Opinião

A civilização está nos detalhes

As touradas, antes de serem uma questão de touros, são algo que interpela directamente o ser humano. Em épocas arcaicas elas terão tido o seu sentido e o seu significado simbólico.

Como já aqui escrevi há uns meses estamos a assistir no mundo ocidental a um preocupante fenómeno político, cultural e linguístico que consiste na leviana passagem da crítica aos excessos do “politicamente correcto" para a exaltação do politicamente obsceno. Esta transição que se tem vindo a banalizar é sinal de um recuo civilizacional. Bem sei que o conceito de civilização é polémico, foi e é várias vezes invocado com o intuito de promover a supremacia de um sistema cultural específico ou de interesses políticos e económicos concretos. Em nome da civilização cometeram-se atrocidades, apregoaram-se superioridades de índole racista, praticaram-se enormes esbulhos. Contudo, a palavra civilização adquiriu no contexto do Iluminismo franco-kantiano uma conotação específica que a identifica com o primado da razão, a valorização da autonomia individual, a universalidade de valores, de princípios e de direitos e o cosmopolitismo.

Por contraposição a esta perspectiva surgiu de imediato uma corrente anti-iluminista fundada no enaltecimento de tudo que separa os seres humanos – a história, a cultura, a religião, a língua. Daí resultava inevitavelmente a desvalorização do conceito de razão universal, a depreciação da autonomia individual e o culto acrítico da tradição. Esta linha de orientação, que teve em Herder e em Burke duas referências cimeiras, originou correntes de pensamento político diversas, que vão desde um certo conservadorismo liberal até ao próprio fascismo integrando pelo meio opções comunitaristas de diferentes tendências. Já o Iluminismo franco-kantiano esteve na base das doutrinas democráticas, liberais, republicanas e socialistas; o pensamento marxista, apesar da sua filiação historicista e da sua crítica radical ao que apelida de carácter meramente formal dos Direitos Humanos, também decorre em grande parte do racionalismo iluminista.

O discurso do “politicamente correcto" surgiu com a intenção de contrariar as discriminações arbitrárias de que eram vítimas vários segmentos sociais e que se manifestavam, desde logo, no plano da linguagem. Foi assim um instrumento de enorme importância na promoção da igualdade cívica, no combate a desigualdades sociais e na dignificação de milhões de seres humanos. O seu propósito não era uniformizar mas, antes pelo contrário, garantir as condições para a plena afirmação da liberdade individual. Por isso mesmo o “politicamente correcto" não pode senão ser lido como um contributo para consolidação do ideal de civilização para que aponta o já referido Iluminismo franco-kantiano. Originou excessos? Certamente, como se verifica com todas as correntes de opinião ou modos de intervenção pública. Prestou serviços relevantes? Incontestavelmente prestou.

O retorno daquilo que poderemos designar como politicamente obsceno só pode assim ser percebido como um recuo civilizacional. Não deixa de ser assaz curioso que os fautores de tal recuo se procurem revestir das roupagens da liberdade, do diferencialismo cultural, da oposição a uma hipotética ditadura do gosto. É certo que, na maior parte dos casos, também se destacam na contestação àquilo que definem como relativismo moral pós-moderno. Subjaz a tudo isto uma enorme desconfiança na razão. Essa desconfiança afecta gente de direita e gente de esquerda e constitui, a meu ver, um dos maiores perigos que se deparam às sociedades democráticas contemporâneas.

Quando a ministra da Cultura disse no Parlamento que a questão do IVA aplicado às touradas remetia para uma questão civilizacional limitou-se a invocar o argumento que legitimamente justifica a opção fiscal tomada pelo Governo. Se não fosse essa a razão que outro motivo poderia fundamentar essa mesma opção? Não se vislumbra nenhum. Graça Fonseca teve e tem razão. Por muito arreigadas que estejam no imaginário de algumas culturas populares regionais, as touradas ofendem descaradamente valores que estão hoje devidamente salvaguardados e protegidos na ordem jurídica nacional. Esses valores, como não poderia deixar de ser, revestem-se de uma dimensão ética que tem que ver com a forma como os seres humanos concebem a própria ideia de Humanidade. As touradas, antes de serem uma questão de touros, são algo que interpela directamente o ser humano. Em épocas arcaicas elas terão tido o seu sentido e o seu significado simbólico. Nesses tempos era distinto o próprio conceito de Humanidade e muito diversa a forma como se encarava o tema da violência. Isso não afectava só a relação com o mundo animal mas condicionava também as relações entre os seres humanos. O processo de civilização humana foi progressivamente eliminando comportamentos e práticas impregnados de violência e que eram outrora amplamente disseminados. É disso mesmo que se trata no presente caso. Dir-se-á que o assunto carece de importância e que o país tem temas mais prementes a que atender. Enganam-se os que assim pensam. A civilização está nos detalhes.