Os vinhos precisam de tempo mas são vendidos cada vez mais novos

Os grandes vinhos tintos (tal como os brancos) exigem tempo e paciência por parte de quem vende e de quem compra. Mas tempo e paciência é o que falta cada vez mais neste negócio. Mesmo marcas conceituadas estão a queimar os tempos desejáveis de envelhecimento e a lançar os vinhos mais cedo do que nunca.

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Adriano Miranda

Em 2014, a influente revista norte-americana Wine Spectator elegeu o tinto Chryseia 2011, do Douro, parceria do francês Bruno Prats com a família Symington, como o terceiro melhor vinho do ano. Desde então, o vinho esgota num fechar de olhos e cada nova colheita chega ao mercado logo ao segundo ano. O Chryseia 2016, por exemplo, já está à venda há alguns meses (65 euros). A pressão dos comerciais é enorme e o vinho nem tempo tem para afinar na adega. É a 15.ª colheita deste vinho em apenas 18 anos (sem contar com as duas que estão na adega, a de 2017 e a de 2018).

Ao contrário do Chryseia, o Barca Velha, o vinho ícone da Sogrape, passa entre oito a dez anos na adega antes de começar a ser comercializado. O último a sair foi o 2008 (pontuado com 100 pontos pela revista Wine Enthusiast). A cada nova colheita, o preço dispara. Uma garrafa do 2008 já custa mais de 500 euros (595 euros na Garrafeira Nacional). Em 50 anos, só 18 vinhos foram declarados Barca Velha.

Mário Cunha, produtor transmontano (Vilar de Ouro, Mirandela), não pertence a este "campeonato", mas faz um tinto, o Romano Cunha, que comercializa quase com o mesmo tempo do Barca Velha. A colheita que tem no mercado é a de 2010. Cada garrafa custa 20 euros. O seu consultor/conselheiro é o conhecido enólogo espanhol Raul Pérez.

O que estes três exemplos nos dizem? Alguma coisa. Nos vinhos, o juízo soberano pertence ao consumidor. Se há quem pague 400 euros ou mais por um Barca Velha e quem compre Chryseia ainda imberbe, por que razão a Sogrape e os Symington e Bruno Prats hão-de-fazer as coisas de maneira diferente? O naïf desta história não será Mário Cunha?

Se calhar. Em bom rigor, Mário Cunha vende o seu vinho com tanta idade também por necessidade, porque foi obrigado a acumular stocks a partir do momento em que as suas vendas a granel para Espanha começaram a cair. Mas há algum critério enológico. “O vinho foi ficando nos pipos à espera que o Raul dissesse que estava bom para sair para o mercado. Ultimamente, o Raul tem-me dito que o vinho é de modas e que as pessoas querem vinhos mais fáceis de beber e mais jovens. Se calhar, vou começar a vender vinhos com menos idade e menos extracção”, diz Mário Cunha.

Seja como for, os vinhos, tantos os tintos como os brancos, para poderem aspirar a ser grandes, precisam de passar a prova do tempo. Precisam de evoluir no penumbra da cave, para polir arestas, integrar tudo melhor e ficarem ainda mais ricos e complexos. Alguns tintos, os mais tânicos e agrestes em novos, pelo estilo ou pelas características das castas, requerem mesmo muito tempo. Basta pensar nos Ramisco, da região de Colares, ou em alguns Baga, da Bairrada, por exemplo.

Cada vinho necessita do seu tempo certo, para poder atingir o seu auge, antes de começarem a caminhar para o seu destino final, o vinagre. Acertar nesse ponto óptimo de consumo é o grande desafio que se coloca a qualquer enófilo. Ainda assim, tratando-se de vinhos realmente bons, esse auge nunca se alcança ao fim de um ou dois anos, por bem feitos que sejam.

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Acontece que os vinhos, de um modo geral, estão a ser vendidos cada vez mais novos, com pouco tempo de cave e de garrafa. O consumidor, em geral, está mais impaciente. “Hoje compra-se vinho para beber, não para guardar. As pessoas não têm nem tempo, nem dinheiro, nem espaço para guardar vinhos”, sublinha o bairradino Luís Pato. Por sua vez, os produtores esperam menos pelos vinhos porque precisam de realizar dinheiro e porque a acumulação de stocks tem custos muito elevados. Uma empresa como a Prats&Symington até podia ser mais paciente. Paul Symington, o líder dos Symington, concorda e admite que o vinho esteja a sair cedo de mais, mas desculpa-se com as “regras” do negócio. "Se um vinho estiver uns anos sem sair, o mercado esquece-o", justifica.

Seja pelo que for, o Chryseia está muito longe de ser um caso isolado. Na verdade, o seu exemplo faz a regra hoje em dia. Mário Cunha e o seu Romano Cunha é que são a boa excepção, já que o Barca Velha, pela sua singularidade e fama, não conta para este debate. Não conta o Barca Velha como não contam mais uns quantos (não muitos) vinhos nacionais famosos que souberam forjar uma imagem de qualidade assente na sua raridade, envelhecimento longo e preço elevado (Casa Ferreirinha Reserva Especial, Quinta do Crasto Maria Teresa e Vinha da Ponte, Pêra-Manca, Quinta Foz do Arouce Vinhas Velhas de Santa Maria, Bussaco, Quinta da Pellada, Quinta do Ribeirinho Pé Franco, entre mais um ou outro).

O facto de serem poucos diz-nos muito sobre o Portugal vinícola. O país pertence ao Velho Mundo do vinho, mas ainda é relativamente novo na produção de vinhos tranquilos de qualidade. O Douro, por exemplo, tem pouco mais de três décadas. Durante muito tempo produziu-se apenas para auto-consumo e para alimentar as colónias. Vendia-se a granel. O que determinava muitas vezes a guarda de um vinho era o seu preço e a procura. Em algumas regiões, o vinho ficava uns anos nas cubas ou nas pipas porque a procura era baixa. Noutras, como a Bairrada, por exemplo, também porque o vinho era difícil de beber em novo. Nas regiões mais quentes, como o Alentejo, onde as uvas amadurecem melhor, o vinho era bebido logo no mesmo ano. Para conseguir um vinho de guarda era tradição usar muito ácido tartárico e até gesso, para fazer baixar o pH dos vinhos e aumentar a sua resistência ao envelhecimento.

Tirando um ou outro vinho mais icónico, nunca houve tradição em Portugal de lançar os vinhos mais tarde por razões de qualidade, nem nunca vendemos en primeur, como acontece em algumas regiões francesas. E, de uma forma genérica, as regras de classificação dos vinhos também nunca foram tão apertadas como nas regiões espanholas da Rioja e Ribera del Duero, onde os grandes reservas só podem sair para o mercado ao fim de cinco anos (ver caixa). No Douro, por exemplo, é possível lançar um Grande Reserva ao final de um ano.

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Adriano Miranda

Por outro lado, o “vinho velho” não era sinónimo de qualidade. Pelo contrário. Um vinho velho, por muito bom que fosse, tendia a desvalorizar-se. Ainda é assim com a maioria dos vinhos. Só os mais conhecidos e caros é que vão aumentando de preço.

Os vinhos também não duravam tanto. Os cuidados eram menores e a tecnologia e os conhecimentos de enologia e viticultura não eram os de hoje. Os vinhos actuais são genericamente melhores e conservam-se por mais tempo. E, face ao aumento da temperatura na Terra, as uvas também amadurecem melhor, pelo que os vinhos já nascem mais polidos e bebíveis em novos. “Eu faço vinhos mais redondos do que fazia há cinco ou dez anos. Os que faziam primeiro podiam durar 40 anos ou mais. Se estes durarem 20 ou 30, já não é mau”, reconhece Luís Pato.

Vivemos um tempo de consumo voraz. O vinho não foge à regra. Em Portugal e em qualquer país do mundo. Vender os vinhos cada vez mais novos está longe de ser um problema português. É uma tendência mundial. Basta olhar para o top ten deste ano da Wine Spectator. O melhor vinho de 2018 é um Sassicaia (Toscana, Itália) de 2015. No segundo e no terceiro lugares surgem o Château Canon-La Gaffelière (Saint-Émilion, França) e o Castello di Volpaia Chianti Classico Riserva (Toscana, Itália), ambos também de 2015. Só em quarto lugar é que aparece um vinho já com alguma idade, o Rioja Alta Gran Reserva 890, da colheita de 2005. Entre os restantes seis há um champanhe de 2008, um tinto de 2015, um Chardonnay de 2016 e três tintos de 2016.

O mundo está mesmo a mudar e o negócio do vinho também. A regra é cada vez mais passar o custo do envelhecimento para o consumidor. Por todo o lado, a palavra de ordem passou a ser esta: “Quer beber vinhos com mais idade? Compre-os novos e guarde-os em casa”.