Bombos entregam candidatura a património imaterial – agora!

A quarta edição do Congresso do Bombo, que começa esta sexta-feira no Seixal, vai formalizar o pedido de classificação da prática dos bombos, com vista à UNESCO.

Bombos durante o congresso anterior, em Amarante
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Bombos durante o congresso anterior, em Amarante PAULO PIMENTA
Maqueta da futura sede do Tocá Rufar
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Maqueta da futura sede do Tocá Rufar DR
Maqueta da futura sede do Tocá Rufar
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Maqueta da futura sede do Tocá Rufar DR

Será um momento simbólico, mostrado em directo e num ecrã aos congressistas: a Candidatura da Construção e Práticas Tradicionais Colectivas do Bombo em Portugal (a designação é extensa, mas é assim que se apresenta) vai ser submetida oficialmente ao Inventário Nacional do Património Cultural no IV Congresso do Bombo, que decorre no Seixal desta sexta-feira a domingo. O toque na tecla do computador, a assinalar o envio, será visto por todos e ficará registado com um passo decisivo para a candidatura à Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. Quanto tempo demorará a apreciar depois da submissão à Matriz PCI (Património Cultural Imaterial), já não depende dos entusiastas do bombo. Mas o trabalho feito estará entregue.

“O que distingue esta candidatura é ser um trabalho aberto”, diz ao PÚBLICO Rui Júnior, fundador do Tocá Rufar e organizador do congresso. “Toda a informação vai para um novo site que nós vamos criar, e que faz parte do plano de salvaguarda, para divulgar e aumentar o que já existe. Qual é o objectivo disto? É não só preservar aquelas coisas mais antigas como tentar que o novo movimento contemporâneo de percussão não abafe este, porque se não perdemos a identidade, aqueles toques genuínos, de raiz.” E esse novo movimento, diz Rui, já tem grande dimensão. “Há muitos grupos a tocar à moderna, o que não vai dar a nenhum lado em termos culturais e de identidade. Temos 150 grupos tradicionais fichados no nosso site e já há outros 150 não-tradicionais, que se inspiraram no Tocá Rufar.” E ele tem noção de que a “ameaça” à tradição veio do seu próprio trabalho, já que os novos grupos vão atrás da juventude do Tocá Rufar, sem conhecerem tocadores tradicionais.

No gesto dos tocadores

“Democratizei, massifiquei”, diz Rui Júnior. E isso começou nos anos 80, quando surgiu o grupo O Ó Que Som Tem, que lançou dois álbuns marcantes (em 1983 e em 1996). Depois vieram o Festival Internacional Portugal a Rufar, em 2005, no Seixal, e o projecto CAIS (Centro de Artes e Ideias Sonoras). Até que um terrível incêndio lhes destruiu a sede e mil bombos, em 2011. Lentamente, seguiu-se um renascer das cinzas, sem que alguma vez o pulsar dos bombos tivesse parado, ali e noutras regiões do país. Foi assim que, em 2015, se realizou o I Congresso do Bombo, em Lisboa, que se manteve anual desde então. O segundo foi no Fundão, em 2016, o terceiro em Amarante e o quarto agora no Seixal (onde tudo começou, há anos), no Auditório dos Serviços Municipalizados da Câmara Municipal.

“As pessoas olham para os bombos e acham que é tudo igual; não é.” Rui Júnior mostra a fotografia de um miúdo de Viana do Castelo, incluído no grupo que vai ao Seixal, compenetrado a tocar o seu bombo, e dá-o como exemplo: “Este miúdo, o gesto que ele tem a tocar, até nas sobrancelhas, na expressão, é um tocador de bombo. E é assim porquê? Porque a família é assim. Mas não deixa de inovar, porque o pai já lhe pôs protecções nos ouvidos!”

Uma sede de raiz em 2019

O documentário Pôr a Caixa a Cantar, realizado pela italiana Simone Cannova e acessível no site do Tocá Rufar, mostra bem o que significa ser tocador de bombo. E é isso que Rui diz ser essencial preservar. “O que eu quero meter numa cápsula espacial não é só o toque ou a construção, é a forma que tudo isto adquire em função dos conhecimentos: o modo de construir, as peles, a maneira como o corpo se mexe ao tocar, é isso que eu quero! Porque o património é esta forma única de tocar!” Com duas escolas-tipo, acrescenta: o Douro e Minho, com os Zés-Pereiras; e as Beiras, onde o Fundão é o viveiro mais representativo, em particular a aldeia de Lavacolhos. Entre ambos, diz, “é tudo diferente: a forma de tocar e a construção”. E há ainda os Mareantes do Rio Douro: “É um grupo de marcha, onde eu andava quando era pequenino, com cinco, seis anos. Um caso único.”

No Seixal será também apresentada a maqueta da nova sede do Tocá Rufar, que além de escola será uma base estável para o estudo e o encontro dos bombos de todo o país. “Vamos apresentar o projecto da nova sede, onde haverá um novo centro de investigação, um museu, um pavilhão com 280 m2, com cave e um pé direito de 12 metros, cantina-restaurante, secretaria e uma plataforma onde tudo será inserido, documentação e vídeos, com o intuito de preservar, valorizar e criar ferramentas para que o universo das percussões mais contemporâneo possa aprender e inspirar-se.” O investimento, com forte envolvimento camarário, é de um milhão de euros e o edifício deve estar pronto daqui a um ano.

O congresso destes dias conta com um número recorde de 567 participações, entre tocadores, artífices e investigadores. “Mas a palavra vai ser dada primeiro aos tocadores. É dar voz aos bombos, à sua afirmação”, diz Rui Júnior, sublinhando a forte representação: “É uma coisa avassaladora. Daí o simbolismo de submetermos agora a candidatura.”

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