Rogério de Castro, um académico que sempre quis ser agricultor

O Senhor do Vinho que escolhemos para esta edição especial da Fugas é um dos mais conceituados cientistas portugueses no estudo da viticultura. Mas é também produtor na região dos Vinhos Verdes.

Foto
Nelson Garrido

Sou Rogério de Castro. O que sou hoje começou cedo. Quando estava na terceira classe do ensino primário fiz uma redacção sobre “O que queres ser quando fores grande". E respondi: "Eu não quero estudar mais, porque quero ser agricultor. Se continuasse a estudar, iria para agrónomo, mas não quero…".

Fui durante alguns anos jovem agricultor. Enquanto na “instrução primária”, só uma coisa justificava a falta à escola: ir à Quinta de Lourosa com o meu pai, organizar o trabalho e fazer as contas. Entretanto, já com pais falecidos, eis-me no Instituto Superior de Agronomia (ISA) a cursar Agronomia. Com o curso na fase final sou seleccionado para monitor de viticultura, mas com uma nova certeza: não ficarei em Lisboa e não ficarei no ensino.

Entretanto a leccionar no ISA, vem ímpeto de “experimentalista" e rapidamente dei por mim a semear ensaios por todo o país e a fazer estágios no estrangeiro. Todos os anos aproveitava férias escolares e rumava a diversas Estações de Investigação: França (Bordéus e Montpellier), Inglaterra (East Malling), Itália (Bolonha e Conegliano), Suíça (Changins e Wadenswil). Doutoramento feito, sucedem-se projectos de investigação – INIC, JNICT, AGRO, PAMAF. Entretanto, cinco projectos comunitários sob a minha responsabilidade por Portugal. Veio a agregação – as provas que me deram mais gozo em toda a vida académica. Sucederam-se os eventos internacionais, no âmbito CEE e outras participações: OIV, ASHS e sobretudo GiESCO, em cujo Comité Cientifico participei durante 20 anos.

No meio disto, uma velha quinta da família iria ser vendida – Quinta de Lourosa. Não deixei! Uma aventura já com mais de 30 anos, muita paixão, alegrias e angústias, mas profunda e permanente aprendizagem. Neste local ensaio sempre todos os meus projectos e também é com orgulho que hoje o transmito esta paixão às próximas gerações (filhos, netos) e até visitantes - turistas. Não é pedagogo quem quer, tão pouco quem apenas gosta de teatro, mas ajuda. É minha convicção que no ensino superior, sobretudo em áreas tecnológicas, não será “bom" professor quem não tiver de modo subjacente uma actividade de investigação. Eu não sou capaz de dar uma boa aula sem um guião resultante do estudo e experiências vividas. Em cada aula descubro novos mundos (e num ápice passaram 40 anos de ensino). "Eu tive alunos muitíssimo dotados, foi um grande privilégio… sinto muita falta dos meus alunos!" Prof. Steiner, Cambridge 2011.

Um olhar sobre transformações no sector vitivinícola

Portugal tem excelente clima, tem história, tem castas. Numa análise mais fina, verificamos debilidades no encepamento e também na condução da vinha, no que respeita ao microclima ao nível dos cachos e sua adequação, à região, casta e produto final pretendido. Portugal tem “um mundo de castas” e algumas dignas da designação “castas do mundo”. Por sua vez, a nossa estrutura fundiária exige grande criatividade do povo português.

É urgente aplicar a lei das Sesmarias, não se pode dar mais tempo ao absentista que tem o poder de inviabilizar emparcelamentos. O “peso” da terra é exagerado mas o emparcelamento funcional (não fundiário) tem de ser fomentado. Não é possível ter uma viticultura economicamente sustentável com esta estrutura fundiária. A campanha de 2018 terá sido o corolário do estado do sector ou apenas um ano atípico?

Não há anos iguais, a heterogeneidade será tanto maior quanto menor for a tecnologia vitícola. Recentemente (17/11/2018), J.P.Martins escreveu: “A viticultura é uma empresa a céu aberto, muito dependente do clima”, Portugal é dos países vitícolas com menores produtividades (t/ha) e sobretudo com maiores oscilações de produções interanuais – não obstante os elevados custos de produção. Comparando produções de 2018 com 2017 (OIV), Portugal foi o país do Mundo com maior decréscimo (-22%) e ao nível europeu apenas a Grécia nos acompanhou (-15%). Outros aumentaram as produções, quer países históricos (Itália +14%, França + 27%, Espanha +26%), quer do Novo Mundo ou do Leste (Chile +36%, Hungria +32%, Geórgia +57%).

PÚBLICO -
Foto
Nelson Garrido

Ainda hoje, fundamentalismos e “achismos” sobrepõem-se com frequência ao conhecimento sustentado pela experimentação sólida e pragmática. Retomando, 2018 foi ano difícil de extremos climáticos, tornando-se um laboratório para bem entender a sustentabilidade técnica do país e da sua capacidade de resposta perante as adversidades. No que respeita ao míldio, o Douro e Dão terão sido mais afectados que os Vinhos Verdes. Anselmo Mendes ironiza: “O Douro não sabe lidar com o míldio." No Alentejo também houve prejuízos, nomeadamente na Antão Vaz. “Não percebo como é que tanta gente foi afectada pelo míldio: basta tratar a tempo e horas”, refere Luís Duarte.

A enorme diversidade de castas em Portugal constitui valioso património, com relevância para o Douro. "Entendimento diferente tiveram administradores da companhia pombalina, referindo os prejuízos causados à qualidade do vinho pela promiscuidade de castas (M. Carvalho 2006). Nos anos 60 e 70 no Douro, foram apuradas e recomendadas cinco castas. A maioria das empresas e dos viticultores entregou-se sem restrições a esta fé, não obstante polémica e críticas severas de alguns especialistas (Cristiano Van Zeller, Mesquita Montes). Assim, ainda hoje predomina essa tendência, e, numa região com cerca de 100 castas, quase 100% do encepamento das novas vinhas integram apenas cinco destas castas. É grave!

Objectivo bem diferente foi seguido nos últimos quatro decénios pela “Rede Nacional de Selecção”, dinamizada por Antero Martins e Luís Carneiro, prospectando elevado número de variedades e buscando variabilidade. Pena é que, deste árduo trabalho, ainda hoje poucos dos materiais obtidos estejam disponíveis na produção. Paralelamente, também a Plansel seleccionou clones de várias castas. Nos últimos anos tem crescido o interesse pela salvaguarda das castas autóctones e sua variabilidade. É louvável a preservação das castas “raras ou minoritárias”. Mas é por outro lado preocupante o facto de castas “secundárias” estarem a ser votadas ao ostracismo. A título de exemplo, nos Vinhos Verdes, é grave o abandono de Azal e Trajadura. Não faz sentido correr-se atrás de castas raras, indisponíveis à produção, e desprezar-se as castas históricas complementares para certos lotes. Situação análoga se verifica por todo o país: no Alentejo com a Castelão e Trincadeira, no Dão com a Rufete, no Douro com a Mourisco e Tinta da Barca.

A vaga de calor em 2018 questionou muitas certezas da viticultura portuguesa. Oportuno estudo (publ. Nov. 2018) foi realizado na Estremadura e Alentejo (CAN/INIAV, Esporão e Plansel) no que respeita à sensibilidade ao escaldão. As castas foram classificadas. Deixo alguns exemplos: no Alentejo, Alicante Bouschet e Petit Verdot são muito sensíveis, mas Trincadeira e Tinta Grossa são tolerantes; no Douro, Tinta da Barca e Folgazão são muito sensíveis; no Dão, as tradicionais Jaen e Tinta Pinheira são tolerantes. Nos Vinhos Verdes, a Avesso revelou-se muito sensível, tratando-se curiosamente de uma casta exigente em calor acumulado e sendo a sub-região de Baião o seu habitat de excelência! Neste ano depreende-se que a diferente sensibilidade das castas ao escaldão é também condicionada pela incidência da radiação solar, sendo esta condicionada pela orientação das linhas e consequentemente exposição das sebes. Também poderá ser determinante o sistema de rega, assegurar conforto hídrico, maximizando o arrefecimento da cultura. Isto exige água disponível e capacidade operacional. "É nas interfaces onde várias disciplinas se cruzam que borbulham frenéticas novas descobertas" (Jorge Calado, anos 80).

Nos primórdios a vinha era conduzida em formas livres e de volume (vaso, taça). Em regiões tradicionais, ainda é usada, produzindo vinhos de excelente qualidade. Imperativos de mão-de-obra versus mecanização originaram a evolução para as vinhas aramadas (VSP). No GiESCO, estão em estudo múltiplos modelos alternativos. C. Intrieri estudou a influência da posição dinâmica das folhas na fotossíntese. As folhas livres têm maior taxa de fotossintética que as presas. Esta descoberta inspirou a criação de modelos com divisão e dispersão da vegetação, vulgarmente designados do tipo SPRAWL. Este conceito tem sido desenvolvido por Lissarrague na Universidade de Madrid e Dokoozlian na Califórnia. Em Portugal, há excelentes resultados em relação à qualidade e produtividade, com elevado nível de mecanização, inclusive na poda e na vindima. Aqui a poda necessita de duas a três horas em vez das 50 a 70 horas tradicionais (h/H/ha). No âmbito do projecto “IntenSusViti” estão em curso ensaios abrangendo diversos temas como a condução tipo SPRAWL, visando eficiente mecanização, redução de recursos humanos e elevado potencial qualitativo e de produtividade.