Editorial

Ao menos, valha-nos Merkel

Os direitos humanos são ignorados e não são compatíveis com o realismo político das relações internacionais.

O Bangladesh ignorou os pedidos da ONU, os relatos tétricos dos refugiados rohingyas e começou a repatriar mais de 700 mil pessoas para a Birmânia, país onde aquela minoria muçulmana tem sido perseguida com a complacência de uma prémio Nobel da Paz. A perspectiva é tão assustadora que há quem prefira trocar de campo de refugiados a um regresso à Birmânia. Os migrantes da América Central que marcham a caminho dos Estados Unidos vão esbarrar na mesma indiferença. No actual contexto geopolítico, os direitos humanos são ignorados e não são compatíveis com o realismo político das relações internacionais, muitas vezes subordinadas aos interesses económicos de sempre, como vemos pelas guerras comerciais em curso ou pelo homicídio do jornalista saudita Jamal Khashoggi.

Como se restassem dúvidas, a CIA veio agora atribuir a morte de Khashoggi ao príncipe Mohammed bin Salma, verdadeiro líder do país, pressionando Donald Trump a condenar o que nunca condenará. Trump já demonstrou duas facetas inequívocas: pouca confiança nos serviços secretos dos EUA e uma admiração incondicional pelo reino que em Maio passado fez a Washington a maior encomenda de sempre de armamento. A dimensão do negócio é suficiente para que Trump reaja com prudência ao relatório da CIA e pense três vezes antes de escrever 140 caracteres a criticar Riad. O presidente dos EUA continua a balbuciar, sempre que é confrontado com a questão, que a Arábia Saudita é um aliado na frente contra o Irão — o inimigo comum —, que gera “milhares de empregos” ou que é essencial para o equilíbrio dos mercados petrolíferos.

Enquanto o Congresso dos EUA se prepara para discutir uma lei destinada a suspender a venda de armas a Riad e proibir a ajuda no reabastecimento dos aviões envolvidos na guerra do Iémen, a Alemanha tomou uma decisão que dignifica a velha Europa. Na sequência do monstruoso homicídio de Jamal Khashoggi, o Governo de Merkel suspendeu a venda de armas e de equipamento militar à Arábia Saudita e, em articulação com a França, vai proibir a entrada no espaço Schengen dos 18 sauditas suspeitos de terem estado envolvidos na morte do jornalista. Simbolicamente, a chanceler alemã é cada vez mais o inverso do que Trump representa. Ao menos, valha-nos Merkel.