Greve dos enfermeiros adia cirurgias programadas em cinco centros hospitalares

Só em Coimbra terão sido adiadas "cerca de 200 cirurgias programadas". Situações urgentes e cirurgias oncológicas são asseguradas. Os restantes blocos devem continuar fechados nos próximos dias.

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Enfermeiros durante a greve de cinco ano em Setembro do ano passado Adriano Miranda

Os enfermeiros iniciaram esta quinta-feira uma greve inédita em cinco blocos operatórios de hospitais públicos que durará até ao último dia do ano. Foram adiadas todas as cirurgias programadas para esta manhã e início da tarde, à excepção da oncologia, nos hospitais de Santa Maria, em Lisboa, de Santo António e São João, no Porto, de Setúbal e de Coimbra, segundo os delegados sindicais.

No hospital São Bernardo, em Setúbal, a “adesão de 100% nos blocos e obstetrícia” no primeiro turno (das 8h às 16h) levou ao adiamento das cerca de 20 cirurgias marcadas, de acordo com Ana Luísa Pacheco, do Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal (Sindepor). Realizam-se apenas três cirurgias oncológicas que, à semelhança das situações urgentes, são garantidas pelos serviços mínimos.

O mesmo se passa no Centro Hospitalar Lisboa Norte, que integra o hospital de Santa Maria, disse Luís Mós, do mesmo sindicato. Foram adiadas 33 cirurgias: nove de ginecologia, nove de pediatria, uma de otorrino, cinco de oftalmologia, uma de neurocirurgia, três de urologia e cinco no bloco central, detalha. Nesta contabilização falta ainda a cirurgia plástica e as operações marcadas para a tarde – em que só funciona o bloco central.

À porta de cada um destes hospitais concentraram-se de manhã várias dezenas de enfermeiros. Em Lisboa, antes da concentração marcada para as 10h, estava também a bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco.

No Porto, a greve provocou igualmente o adiamento de todas as cirurgias programadas. No Centro Hospitalar do Porto não se realizaram 85 procedimentos fruto da "adesão total" não só nos blocos operatórios do hospital de Santo António, como na Maternidade Júlio Dinis e no Centro de Cirurgia de Ambulatório (Cica), disse Gorete Pimentel, do Sindepor. No Cica, só foram atendidas as situações urgentes de oftalmologia e hemodiálise, nomeadamente "vitrectomias infectadas e fístulas de hemodiálise".

"Tudo o que são situações urgentes e de cancro estão asseguradas. De resto, foi tudo adiado", sublinhou Gorete Pimentel.

Também o hospital de São João esteve a "funcionar nos mínimos", referiu Catarina Barbosa, uma das fundadoras do movimento "Greve Cirúrgica" que deu origem a esta paralisação. Das 27 salas, 21 estavam fechadas, tendo sido canceladas 80 cirurgias. Apenas oito doentes oncológicos foram operados, refere.

Já no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, que inclui o hospital universitário, o hospital pediátrico e o hospital geral (Covões), foram adiadas "cerca de 200 cirurgias programadas", contabiliza Delfim Sousa.

No turno da tarde – que se inicia entre as 14h30 e a 16h, dependendo dos serviços –, os representantes sindicais estimavam que os blocos se mantivessem fechados. E que o mesmo se repita nos próximos dias.

"Acaba no dia que o Governo quiser"

O protesto pode prolongar-se até a 31 de Dezembro, provocando o adiamento de milhares de cirurgias. "A greve acaba no dia que o Governo quiser", disse Lúcia Leite, presidente da Associação Sindical Portuguesa dos Enfermeiros (ASPE), que, com o Sindepor, convocou a paralisação.

Os sindicatos consideraram "um remendo" a proposta de carreira apresentada pelo Ministério da Saúde há dois dias. Mantendo a disponibilidade para negociar, dizem que não vão recuar nas reivindicações. Querem uma nova carreira que consagre a categoria de enfermeiro especialista e progressões que não têm há 13 anos.

Os enfermeiros queixam-se ainda da falta de valorização da sua profissão e sobre as dificuldades das condições de trabalho no Serviço Nacional de Saúde. E lembram que há colegas que levam para casa menos de mil euros líquidos por mês e cumprem muitas horas extraordinárias que não lhes são pagas. 

O primeiro impulso da chamada "greve cirúrgica" teve origem num movimento de enfermeiros que lançou uma recolha de fundos para compensar os grevistas. Recolheram mais de 360 mil euros. Congratulando o "movimento espontâneo" que organizou o protesto, Lúcia Leite salienta outra particularidade: "Foi organizado de forma a ter o mínimo de enfermeiros em greve, com o máximo de impacto possível". Por exemplo, para os casos em basta falta um profissional para que a cirurgia não se realize, é isso que acontece.

"Os enfermeiros pedem, por isto, desculpa aos cidadãos pelos constrangimentos causados. Mas não tínhamos outra opção", diz a responsável da ASPE.