Tilda Swinton e Dakota Johnson dançam com os seus demónios

Tilda Swinton, com silhueta de Pina Bausch, explorou um tema que a obceca: o domínio da arte sobre a vida. Dakota Johnson aprendeu a dançar como um demónio. Recordações do plateau feminino de Suspiria, o filme de Luca Guadagnino que chega amanhã às salas.

Depois de Eu Sou o Amor, Mergulho Profundo e, já deste ano e nomeado para os Óscares, Chama-me pelo teu Nome, Luca Guadagnino poderia ter escolhido fazer o que quisesse. Mas, em vez de seguir o caminho de Hollywood, o excêntrico italiano, 47 anos, optou por aquilo que denomina como “reimaginação” de Suspiria, de Dario Argento (1977). “Desde sempre o quis fazer”, diz, voz empolgada. “Estou a tornar-me um perseguidor de grandes realizadores, e o Dario é um deles.”

Concretiza com este filme aquilo que é, então, mais do que uma remake. Enquanto o original, em parte baseado no livro de Thomas de Quincey Suspiria de profundis, publicado em 1845, se passava na cidade alemã de Freiburg, o realizador Guadagnino decidiu trazer para primeiro plano o contexto político dos anos 70 alemães, incluindo o terrorismo do grupo Baader-Meinhof. “Colocar a acção em Berlim pareceu-me ser a forma mais fácil de conseguir isso. Também queria referenciar o movimento feminista e os filmes do grande Rainer Werner Fassbinder.”

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Suspiria conta a história de Susie Bannion, bailarina norte-americana que viaja até Berlim para uma audição com Madame Blanc, a directora artística da fictícia Companhia de Dança Helena Markos. A companhia está a fazer uma nova versão da sua principal obra, Volk, criada na década de 40, e abriu audições para o papel principal, que originalmente foi interpretado por Madame Blanc. Para surpresa geral, a recém-chegada Susie fica como primeira-bailarina. Quando Olga, a ex-primeira-bailarina, acusa as mulheres que dirigem a companhia de serem bruxas, uma força tenebrosa associada à dança de Susie instala-se sobre Olga. Guadagnino escolheu Tilda Swinton, sua amiga íntima e colaboradora habitual, para o papel de Madame Blanc, enquanto Dakota Johnson, de Mergulho Profundo e da trilogia Cinquenta Sombras de Grey, encarna Susie Bannion.

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Tilda Swinton, como Madame Blanc (um dos seus três papéis em Suspíria..), quis continuar a explorar um tema que a obceca: a escolha da arte sobre a vida

“Gosto de apreciar a companhia de amigos”, diz Guadagnino. “Descobrimos coisas juntos. É como se fosse um parque infantil, e também como se fossem pequenas férias. É uma constante parceria de divertimento.»

“O nosso trabalho é feito da nossa amizade”, concorda Swinton - fez Eu Sou o Amor e Mergulho Profundo com Guadagnino após se terem conhecido em 1994. “Estivemos o tempo todo a construir este filme juntos, não houve separações. Também colaborámos em conjunto noutros projectos. Estamos a produzir um filme em que não apareço e que o Luca não realiza. Faz tudo parte do material das nossas vidas. Madame Blanc representou uma maravilhosa oportunidade para explorar temas que exploro desde há muito”, continua a actriz. “Para mim o cerne do filme é o meu amor pela grande personagem que [o actor] Anton Walbrook criou com [o realizador] Emeric Pressburger em Os Sapatos Vermelhos – Boris Lermontov é um dos maiores retratos de artista que conheço. É claro que é um bailarino, é um coreógrafo, é alguém que está a tentar persuadir uma jovem a escolher a sua arte e não a vida. Tenho sempre procurado uma forma de explorar este território, e é óbvio que Madame Blanc é um meio perfeito de me lançar aí.”

“Luca também olhou para a obra de Mary Wigman, bailarina que foi uma pioneira do bailado expressionista, da dança livre. Ela manteve a sua companhia de bailado a funcionar ao longo do Terceiro Reich e sobreviveu a ele, por meio de sabe-se lá que compromissos, e foi psicologicamente frágil e atormentada ao longo de toda a vida. Quando estávamos a definir o visual pesquisámos Pina Bausch a nível estético, mas não ao nível da sua dança ou dos seus gestos. A coreografia [criada pelo franco-belga Damien Jalet] aproxima-se da mais famosa das peças de Mary Wigman, Hexentanz [Dança das Bruxas], que se pode encontrar no YouTube.”

Swinton também interpreta outros papéis em Suspiria, o que é um dos jogos de descoberta que o filme encerra. No Festival de Veneza chegou ao ponto de ler em voz alta uma suposta carta de um tal Josef Klemperer, que recebe o crédito de interpretar no filme a personagem de Lutz Ebersdorf, um psicanalista de 82 anos. Mas Tilda já confessou que era ela própria, por baixo de camadas de maquilhagem. (A camaleónica actriz de 57 anos tem ainda um terceiro papel, o da grotesca chefe do covil de bruxas Markos) Trata-se basicamente de uma diversão, num filme longo  demais em que o foco está sobre a Susie de Dakota Johnson (Jessica Harper interpretou a personagem no filme de Argento, e aqui tem um papel secundário.)

Um plateau de mulheres

“Trabalhámos juntos em Mergulho Profundo e ao longo desse processo fui cativado pela sagacidade da Dakota”, diz o realizador. “Nessa altura já estávamos a tentar produzir Suspiria e ela não tinha visto o filme do Dario. Por isso dei-lhe um DVD e perguntei-lhe se ponderaria fazer Susie. Adoro a Dakota. É espirituosa e empenhada e atira-se de cabeça, faz as coisas simplesmente porque acha divertido.”

Para Dakota, “o uso que Luca faz da dança para contar parte da história e para lançar feitiços e conseguir que seja uma coisa tão poderosa foi espantoso e entusiasmante”.

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“Achei que as referências ao clima político de 1977, época em que o filme se desenrola, foram importantes, para dar o tom da energia que rodeava estas pessoas. Quando estão fora das paredes da sala de dança é tudo muito duro, muito tenso. Tive que aprender muito.”

Teve que aprender a dançar, literalmente, como um demónio”. Mesmo tendo estudado ballet em criança.

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“Quando era nova não era nenhuma bailarina prodigiosa. Trabalhei arduamente para conseguir fazer isto. Estudei o trabalho de Mary Wigman, de Martha Graham, a coreografia de Pina Bausch, e descobri que gostava mesmo muito do trabalho delas. Seis meses antes das filmagens comecei a trabalhar o corpo com um treinador pessoal e de dança que me ajudou a descobrir como a Susie se iria movimentar. Ela tem capacidades incríveis mas não tem qualquer formação académica, por isso a questão é: como é que esta pessoa adquiriria estas competências? Muito disso veio de ouvir artistas de diferentes géneros de música, de Nina Simone aos Jefferson Airplane ou os Carpenters, que ela poderia ter ouvido sempre que ia ao supermercado ou ao restaurante. Assim, quando ela faz a audição a sua dança é como uma mistura de estilos diferentes. Não se sabe o que está a acontecer, não é apenas um género.  Vêmo-la fazer piruetas, e logo a seguir está em ponte a fazer qualquer coisa maluca e agressiva e animalesca. (Guadagnino exprime o seu espanto por Johnson “conseguir deslocar os seus ombros de uma forma que mais ninguém consegue”.) Ao longo do filme podemos ver a personagem tocar nessa zona de si própria”.

Johnson apreciou ter trabalhado um plateau dominado por mulheres, muitas das quais bailarinas profissionais. Notou que estavam tão sincronizadas que estavam no mesmo ciclo menstrual. “As mulheres entendem-se umas às outras”, diz Dakota. “Obviamente que existem fricções nas filmagens, existe sempre uma intensidade nas coisas que acontecem entre as pessoas. Somos artistas, é o que fazemos: discutimos ou temos vibrações estranhas. Nunca vai ser perfeito ou regular. Mas notei que nunca ouvi mulheres a gritar umas com as outras, enquanto ouvia homens a gritar uns com outros - era o técnico de som, o operador de microfone suspenso e o departamento de fotografia...”