Editorial

A loucura nas escolas e a inflação de notas

O grau de exigência que foi colocado às escolas torna o cumprimento dos objectivos inatingíveis.

O hit do momento, o senhor Jordan B. Peterson, que incendeia multidões a dizer meia dúzia de banalidades, outra dúzia de antiguidades, algumas insanidades (na entrevista ao Sol disse que “as mulheres não são assim tão fáceis de oprimir”, mostrando o seu divórcio com o mundo em que vive), diz uma coisa interessante na entrevista ao PÚBLICO: “Ao sistema escolar é exigido tanto que não é surpreendente que não funcione bem.” 

Ora aqui está uma coisa em que parece que o senhor Peterson acerta, além da óbvia banalidade de a vida ser um contentor de sofrimento e da necessidade da educação para a resiliência. O sistema escolar, em países como Portugal, passou em poucas décadas de um nicho para privilegiados — nomeadamente a partir do “liceu” — para um ensino de massas, com vantagens impossíveis de refutar. A adaptação foi absolutamente notável, embora nenhum dos ministros da Educação que foi liderando o processo revolucionário tenha tido complacência do povo. Olhando para trás, percebe-se que a parte mais radical da revolução — a entrada de pessoas que ficariam de fora do sistema segundo as regras da ditadura — foi absolutamente tranquila, mas, lá está, a História precisa de algum tempo para ser redigida. 

Depois, apareceram os rankings, a ansiedade dos pais de filhos únicos e a luta pelas notas. O que o jornalista Samuel Silva conta no PÚBLICO é uma prova de como a necessidade de atingir a coroação leva as escolas a absurdos de “classificações” identificadas agora pela Inspecção-Geral de Educação e felizmente genericamente corrigidas. 

O senhor Peterson tem razão, ao menos neste ponto. O grau de exigência que foi colocado às escolas torna o cumprimento dos objectivos inatingíveis. Arriscando cair numa adaptação da filosofia Peterson, é possível encontrar similitudes com o grau de exigência que hoje é colocado aos pais: a perfeição é inalcançável. Felizmente, os pais não estão sujeitos a rankings — lá chegaremos — e ainda podem desempenhar a sua função com alguma liberdade. Os professores perderam toda a liberdade, afogados em burocracia impensáveis há três décadas, sujeitos a baixos salários e precariedade e obrigados a substituir os pais. Não sei se a escola está melhor ou pior do que há 30 anos, o tempo de todas as experimentações (fui cobaia, com imensa felicidade). Está seguramente mais burocrática e competitiva.