Sim, os franceses têm cada vez mais mês no fim do salário

Os rendimentos têm subido acima da inflação, mas as despesas fixas têm aumentado a um ritmo superior. E as reformas de Macron prejudicaram os mais pobres, como dizem os "coletes amarelos".

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Protesto dos "coletes amarelos" perto de Antibes Eric Gaillard/EPA

A perda de poder de compra é uma queixa dos franceses há vários anos, não surgiu só agora como motor dos protestos dos “coletes amarelos”. Já vem dos tempos da presidência de Nicolas Sarkozy e de François Hollande – embora as análises económicas mostrem que os rendimentos dos cidadãos têm acompanhado em alta a subida da inflação.

Mas isso não explica tudo. A reforma fiscal de Emmanuel Macron está de facto a penalizar os mais pobres, que já tinham dificuldades em lidar com o aumento das despesas obrigatórias, como as relativas à habitação.

O poder de compra dos franceses desceu 0,5% no primeiro trimestre deste ano, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística e Estudos Económicos, mas deverá subir 1,7% no quarto, noticia o jornal Le Monde. No total do ano de 2018, deve crescer 1,3% - apesar de a criação de empregos estar a abrandar e a taxa de desemprego continuar nos 8,9%, com a taxa de inflação a subir. Por isso, o Presidente Macron não está errado ao dizer que o poder de compra total aumentou, sublinha o diário francês

Um estudo recentemente divulgado do banco BNP Paribas, citado pela televisão BFM, diz que os rendimentos dos franceses subiram 6,7% entre 2012 e 2018, acima da inflação, que neste período foi de 4,2%. Só que essa evolução positiva foi devorada pelas chamadas despesas obrigatórias: com a habitação, os créditos bancários, seguros, impostos, contas de Internet e telefone, passes de transportes.

Segundo esse canal de televisão, em 2012 essas despesas representavam 59% do rendimento médio; em 2018, levavam uma fatia de 61%. Mesmo com o aumento dos seus rendimentos, os franceses têm cada vez menos dinheiro para gastar nas suas compras. O seu nível de vida piorou.

“Isto explica porque é que os franceses se sentem desamparados. E também porque é que as compras de alimentação se tornaram a variável de ajustamento do seu orçamento”, disse à BFM Cécile Gaufriau, que coordenou o estudo doo BNP Paribas.

“O que os nossos estudos revelam é que as dificuldades começam a partir dos 1400 euros de rendimentos mensais. Com menos que isto, começa a ser mesmo difícil cobrir algumas despesas”, disse ao Le Monde Sandra Hoibian, do Centro de Investigação, Estudo e Observação das Condições de Vida. “Não é por a França estar a enriquecer que toda a tente enriquece”, observou a investigadora.

Segundo estimativas do Instituto das Políticas Públicas franceses, os efeitos acumulados das reformas fiscais de 2018 e das previstas para 2019 levarão a uma perda de rendimento disponível para 23% dos franceses com menos meios económicos (solteiros com menos 14.370 euros anuais e casais com dois filhos que tenham 29.960 euros por ano ou menos). Os factores com maior influência são a subida das taxas sobre os combustíveis, o tabaco e a desindexação de algumas prestações sociais.

Desta forma, chega-se ao encontro de alguns dos motivos de protesto dos “coletes amarelos” – que não são os eleitores de Emmanuel Macron. São pessoas que vivem fora das grandes metrópoles – embora possam ter de se deslocar para lá diariamente, para trabalhar – e vivem em pequenas ou médias cidades de arredores, ou mesmo no campo, dependentes do automóvel para se deslocarem, pois a rede de transportes não existe ou é insuficiente.

Grande parte do seu orçamento é consumida pelas despesas obrigatórias com o automóvel, logo a subida da taxa sobre os combustíveis, embora tenha o objectivo de lutar contras emissões de dióxido de carbono que estão na origem das alterações climáticas, terá um impacto forte na sua carteira.

Estes dados ajudam a explicar que o Presidente Emmanuel Macron tenha atingido este mês um novo recorde de impopularidade: 26% apenas de opiniões positivas, no barómetro BVA Orange para o jornal La Tribune e a RTL. Na mesma altura do seu mandato, os dois anteriores presidente tinham uma popularidade superior: Sarkozy tinha 48% e Hollande 29%.