Jazzé, 50 minutos de filme

Oitenta anos de vida, 60 do primeiro programa de rádio, quase 53 dos Cinco Minutos de Jazz: José Duarte deixou-se retratar num documentário de Jorge Paixão da Costa, que a RTP promete estrear ainda este ano. Histórias com jazz e outras músicas, a que ele acrescenta outras, nesta conversa.

O filme ainda não se estreou, mas o nome diz tudo: Jazzé Duarte. A ideia foi do cineasta Jorge Paixão da Costa, que se bateu por ele. Arranjar os fundos necessários não foi fácil, mas conseguiu-o. E o documentário já foi mostrado numa sessão na Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), em antestreia, num final de tarde, com a presença do “retratado”: José Duarte, em pessoa. No ano em que completou 80 anos, foi uma forma de os celebrar. Não que ele o quisesse, ou se empenhasse particularmente nisso. Mas aceitou o desafio e não se arrependeu. Na casa onde há anos vive com a mulher, Frances, um quarto andar na Lapa — em que discos, fotografias, cartazes, quadros e múltiplos objectos compõem o registo de uma memória histórica onde vida e música se combinam —, José Duarte recorda ao P2 como começou a aventura do filme. “Apareceram cá em casa uns homens que me propuseram pôr a minha vida em imagem. Não é que eu seja vaidoso, até tenho altos complexos em relação a mim próprio. Aceitei. Ainda não [se] estreou. Ouvi dizer que este ano irá para o ar, na RTP, não sei em que canal. E depois vai para a despensa, para ser arrumado.”

Não se julgue, no entanto, que o filme lhe desagradou. Pelo contrário, viu-se representado nele. “Acho que não estou mal. Conheci-me por fora. Porque um homem, quando vive com ele, conhece-se bem por dentro mas por fora é que não se conhece nada. Tenho costas largas, e curvas, e sou lento. Lento é intencional, para não cair, para ter tempo de me equilibrar. De resto, não ficou nada de essencial por dizer, porque andámos praticamente dois anos para fazer aqueles 50 minutos. E gosto da ideia de, no dia dos meus anos, véspera de São João, irmos de manhã ao British Bar, no bairro onde eu cresci, e à tarde à Praça das Flores, um sítio que agora está bastante melhorado, onde eu vivi e cresci.”

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"Um homem, quando vive com ele, conhece-se bem por dentro mas por fora é que não se conhece nada"

É da PIDE? Então paga mais

Nascido em 23 de Junho de 1938, em Lisboa (no Bairro Alto), José Duarte está há 60 anos consecutivos na linha da frente dos divulgadores do jazz em Portugal. Jazzé, alcunha usada no título do filme, deve-se a Raul Calado (1931-2018), que lha inventou. Não só. Em 1958, desafiou-o para participar na fundação do Clube Universitário de Jazz, como alternativa ao Hot Clube (este fundado em 1948) e que viria a ser fechado pela polícia em 1961. “Outro falhanço da minha vida”, diz ele, lamentando que tenha desaparecido. “Tinha uma solução harmónica muito boa, havia pessoas de todas as classes. Jovens, não havia droga, a não ser um saxofonista barítono belga, que se refugiava na casa de banho. Se hoje existisse, era o fim.” Das muitas histórias vividas durante a efémera existência do clube, recorda uma: “Quando havia música, pagava-se cinco escudos. Um dia chegou lá um tipo que disse: ‘Eu não pago.’ ‘Porque é que não paga?’, perguntou-lhe o colega que estava à porta. ‘Porque sou da PIDE.’ ‘Então, para entrar, tem de pagar mais.’ O pide foi-se embora, não entrou, e eu achei que ele estava tramado, que ia preso. Não foi. Está vivo e está bem. António Manuel Garcia Fonseca, chama-se ele. Acho que não mediu o que estava a fazer, não percebeu.”

Quem assistir ao documentário ouvirá de viva voz várias histórias, umas já conhecidas, outras menos. E por elas passam muitos vultos do jazz, como Armstrong, Miles e tantos outros. Histórias como a do encontro que ele relata, com o contrabaixista Charlie Haden, num festival de jazz na Polónia, pouco antes do primeiro Festival de Jazz de Cascais (organizado por Luís Villas-Boas e João Braga, entre outros), cuja primeira sessão foi a 26 de Novembro de 1971. No quádruplo disco comemorativo dos 40 anos do programa Cinco Minutos de Jazz, escreveu a história desta maneira: “Conheci Charlie Haden em Varsóvia em Novembro de 1971 e foi lá que o convenci a vir tocar a Lisboa, Portugal, que não era ‘um país fascista’, como ele dizia. ‘Não há países fascistas, há sim governos fascistas, o que é substancialmente diferente.’ Ele, pasmado, concordou. Ainda lá, tudo preparámos, como a sua intervenção em palco dedicando Song for Che aos movimentos de libertação das então colónias portuguesas em África. Treinos de pronúncia correcta de Angola, Moçambique e Guiné. Foi preso por uma tarde, a do dia seguinte, pela PIDE-DGS, depois libertado e proibido de voltar a Portugal.” Voltaria numa Festa do Avante!, do PCP, em 1979.

Estreia na rádio, há 60 anos

Recuando ao ano da fundação do Clube Universitário de Jazz, foi também em 1958, há 60 anos, que José Duarte teve o primeiro programa radiofónico. Era na Rádio Universidade e chamou-lhe O Jazz, Esse Desconhecido. Mais tarde, em 1966, criou o célebre Cinco Minutos de Jazz, também com uma história já muito contada. Pediram-lhe cinco minutos para integrar um espaço radiofónico de quase 50 minutos, ele ainda tentou pedir mais tempo, não conseguiu, e os cinco minutos lá ficaram. E com eles o título. Transmitido pela primeira vez em 21 de Fevereiro de 1966, na Rádio Renascença (o indicativo original, que permanece até hoje, é o tema Lou’s blues, de Lou Donaldson), permanece o programa de jazz mais antigo da rádio portuguesa, transmitido agora pela Antena 1. Em 2014, recebeu o Prémio Autores da SPA para Melhor Programa de Rádio. Quantos já terá feito? “Eu numerava-os”, diz. “Mas quando cheguei aos 15 mil baralhei-me e deixei de os contar.” Só põe aquilo de que gosta? Diz que não. “Meto discos que caibam, primeiro que tudo. Os que têm mais de cinco minutos, até sete ainda entram, embora com dificuldade. Ponho os discos de que gosto e os que, apesar de não gostar, cumprem a obrigação de divulgação. Custa-me, mas meto. Não oiço.”

Não é a sua única intervenção na rádio. É também dele a escolha de temas e discos para o Jazzin’, um canal online de jazz da Antena 2 e da RTP, inaugurado em Janeiro de 2017 e que apresenta música em contínuo, 24 horas de jazz por dia. Para trás, ainda na rádio, criou ou esteve ligado a outros programas, em nome próprio (A Menina Dança?, Jazz com Brancas, À Volta da Meia-Noite) ou em colaboração com outros autores (como Pão com Manteiga ou Abandajazz). Na RTP2 teve os programas Outras Músicas (1990 a 1993) e Jazz a Preto e Branco (2001). Responsável pela gravação do primeiro LP de jazz gravado ao vivo e editado em Portugal com músicos estrangeiros (Estilhaços, de Steve Lacy, registado em Lisboa, em 1972, no antigo Cine-Teatro Monumental, no 6.º aniversário do Cinco Minutos de Jazz), é autor dos seguintes livros: João na Terra do Jaze (1981), Jazzé e Outras Músicas (1994), Cinco Minutos de Jazz (2000), História do Jazz (2000), Jazz, Escute e Olhe — Portugal 1971-2001 (2001) e Poezz — Jazz na Poesia em Língua Portuguesa (2004). Foi também fundador e director da revista trimensal bilingue O Papel do Jazz (1997-1998) e, na imprensa, entre jornais e revistas, escreveu numerosos artigos sobre jazz e outras músicas, o primeiro dos quais no Diário de Lisboa, em 1960. Coligidos no primeiro livro há, por exemplo, e a par de vários textos sobre jazz, artigos sobre os Beatles, Edu Lobo, Blood Sweat & Tears, Melanie, Fernando Tordo, a Tropicália, Johnny Cash, Joan Baez, Frank Sinatra, Manuel Freire, até a Apolo XIII (mandaram-no como enviado do Zip à NASA, em 1970, e ele lá se desenrascou como pôde, vale a pena ler a história).

Vozes feias são as melhores

Mas é pelo programa Cinco Minutos de Jazz, muitos milhares de minutos já, no ar há 53 anos, que José Duarte continua a ser mais conhecido. Como é que ele gere tal produção diária? “Ao fim destes 53 anos, vario. Às vezes é dedicado a um músico, a um tema. Quando a minha neta Stella nasceu, fiz um mês com Stella by starlight, um standard, em versões diferentes, Miles, Parker, só génios a tocarem o tema da minha neta.” Uma chefia antiga disse-lhe uma vez, há anos: “Você não pode pôr a mesma música a tocar durante uma semana.” E ele respondeu: “Não é a mesma música, é o mesmo tema. Mas os improvisos fazem versões diferentes.” A chefia não se deixou demover: era a mesma música e pronto. “Proibido. Não fiz. Mas a chefia mudou e a liberdade chegou.” Para ele e para todos. E Stella by starlight teve 22 versões, uma para cada noite do programa em Junho de 2017.

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Num dos programas, há anos, apresentou Strange Fruit, na voz de Billie Holiday, como “a melhor canção escrita no século XX, um manifesto anti-racista”. Não mudou de opinião. “A melhor? Claro! Ainda por cima estou agora a ler um livro sobre a canção e os vários artistas que a cantaram, do Sting ao Tony Bennet, uma variedade de estilos e vozes. Aquilo é de facto o primeiro panfleto sonoro, uma peça tristemente célebre [o “estranho fruto” de que fala a canção eram negros enforcados em árvores, assassinados por puro ódio racial]. E feita por um homem que não se chama Lewis Allan, como diz nos discos, mas sim Abel Meeropol [1903-1986; escritor e compositor americano, filho de judeus russos imigrantes; Lewis Allan era o seu pseudónimo, e foi com ele que escreveu Strange Fruit, em 1937].

A distinção de Strange Fruit estende-a José Duarte à sua histórica intérprete, a primeira e a melhor entre tantos outros que se lhe seguiram: “Billie Holiday foi e é a cantora. Se se fala em vozes de jazz, só se pode falar na Billie. Tudo o resto são vozes que passam.” Todas, mesmo Ella Fitzgerald? “A Ella é tecnicamente, de longe, a melhor. Mas a validade da obra cantada não se mede por técnica. Há uma coisa que a Billie tem e ninguém mais tem, que é a versão, o meter a canção dentro dela e sair cá para fora outra coisa. Ela canta e acrescenta o drama que aquela canção já tem. E é uma voz feia, a da Billie. Já cheguei a uma conclusão: as melhores vozes que cantam jazz, e outras músicas, são feias. Dou três exemplos: a Billie, o Alfredo Marceneiro (imbatível!) e o Louis Armstrong.”

Melanie e Barbra Streisand

Mas nem só com “vozes feias” (na acepção que ele lhes dá) se entusiasma José Duarte. Em 1969, num dos muitos textos que ia escrevendo para jornais e revistas, lê-se esta frase: “O gira-discos iniciou a sua monótona tarefa e eu comecei a viver, auditivamente falando, alguns dos momentos mais felizes e importantes da minha vida: a voz de Melanie.” Falava de Melanie Safka, cantora norte-americana que na altura tinha apenas 22 anos e estava em início de carreira, estreando-se com o disco Born To Be (1968). Chamou-lhe então, a fechar esse texto, “a voz mais interessante da moderna geração cantante”. Recorda-se bem disso, ainda hoje. “Apaixonei-me pela Melanie — foi muito popular em Portugal. As peças dela tinham uma característica bonita, infantil, pouco adulta. Ela também era bonita e cantava aquilo com uma ingenuidade muito grande. Gostava à brava dela.”

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Um dia, a TAP, onde ele trabalhava, mandou-o em serviço a Nova Iorque. “E tive a suprema sorte de ela cantar no Carnegie Hall. A sala às escuras, só com luzes acesas entre a assistência. No final, pela única vez na vida, fui esperar na fila que me levava ao camarim. Estive lá meia hora. Entrei, sozinho. Ela também estava sozinha, a beber vinho branco, ofereceu-mo, eu disse que preferia tinto. Perguntou-me: ‘É português?’ ‘Sou.’ E ela: ‘A minha avó é de Lagos.’ Fiquei vidrado. ‘Já lá estive, em miúda. A minha avó emigrou para aqui.” José Duarte voltou com a ideia de a trazer a Portugal para tocar. “Não o fiz. Mas ficou a ideia.”

Falando de cantoras, outro nome inesperado, nas preferências de José Duarte, é Barbra Streisand. “Cheguei a gostar muito, e ainda gosto, dela. É uma cantora fora de série. Eu ouvia-a à vol d’oiseau. Um dia sentei-me para ouvir com atenção e disse: isto é cantar! É uma mulher activa, de esquerda (é contra a trampa!), e tem uma voz que ninguém tem. Atinge registos que não têm nada que ver com os da Melanie. Mas também gosto muita da Dinah Washington [1924-1963], que cantava blues e tocava piano. Bebia, mas não em excesso, e isso dava-lhe uma certa alegria. Tinha frontalidade, era uma mulher brava.”

João Paulo Esteves da Silva

O efeito surpresa, ao fim de tantos anos de audições em disco ou em salas, não se dissipou em José Duarte, garante. Diz até que, e atribui isso à idade, se emociona mesmo quando há algo que o toca: “Nessa altura, choro.” Ainda recentemente se surpreendeu num festival, o Guimarães Jazz. “Tive várias surpresas. O Aziza [Dave Holland, Chris Potter, Kevin Eubanks e Eric Harland]; depois o Marquis Hill e a sua banda, que apresentou maturidade mas com novidades, outro génio de deixar a pessoa sentada; e terminou com a orquestra de Mingus, onde ouvi um saxofonista muito jovem, branco, que me fez sentir o desespero de ser português. E pensar para mim: ‘Os jovens portugueses que tocam saxofone em Portugal hoje não te devem espantar porque conheces este, que está a quilómetros de distância.’ Tal como o pianista, um jovem mulato, fabuloso tecnicista e inventor de sons! Impressionou-me imenso. E depois os dois tenores, toda a parte de saxofones, foi uma maravilha!”

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José Duarte diz que não há jazz europeu nem há jazz português. “O jazz é uma música americana.” Mas isso não o impede de reconhecer a qualidade dos músicos portugueses que vai ouvindo. “Há um que é fora de série. Chama-se João Paulo Esteves da Silva, vou homenageá-lo na terça-feira [dia 27, às 18h], no CCB.” Será numa das sessões audiovisuais de divulgação do Jazz em Portugal que vai fazendo em diversos espaços (este ano já soma 42), e a de terça-feira, em ligação com o programa Cinco Minutos de Jazz, é um tributo ao pianista João Paulo Esteves da Silva, designado como “O pianista português de jazz”. Além disso, ele homenageia ainda a associação Porta-Jazz (Porto) e a editora Sintoma Records, “duas empresas portuguesas que já colocaram no mercado cerca de 80 CD de jazz”.

Há mais músicos portugueses, que ele queira referir, no panorama do jazz, além de João Paulo Esteves da Silva? “Nélson Cascais, pela discografia publicada, e um tipo que é misteriosamente pouco conhecido e que se chama Mário Santos. E gosto do Paulo Perfeito — é perfeito.” De João Paulo Esteves da Silva lembra-se, em particular, de um espectáculo que foi “ouver” (para usar uma expressão sua) à Malaposta: “Gostei muito de um trabalho dele e da Ana Brandão, ela a cantar/recitar Pessoa e ele no piano. Foi lindo, lindo, 5 estrelas. Tem muito pouco que ver com o jazz, quase nada, mas é uma música superior.”

Outro João, em terras de jazz

Há hoje mais gente a ouvir jazz em Portugal dos que nos anos 1960? “Acho que não. As pessoas não vão ouvir jazz, vão ouvi-lo porque é na Casa da Música, na Culturgest, no CCB, na Gulbenkian. Vão às salas, não vão ao jazz! E depois batem palmas em demasia e nos sítios errados. E pedem encores como o dos três quartos de hora do Brad Mehldau no CCB! Tudo isto é mau comportamento. Eu digo no meu documentário, e é verdade, que o Duke Ellington estava com a orquestra em cena e disse: ‘Vamos tocar uns blues enquanto vocês se sentam. E quando estiverem sentados, se baterem as palmas no tempo forte, saímos todos.’ Agora, ponham o público das nossas salas a bater as palmas bem!”

Mas, apesar do que o contraria no que ouve e vê, há momentos que valem por uma vida. “Ia a sair de um concerto em Guimarães, a caminho do hotel, chuviscava, e aproxima-se uma senhora com um miudito desta altura [pequeno, pelo gesto] e diz: ‘Senhor Zé Duarte, desculpe, eu sei que está a chover mas queria-lhe apresentar o meu neto; ele não vai para a cama sem ouvir os Cinco Minutos de Jazz.’ E eu disse: ‘Ai é?’ Olhei para ele, ele olhou para mim, perguntei-lhe: ‘Como é que te chamas?’ ‘João.’ Aquilo tocou-me. Porque tive um filho que durou dois anos que se chamava João. ‘Sabes jazz?’, disse eu. ‘Então vou-te fazer uma pergunta: como é que se chama o trompetista de jazz de que gostas mais?’ E ele respondeu: ‘Miles Davis.’ Isto foi há três anos, ele hoje terá uns 6 anos ou 7. Só isto já valeu os meus 60 anos de trabalho. Oxalá não seja como os outros Joões, que viva!”

Foi morte súbita, uma bactéria. “Na véspera estive com ele, os dois sentados no chão, a ensinar-lhe o que era uma moeda de um escudo. E no outro dia... não me esqueço do grito da mãe. Tinha dois anos, um mês e 12 dias. Este ano teria 49.” O primeiro livro que José Duarte escreveu (publicado em 1981 pel’A Regra do Jogo), João Na Terra do Jaze, é-lhe dedicado: “À memória do João, com Aires da mãe e Duarte do pai.” José Mário Branco, no prefácio, também se lhe refere: “Um, dois, três, quatro. isto não acaba, Zé, vós todos de algum modo resistentes, em nome de todos os Joões que a vida-cabra nos foi levando.”

No ano em que João morreu, 1971, José Duarte escreveu o poema que dá título ao livro e o integra, a páginas 142-144, João na terra do jaze. Datou-o de Outubro de 1971. Um mês depois, em Novembro, escreveria um outro texto, na forma gráfica de poema, para o LP de estreia de José Mário Branco, Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades. Dizia assim (escrito sem maiúsculas): “estamos perante um mural sonoro/ do portugal das últimas gerações/ (...)/ aqui o circo foi desmantelado/ com todas as ferramentas do som.”

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Tirou da cabeça a ideia de ter filhos, até que, convencido por Frances, sua terceira mulher, tiveram duas filhas: Rita, que é advogada; e Adriana, que canta e já gravou dois discos. “Hoje sou feliz com as minhas filhas”, diz José Duarte. Com as filhas e com as netas, uma nascida em 2017 e outra já em gestação mas ainda a caminho, há-de nascer em 2019.

Num curto texto biográfico que um dia escreveu, José Duarte disse: “Fui plagiado no All That Jazz” [filme de Bob Fosse onde o protagonista, um coreógrafo com a vida por um fio devido a um enfarte, imagina a morte como o apogeu de um espectáculo musical]. Mas o “plágio”, diz agora, não tinha que ver com a morte mas com os excessos do protagonista, “a maneira de ele viver, up and down”: “É a minha maneira de viver. De um dia para o outro, mudo de mood, de maneira de estar. Umas vezes estou bem, outras mal. Pode acontecer em segundos.” Será da idade? “Não, sempre fui assim. Mas agora está mais apurado.”