Um Rembrandt vai a leilão com o valor acrescentado de poder ter as suas impressões digitais

Venda de Estudo para Cabeça de Jovem pela Sotheby’s decorre em Dezembro. Marcas foram descobertas em 2011 e serão do mestre holandês.

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Study of the Head of a Young Man

É “uma obra-prima pouco conhecida” mas também uma pintura de um velho mestre com um valor adicional: Estudo para Cabeça de Jovem, que Rembrandt pintou em 1650, vai a leilão com a mais-valia de que as impressões digitais do artista holandês poderão estar no óleo que evoca a figura de Jesus Cristo.

A obra estava exposta na casa-museu de Rembrandt van Rijn, a Museum het Rembrandthuis, na Holanda, por empréstimo, e fez parte da grande exposição de 2011 sobre Rembrandt e o Rosto de Jesus no Museu do Louvre, em Paris, e que depois viajou até aos museus americanos Philadelphia Museum of Art e Detroit Institute of Arts. É a primeira vez em 60 anos que surge no mercado. Antes disso esteve na posse, durante décadas, de um coleccionador privado.

Trata-se de um “retrato poderoso e tocante”, cuja autoria é reconhecida como sendo do mestre holandês, e a estimativa de venda para o leilão de 5 de Dezembro é de 6,7 milhões de euros. É um óleo de pequenas dimensões em que a cabeça humana está inclinada e as mãos unidas no que seria, como escreve a Sotheby’s na sua apreciação da obra, “um estudo para um Cristo no Jardim do Getsémani, um tema que tratou em vários desenhos e num esboço intensamente comoventes, mas em nenhuma pintura que tenha sobrevivido”.

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Retrato de Rembrandt e sua mulher, Saskia van Uylenburgh, numa exposição em Lisboa em 2008 ENRIC VIVES RUBIO

Foi precisamente antes da inclusão de Estudo para Cabeça de Jovem na exposição do Louvre que as impressões digitais foram detectadas pelos conservadores Michel van de Laar e Arie Wallert, mas só em 2017 foram publicados dados sobre elas. “A descoberta das impressões digitais, disse Van de Laar ao Guardian, “é uma prova adicional da velocidade com que a obra foi provavelmente executada e fornece novos dados sobre a técnica complexa, mas célere, da pintura de Rembrandt”.

Estudo para Cabeça de Jovem é um trabalho a óleo de execução rápida, um método que o aproxima da ideia de um esboço. O estudo é um de vários em que figura o mesmo jovem de Amesterdão, provavelmente um seu vizinho, como detalha a Sotheby’s, que lhe serviu de modelo para um total de sete óleos (que sejam conhecidos) – a autoria de todos os retratos não é unânime, mas dois deles estão reconhecidas pelos especialistas.

A Sotheby’s, na sua apresentação do leilão e da obra, não refere nunca a presença das duas impressões digitais que tornam esta venda suplementarmente interessante – um retrato feito por Rembrandt no mercado, por mais prolífico que tenha sido na sua produção, é sempre um acontecimento, mas a descoberta de duas impressões digitais que se pensa serem do mestre holandês tornam a história da pintura mais rica.

“A descoberta das marcas na camada original de tinta, ao longo do limite inferior, tornam a sua ligação ao artista altamente credível”, disse George Gordon, um dos responsáveis do departamento de pintura da Sotheby’s. Não há um compromisso firme, “de 100%”, de que estes são alguns dos dados biométricos de Rembrandt, porque não há registos com os quais comparar as impressões digitais da pintura e as do pintor de A Ronda da Noite. O Guardian nota que embora seja comum encontrar impressões digitais no verniz que cobre uma pintura, identificar marcas de dedos na tinta propriamente dita é um sinal mais forte de que podem pertencer ao pintor.

Estudo para Cabeça de Jovem vai à praça em Londres e representa como Rembrandt "dá mais um passo em direcção a uma expressão mais idealizada de suavidade e humildade", como postula o historiador de arte Jacob Rosenberg, citado pela leiloeira.

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