Os grandes incêndios vão continuar a acontecer. É uma questão de saber onde e quando

Investigador norte-americano que estudou o caso da Califórnia diz que tempo seco, quente e ventoso conjugado com mau planeamento urbano formam uma combinação perigosa. O maior dos grandes fogos destes dias já fez pelo menos 76 mortos e é o mais mortífero de sempre no estado.

Foto
Reuters/ERIC THAYER

Os grandes incêndios que têm provocado elevadas perdas humanas e materiais vão continuar a acontecer. A previsão é de Timothy Brown, que investiga incêndios no Desert Research Institute, em Reno, no estado norte-americano do Nevada. “Vai acontecer outra vez. É apenas uma questão de saber quando e onde. Pode não ser no próximo ano, pode ser daqui a cinco, mas vai voltar a acontecer”, afirmou ao PÚBLICO.

O especialista foi a Coimbra falar numa conferência organizada pela Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial (ADAI), entidade da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra que detém o Centro de Estudos em Incêndios Florestais. A história recente dá-lhe argumentos, com dezenas de mortos em Portugal e Estados Unidos em 2017 e, já em 2018, na Grécia e novamente nos EUA.

Timothy Brown tinha previsto abordar o caso dos incêndios na Califórnia em 2017, que fizeram 44 vítimas mortais, mas a actualidade deu-lhe outro peso. Estão em curso vários incêndios no mesmo estado norte-americano, o maior dos quais já causou 76 mortos, sendo o mais mortífero na história californiana. Há registo de muitos desaparecidos e os números finais ainda estão por apurar. “Quando submeti a comunicação, não previa que a época de incêndios de 2018 ia ser assim”, começou por explicar.

“Se tens todo aquele combustível, o vento e o clima é seco, torna-se mais fácil ter estes grandes incêndios”, afirma. No entanto, a sua periodicidade é difícil de prever. “Estamos neste novo regime em que estamos a ver incêndios de maiores dimensão e mais destrutivos”, sem que haja ainda “um historial suficiente [alargado] para dizer que há um ciclo”.

Globalmente, refere Timothy Brown, a área ardida até está a baixar, mas as perdas materiais e humanas seguem a tendência contrária. Isto porque “os fogos ocorrerem em áreas mais urbanizadas e mais propensas a incêndios”.

O investigador recusa a teoria de que os grandes incêndios estejam apenas relacionados com as alterações climáticas, embora sublinhe que “são uma parte importante da equação”. Esse factor ajuda a explicar, por exemplo, 16 dos 20 maiores incêndios no estado da costa Leste tenham ocorrido nas últimas duas décadas. “E isso tem também a ver com a forma como as pessoas têm gerido os combustíveis ao longo do tempo.”

O aumento do número de mortos em incêndios na Califórnia pode igualmente ser relacionado com mau planeamento urbano, admite. Na conferência, sublinhou que as pessoas, na Califórnia, “estão a mudar-se para onde os fogos ocorrem”, mostrando uma escalada na densidade populacional em alguns pontos do estado. Há também a questão das casas, “que foram construídas durante anos em que não se pensava sobre a faixa de gestão de combustíveis ou o material” com que eram erigidas.

Sobre os pontos em comum entre a Califórnia, Portugal em 2017 e a Grécia já este ano, Timothy Brown diz não poder detalhar a questão do planeamento urbano, mas encontra “semelhanças”. E acrescenta: “Quando tens muita vegetação perto e dentro de uma comunidade, de cada vez que temos tempo seco, quente e ventoso, o risco de incêndio vai subir”. Nessas condições, “se houver uma ignição, pode ser um fogo devastador”.

Assim sendo, o que pode ser feito para, nestas circunstâncias, diminuir o número de vítimas mortais? “Substituir tudo o que está construído é muito caro e não vai acontecer. Mas, enquanto construímos novas comunidades [que arderam], devemos ter em atenção a sua resiliência”, e aspectos como o material de construção que consiga resistir às projecções. Em caso de incêndio, os planos de evacuação das localidades e um sistema de alerta eficaz são igualmente importantes, defende.