Queda acentuada empurra bitcoin para menos de cinco mil dólares

É a primeira vez em mais de um ano que a divisa digital desce abaixo daquela fasquia, numa altura em que se avolumam suspeitas sobre fraudes.

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Desde Maio que as autoridades norte-americanas estão a ver se a ascensão meteórica da bitcoin foi influenciada por burlas Reuters/JIM URQUHART

O valor da bitcoin está em derrocada, caindo para menos de cinco mil dólares (cerca de 4375 euros) pela primeira vez em mais de um ano.

Desde Janeiro, a divisa digital perdeu mais de dois terços do seu valor – naquela altura, uma bitcoin chegou a valer mais de 17 mil dólares. Esta segunda-feira, variava entre os 4400 dólares e os 4800 dólares, de acordo com o site CoinMarketCap, que agrega preços de milhares de bolsas online.

A queda acentuada – que dura há mais de oito dias – não está a afectar só a bitcoin, mas também outras divisas digitais como a ether (ou ethereum), litecoin e ripple, entre centenas de outras. 

Os preços das criptomoedas são muito voláteis e a quase ausência de ligação à economia real torna difícil apontar as causas para as variações. O Departamento de Justiça dos EUA já confirmou estar a investigar se o pico do final de 2017 (em que a bitcoin chegou aos 19 mil dólares) foi consequência de manipulação dos mercados. 

Um dos factores a motivar a queda dos preços são as discussões em torno da bitcoin cash, uma divisa que resultou da divisão da base de dados em que assenta a bitcoin. É um fenómeno a que na gíria do sector se chama fork e que acontece, por exemplo, quando um grupo de utilizadores quer introduzir um novo funcionamento.

Quando se criou a bitcoin cash, passaram a existir duas versões da blockchain da bitcoin. A meados de Novembro, a versão mais recente da bitcoin cash foi novamente dividida em dois, porque os membros não concordavam sobre actualizações ao sistema: passou a existir a bitcoin cash abc e a bitcoin cash sv.

Manipulação dos mercados?

Outro dos motivos por detrás da queda é a suspeita do Departamento de Justiça dos EUA de que a subida do preço da bitcoin no final de 2017 pode estar associada a uma estratégia de burla com a criptomoeda tether, algo que tem vindo a ser referido há meses por muitas pessoas, incluindo economistas, em redes sociais, fóruns e sites especializados. 

A tether foi criada para facilitar a compra e venda de criptomoedas em bolsas online, para as quais a transferência de dólares ou euros pode ser um processo demorado e, em alguns casos, sujeito a erros. Os criadores da divisa alegam ter um dólar para cada tether, para que esta moeda pudesse ser usada em transacções como um substituto de dólares.

Porém, há suspeitas de que a criptomoeda tether foi gerada em grandes quantidades e usada para comprar bitcoins através da bolsa Bifinex, de forma a aumentar artificialmente a procura e os preços.

A investigação do Departamento de Justiça dos EUA tem como base um relatório académico, publicado em Junho na universidade do Texas, que nota que "subidas em transacções com tether estão associadas a 50% das subidas meteóricas da bitcoin".

Desde Maio que as autoridades norte-americanas também estão a ver se práticas como “spoofing” (pedidos de encomendas falsas, que depois são canceladas, para manipular o valor das moedas) e pessoas que vendem e compram criptomoedas a si mesmas podem ter influenciado os preços.

Há anos que as criptomoedas – em particular, a bitcoin, por ser a primeira e mais conhecida – suscitam múltiplas críticas, vindas de Governos e nomes importantes do sector financeiro. Em Março de 2018, a directora do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, ?defendeu que é preciso regulação e outros mecanismos para combater “o lado negro” de uma tecnologia acredita trazer riscos para a estabilidade do sistema financeiro. Meses antes, em Dezembro, os Estados-membros da União Europeia concordaram em introduzir regras mais rígidas para prevenir o financiamento de actividades ilegais com criptomoedas.

Às 13h30 de Lisboa, o valor da bitcoin rondava os 4480 dólares.