Rui Gaudencio
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Rui Gaudencio

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E se um médico pudesse prescrever uns meses de renda?

A proposta do secretário de Saúde dos EUA é simples: os médicos do sistema Medicaid passarem a prescrever soluções reais para os problemas dos doentes, como pagar alguns meses de renda a quem não tem segurança económica para manter uma habitação digna ou oferecer os alimentos necessários a uma dieta equilibrada aos diabéticos.

O cenário é comum para quem assiste ao quotidiano de um serviço de saúde. Pessoas que entram doentes são internadas e tratadas. Por fim, já recuperadas, têm alta e são enviadas para as mesmas condições de vida que as fizeram doentes em primeiro lugar. E que tal corrigir as causas, em vez de continuar a tratar apenas as consequências?

É essa a lógica que o secretário da Saúde dos EUA, Alex Azar, veio defender na semana passada: usar o que sabemos dos determinantes sociais da saúde para resolver, de facto, os problemas daqueles que, enquanto doentes, procuram alívio junto dos cuidados de saúde. E o que sabemos sobre os determinantes sociais da saúde? O acesso a um hospital representa uma percentagem relativamente reduzida do nosso estado de saúde. Para viver uma vida saudável, há muitas variáveis de carácter social, comercial e político — habilitações literárias, estabilidade laboral, condições de trabalho, qualidade do ar, direitos políticos, entre outras — que precisamos de acautelar.

A proposta de Azar é simples: os médicos do sistema Medicaid, o sistema de saúde dos americanos mais pobres, passarem a prescrever soluções reais para os problemas dos doentes, como pagar alguns meses de renda a quem não tem segurança económica para manter uma habitação digna ou oferecer os alimentos necessários a uma dieta equilibrada aos diabéticos — tal como acontece actualmente com os fármacos, que o Estado paga quase na totalidade.

Desengane-se quem pensa que esta se trata de uma medida caridosa: há verdadeiros ganhos económicos para os sistemas de saúde, para além da lógica melhoria de qualidade de vida das populações. Neste artigo que escrevi para o Shifter com a Maria Daniel Loureiro, já tentamos mostrar que os arquitectos e urbanistas devem ser vistos como profissionais de saúde, pelo enorme impacto que têm na modelação do estado de saúde das populações; o secretário Azar vem dar-nos razão, ao falar em prescrever a reabilitação de habitações ou a instalação de isolamento ou fontes de aquecimento não-poluentes.

Não é novidade que os sistemas de saúde das sociedades ditas desenvolvidas estão a ter graves dificuldades em lidar com os custos que representa uma população envelhecida e com maior carga de doença. De uma era em que as doenças eram agudas — de curta duração e altamente letais — passamos a uma era de doenças crónicas, que não matam mas moem, e que diminuem significativamente a qualidade de vida das populações. Precisamos urgentemente de repensar a forma como os nossos sistemas estão construídos, mudando o foco do tratamento para a prevenção. Isso consegue-se apostando mais nos incentivos aos estilos de vida saudáveis, e olhando para a totalidade das dimensões onde a saúde está presente, o que inclui necessariamente a alimentação, a habitação, a mobilidade, a educação, as oportunidades laborais, entre outras.

Talvez no futuro o teu médico esteja autorizado a resolver as causas dos teus problemas de saúde, para além de aliviar o sofrimento no curto-prazo. Seja pela remodelação de uma habitação com fungos onde vive alguém com bronquite, seja oferecendo uma dieta equilibrada para um diabético, podemos — e devemos — expandir o nosso arsenal terapêutico. Nesse dia, teremos uma abordagem mais eficiente do ponto de vista económico, mais eficaz do ponto de vista clínico, e mais humana do ponto de vista social.

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