Crónica

O Rafiq de Mtwara

Na extraordinária e belíssima África, o rigoroso planeamento de uma viagem — à maneira ocidental — pode subitamente tornar o agradável em desagradável. O sentido do improviso é uma das faculdades mais necessárias.

Há uma fotografia que revisito com alguma frequência na minha memória, como se de um flash se tratasse: a imagem do Rafiq de Mtwara, um jovem que nos apareceu do nada, na Tanzânia, na escuridão da estrada, apenas ao alcance do muito curto horizonte que os faróis da viatura nos permitiam ver. Encontrávamo-nos perdidos à saída da cidade de Mtwara. Este amigo fez questão de voltar atrás alguns quilómetros para nos indicar o caminho, quando apelámos à sua ajuda.

Como fotógrafo, prezo instintivamente estes registos de memória que vou fazendo. Temo que a minha própria faculdade individual em armazenar essas mesmas imagens seja assaltada pela extrema confiança que nelas vou depositando. É um defeito meu, eu sei, mas tendo a deixar-me levar cada vez mais pela fotografia.

Ainda a madrugada despertava quando o jornalista Manuel Carvalho e eu, preparados para nos fazermos à estrada e com todos os minutos cronometrados, nos sentimos por instantes enclausurados na guest house, onde provavelmente tínhamos sido os únicos hóspedes a pernoitar. Vínhamos de Nevala, depois de termos admirado o grande vale do Rovuma e visitado o Boma, a fortaleza alemã erguida durante a Grande Guerra.

Gritei com toda a minha voz a chamar por alguém para sairmos da estalagem, julgando que a proprietária teria pernoitado noutro lugar e que não lhe tínhamos feito entender a nossa necessidade de, àquela hora, já estarmos a caminho para atravessarmos para a outra margem do Rovuma e regressar a Moçambique. Entretanto, Eva, a nossa anfitriã, despertou ao meu chamamento e lá veio abrir as grades para nos pormos a caminho.

Os tanzanianos são de longe melhores do que os franceses e os espanhóis todos juntos no que diz respeito à preservação do seu idioma. Pelo menos nesta região, dificilmente conseguimos comunicar noutro idioma senão o suaíli. A nossa estalajadeira não nos dirigiu uma única palavra em inglês, apesar das nossas vãs tentativas, esforçando-nos o máximo possível para entendermos a língua. Apenas os sorrisos fizeram as honras.

O cansaço que carregávamos no corpo era do tamanho de uma longa, poeirenta e dura picada em terra batida, enfrentada durante lentas horas de deslumbramento.

Nada que se comparasse aos horrores e às fadigas desumanas suportadas pelas populações e pelos militares no Rovuma durante a Grande Guerra. A nossa fadiga era-nos, aliás, sugerida pela memória desses homens e mulheres que deambularam ao longo de centenas de quilómetros pela majestade do Rovuma, a pé, transportando artilharia, toneladas de mantimentos ou carregando os feridos em combate ou os combalidos pela malária ou a disenteria.

A caminho da fronteira de Kilambo, na Tanzânia, tínhamos como objectivo atravessar o Rio Rovuma em direcção a Namoto. Kilambo é das principais portas fronteiriças de entrada em Moçambique. Chega-se lá num batelão muito concorrido e com a sua navegabilidade literalmente comprometida pelas marés, porque, quando chega a hora de vazar as suas águas, o Rovuma expõe largos bancos. Há dias em que a travessia é feita apenas numa viagem de ida e outra de volta, deixando para trás uma enorme fila de viaturas ligeiras e de camiões repletos de mercadorias. Muitos passageiros, com alguma sorte, embarcarão no dia a seguir. Outros vão arriscando o transporte em pequenas barcarolas que se fazem à correnteza das águas.

Na extraordinária e belíssima África, o rigoroso planeamento de uma viagem — à maneira ocidental — pode subitamente tornar o agradável em desagradável. O sentido do improviso é uma das faculdades mais necessárias.

Assim que conseguimos fazer-nos à estrada, às cegas, em direcção a Kilambo, julgávamos que tudo estava sob controlo. A única coisa que não prevíramos era que o nosso GPS, o contacto directo com as pessoas que fomos encontrando, seria em suaíli. Perdidos na madrugada à saída de Mtwara, num labirinto de estradas em terra batida e algumas em obras, demos pelo menos duas vezes connosco numa estrada que terminava no recreio do que naquela escuridão nos pareceu ser uma escola primária. Desesperados para chegarmos a tempo de apanharmos o batelão e sem vislumbrarmos o que seria a estrada principal, cruzámo-nos no meio de nada com Rafiq. Um rapaz generoso e que ainda hoje vejo sorrir na minha memória. Era um sorriso muito genuíno e de olhos cativantes. Quase não precisámos de comunicar para que ele percebesse que estávamos perdidos.

Imediatamente pusemos a sua bicicleta na viatura. Sempre sorridente e a gesticular, Rafiq apontou-nos, no meio daquela escuridão, a saída do labirinto em que nos encontrávamos.

Gostaria de ter sabido mais sobre ele, mas o tempo e a barreira da língua que se impunha entre nós, levou a melhor.

Chegados a Kilambo, nas margens de um rio que viveu guerras duras e que agora fervilha de vida e juventude, reparámos que todos se tratavam por Rafiq. Com surpresa, compreendemos o sentido do significado do termo rafiq. Uma palavra de origem árabe que quer dizer amigo gentil, bondoso, aquele que, para ajudar a solucionar os problemas dos outros, age com muita sabedoria. Afinal, o nosso amigo de Mtwara não se chamava Rafiq. Terá usado o termo para nos aceitar como seus amigos.

Foi assim que naquela madrugada ficámos por instantes a observar Rafiq, uma estrela cadente que apareceu e, enquanto acenava, despedindo-se, montado na sua bicicleta, foi desaparecendo, a caminho de mais um dia de cultivo nas suas terras.

PÚBLICO -
Foto
"Rafiq" e Manuel Carvalho Manuel Roberto