Registos de reacções graves a medicamentos duplicaram em menos de um ano

São mais de 30 reacções por dia, em média, de acordo com um balanço do Infarmed noticiado pelo Jornal de Notícias. Isso não reflecte mais problemas, mas sim maior conhecimento e capacidade de os reportar.

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Farmácia do Instituto Português de Oncologia Rui Gaudêncio

Todos os dias há 30 reacções adversas a medicamentos. Esta média corresponde ao dobro de reacções adversas conhecidas em 2017, revela o Jornal de Notícias (JN) na edição desta segunda-feira.

Nos primeiros seis meses deste ano, já foram notificadas 5385 situações – ou seja, 30 por dia – de acordo com o balanço da entidade reguladora do medicamento, o Sistema Nacional de Farmacovigilância do Infarmed. No ano passado, tinham sido 17 por dia, num total de 6105 situações detectadas. O Infarmed lança esta segunda-feira uma campanha nas redes sociais de apelo à notificação das reacções adversas a fármacos em crianças e mulheres grávidas.

Fátima Canedo, directora de farmacovigilância do Infarmed, explicou esta segunda-feira que o aumento de notificações de reacções adversas a medicamentos se deve ao trabalho desenvolvido pelo Infarmed para que profissionais de saúde e utentes comuniquem todas as reacções que considerem indesejadas e não por os medicamentos estarem menos seguros. A responsável falava nas IV Jornadas do Programa de Prevenção e Controlo de Infecções e Resistência aos Antimicrobianos, a decorrer em Lisboa.

Para a responsável, este aumento para o dobro reflecte o “bom trabalho” que o Infarmed tem desenvolvido. “Lançámos em 2017 um novo portal de notificações, o Portal RAM [Reacções Adversas ao Medicamento]. O Infarmed faz sensibilização e dá informação para alertar as pessoas para a importância da notificação. Por estranho que pareça, e pode parecer contraditório, quanto mais notificações tivermos, melhor conhecemos o perfil de segurança dos medicamentos e eles tornam-se cada vez mais seguros”, explicou a especialista, que acrescentou que o aumento de notificações registado este ano “era expectável, desejável e um dos objectivos”.

Fátima Canedo reforçou que em causa não estão problemas com medicamentos, nem são estranhos estes números. “Um medicamento quando é lançado no mercado passa por um conjunto de ensaios clínicos, que são curtos no tempo e não envolvem toda a população. Não envolvem grávidas, não envolvem crianças. Quando um medicamento é lançado no mercado vai abranger uma população que nunca esteve exposta a esse medicamento. Por esse motivo conhecem-se novos efeitos indesejáveis dos medicamentos. E, por esse motivo, quanto maior for o número de notificações mais o medicamento se torna seguro, porque o Infarmed actualiza a informação ou recomenda materiais educacionais dirigidos aos profissionais e aos doentes sobre a forma como devem ser tomados ou prescritos os medicamentos."

Uma explicação semelhante já tinha sido dada por Sofia Oliveira Martins, vogal do Conselho Directivo do Infarmed, ao JN. Segundo a responsável, este aumento reflecte uma maior literacia dos cidadãos, que mais do que nunca sabem como reportar um problema.

Este ano é expectável que se chegue às dez mil notificações por reacções adversas.

Medicamentos inovadores

Sobre a distribuição, cerca de 10% das notificações adversas dizem respeito ao grupo pediátrico (até aos 18 anos), acima dos 65 anos são cerca de 30% notificações. Entre os 18 e 64 anos são 60% das notificações. “A incidência parece ser maior nos idosos, que são doentes polimedicados, já tem outras doenças e por isso mais susceptíveis a efeitos indesejados”, referiu Fátima Canedo.

A responsável explicou que os casos mais graves de reacções adversas estão relacionados com patologias do doente, com a forma de actuação do fármaco. “As mais graves são mais raras e muitas são conhecidas e estão descritas.” Os critérios para a classificação de reacção grave são as situações que “causam morte, motivam ou prolongam o internamento, as que causam incapacidade temporária, as que causam defeitos congénitos”, explica Fátima Canedo.

Continuam a ser os médicos os que mais notificam reacções adversas, apesar de o doentes de doentes a fazê-lo estar a aumentar.

Sofia Oliveira Martins explicou ainda ao diário que as reacções mais graves têm estado associadas ao uso de medicamentos inovadores, sobretudo medicamentos oncológicos e biológicos que costumam ser coadjuvantes dos primeiros.