi um dos mais proeminentes cantores de ópera portugueses durante três décadas, as de 50, 60 e 70, um dos raros, raríssimos, que eram efectivamente notáveis. Para isso contribuiu o facto, ainda mais raro, de possuir, além de uma bem timbrada voz de baixo e de um indiscutível sentido musical, grandes qualidades cénicas, nomeadamente – embora não só – em papeis bufos, sendo capaz de uma irresistível comicidade; a título de exemplo, cite-se o seu Semicúpio em Guerras de Alecrim e Manjerona, de António Teixeira e António José da Silva “O Judeu”, numa encenação de Jorge Listopad apresentada em 1978 no Salão Nobre do Teatro Nacional de São Carlos.

Tinha outra singularidade: além de cantor de ópera, era médico, obstetra. As duas facetas conjugaram-se aliás de modo muito peculiar. Depois de ter concorrido, sem qualquer formação de canto, a um anúncio para coralistas no São Carlos, tendo sido recusado, conseguiu entretanto, já com alguma formação, ser admitido numa segunda tentativa. E foi com os proveitos do seu trabalho no coro do teatro, e entretanto num ou noutro pequeno papel, que conseguiu pagar o curso de medicina.

A pouco e pouco, foi tendo mais oportunidades na ópera. Aquela decisiva surgiu quando teve de substituir um outro cantor, doente, no papel titular do Fausto de Gounod. No São Carlos foi cantando com grandes intérpretes internacionais, como Boris Christoff no Boris Godounov de Moussorgski (e o Boris búlgaro, o cantor, foi um dos máximos intérpretes do Boris russo, o da ópera) e sobretudo Maria Callas nas lendárias récitas da Traviata em 1958, que uma muito posterior edição discográfica tornaram mundialmente conhecidas e aclamadas como um dos máximos momentos de “La Divina”. Álvaro Malta, que interpretava o Barão Douphol, era o último sobrevivente dessas récitas lendárias.

Com a constituição da Companhia Portuguesa de Ópera, a ópera do Teatro Trindade, sob a égide da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT, antecessora do actual Inatel), Malta tornou-se, como seria óbvio, uma das suas pedras angulares. E foi aí que, salvo erro em 1971, teve o seu máximo triunfo, no papel titular do Don Quichotte de Massenet.

A Compania Portuguesa de Ópera foi extinta após o 25 de Abril. Todavia, alguns dos seus elementos tornaram-se depois cantores residentes do São Carlos e Álvaro Malta foi um deles.

Quando Serra Formigal, que tinha sido fundador e director da “ópera do Trindade”, foi nomeado director do São Carlos, em 1981, a polémica estalou forte. Sem qualquer razão para isso, já que o que se contestava era o projecto e as suas consequências artísticas, Malta anunciou que se retirava devido aos “ataques” dos jovens críticos aos cantores portugueses. Se havia alguns cantores incontestáveis (poucos, é certo, mas isso ainda os tornava mais relevantes), Malta era certamente um deles.

Pontualmente ainda foi cantando pelo país pequenas óperas ao longo dos anos 80, mas afastou-se de facto do São Carlos.

Em 2015, quando a então administração da Opart, a entidade que rege o São Carlos e a Companhia Nacional de Bailado, quis homenagear Elsa Saque no âmbito do Festival Ao Largo, homenagem mais do que justificada, foi ela que disse que só aceitaria se Álvaro Malta fosse também homenageado – o que veio a suceder.

Mas se Malta estava esquecido tal foi consequência de opções suas; que estranho caso o deste cantor português que se tinha feito esquecer quando era um dos raros, raríssimos, da sua época, para efectivamente recordar. Que o seja pois.