Editorial

A Perestroika de João Lourenço

A visita do Gorbatchov angolano a Portugal é, evidentemente, um momento politicamente histórico. Há uma revolução a acontecer em Angola.

Quando João Lourenço substituiu o Matusalém (em anos de poder) José Eduardo dos Santos quase ninguém acreditava no que viria aí. As opiniões sobre o grau de renovação que Lourenço decidiria - ou poderia - fazer divergiam entre o "pouco" e o "alguma coisa". Se formos consultar o que se disse na altura, mesmo os grandes especialistas em questões africanas não eram muito arrojados a prever o grau de reforma de que João Lourenço seria capaz. Quase ninguém apostava em algo mais do que uma primavera marcelista à portuguesa. 

E não foi assim que aconteceu. O homem que hoje chega a Portugal para uma visita ansiada pelos dois lados depois de anos de chumbo está a consolidar uma ruptura com o regime de José Eduardo dos Santos impossível de prever. Afinal, Lourenço era ministro da Defesa e, tal como Gorbatchov, não era um outsider. Mas ainda assim Gorbatchov demorou um ano a apresentar o projecto político da Glasnost - Lourenço não perdeu um minuto. 

Com José Eduardo dos Santos agora afastado da presidência do MPLA desde o Congresso de Setembro - onde Lourenço fez um violento discurso contra a corrupção - o Presidente de Angola interpela o seu antecessor com a situação económica e não só: "São conhecidos os que traíram a pátria", disse na entrevista ao Expresso, onde também fala como encontrou os "cofres vazios".

Num gesto inédito, José Eduardo dos Santos convocou uma conferência de imprensa para contradizer o sucessor. A filha Isabel dos Santos, que Lourenço exonerou da Sonangol, fala em "situação cada vez mais tensa" em Angola "com a possibilidade de se juntar à crise económica existente uma crise política profunda". João Lourenço tem o apoio do povo, do MPLA, dos militares e das camadas mais jovens que tinham rompido com o regime de Dos Santos. Mas precisa inapelavelmente de travar a crise económica e Portugal pode ter aqui um papel. 

A visita do Gorbatchov angolano a Portugal é, evidentemente, um momento politicamente histórico. Há uma revolução a acontecer em Angola. Mas, como vários antigos embaixadores portugueses em Luanda confirmam ao PÚBLICO, nada do que se passa em Angola consegue ser analisado sem uma elevada carga emocional, péssima malha que o Império teceu. Ou se calhar não.