Entrevista

CEO da Navigator: "A ideologia tem contaminado o debate sobre a floresta"

Factos, factos, factos… Depois de artigos de opinião, livros, leis e de eventos políticos a condenar o eucalipto, o presidente da associação que reúne a indústria da pasta e do papel, a Celpa, vem a jogo apresentar “factos”, denunciar um problema limitado a “Lisboa” que usa argumentos típicos dos “debates de futebol”.

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Adriano Miranda

Diogo da Silveira, presidente da Celpa e CEO da Navigator, saiu do silêncio para “dar voz” aos 400 mil proprietários florestais e defender o eucalipto, recorrendo a factos subscritos por mais de 50 académicos que assinaram um manifesto contra a existência de um “bode expiatório” na floresta. Diogo da Silveira defende o papel da espécie no sequestro do carbono, na sustentação das economias rurais e diz que se a produção de madeira for travada, quem sofrerá mais são os produtores. Porque a indústria sobrevive com importações mais caras e já está até a investir em novas plantações em Espanha.

Depois de um longo silêncio, a indústria de pasta e papel deixou de jogar à defesa e veio a público defender o eucalipto. O que explica a vossa mudança de estratégia? 
Nós vimos primeiro defender a floresta, tentando partilhar factos, elementos, números. Que nos parecem muito necessários porque no debate que observamos ouvimos muitas convicções, muitas opiniões, mas poucos factos. Temos sido desafiados por muitos outros players do mundo florestal, desde produtores florestais a pessoas do mundo académico, que nos têm dito que deveríamos participar mais no debate, partilhar o nosso conhecimento. Sentimos que, face às evoluções mais recentes, tornou-se incontornável dar voz aos cerca de 400 mil produtores florestais que há em Portugal que não têm sido ouvidos.

Quem critica o eucalipto também alega ter factos em favor das suas argumentações. 
Não conheço esses factos, mas posso partilhar alguns muito simples: um dos temas que têm sido muito comentado é o papel do eucalipto nos incêndios. Não sei se está claro para todos que da área ardida em Portugal nos últimos anos, segundo o ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas), 80% não é eucalipto. Importante é centrarmo-nos nos 80% e não nos 20%. Mais de 80% do que ardeu nos últimos 15 anos em Portugal não é eucalipto.

O que vos preocupa mais: uma certa hostilidade da opinião pública ou medidas políticas concretas que o Governo tem tomado em relação ao eucalipto? 
O que nos preocupa é que sejam tomadas decisões sem o conhecimento adequado. É preciso construir em cima dos factos. Portugal é o único país da União Europeia em que a superfície florestal se reduziu nos últimos anos. Não é isso que desejamos. Todos os que participam no debate e podem tomar decisões devem ter os factos em conta. No mês passado saiu o novo relatório sobre as Alterações Climáticas que diz duas coisas importantes: para conseguir o objectivo de as combater, tem de se reduzir em 50% as emissões de CO2 em 11 anos. Além disso, deve haver 25% de mais floresta no mundo, isto é, mil milhões de hectares. Em Portugal estamos a reduzir. A floresta em Portugal deveria contribuir para o Acordo de Paris.

Mas os críticos não incluem o eucalipto nesse esforço de florestação. Antes o consideram responsável por parte da destruição, como é o caso dos incêndios. 
Houve grandes incêndios em três geografias distintas: Grécia, Suécia e Califórnia. Não ardeu um eucalipto. O que temos de nos preocupar é como vamos ter mais floresta em Portugal e o eucalipto é um dos elementos que vamos querer que haja, porque senão não há mais floresta. O objectivo número um da floresta na vertente ambiental é ser sumidouro de carbono. Acho que o CO2 quando chega a um eucalipto não diz: “Olha aqui eu não sou capturado.”

Mas há a ideia de que há eucalipto a mais em Portugal. Temos a maior área relativa de eucaliptos do mundo. Como respondem a este facto? 
Com olhos de ver. Os eucaliptos em Portugal existem mais ou menos na mesma percentagem que o sobreiro e o pinheiro – estão todos entre os 21% e 26%. Há países que têm naturalmente muito mais eucalipto que nós. Depois, infelizmente, a área florestal em Portugal reduziu-se 150 mil hectares nos últimos anos.

Mas o eucalipto cresceu de 50 para 850 mil hectares em 50 anos. 
Mesmo com o crescimento do eucalipto, a área de floresta reduziu-se em Portugal. Imagine se não tivesse havido o contributo do eucalipto. O que mais aumentou foram os matos e incultos. Cinquenta por cento do que arde em Portugal são matos e terrenos incultos. Quanto mais prejudicarmos o crescimento das espécies que de facto se conseguem desenvolver em Portugal, mais vamos ter matos e incultos.

A guerra contra o eucalipto, chamemos-lhe assim, não é de hoje. Tanto que há uma frase na cultura popular que diz que “seca tudo à volta como um eucalipto”. É baseado em que factos? 
O eucalipto tem uma característica, é muito versátil. Se houver pouca água ele bebe pouca água, se houver muita água ele bebe muita água. Outras espécies são menos flexíveis. Se um eucalipto consumir muita água isso tem uma consequência: vai produzir muita madeira. Se quiser, posso dizer facilmente que o eucalipto bebe muita água, sim. Mas no mesmo período de tempo, para a mesma quantidade de água, faz mais madeira.

Mas faz menos biodiversidade, que é outra das questões apontadas. O sub-bosque é mais pobre. 
Não. Não existem factos nenhuns do meu conhecimento científico, e como viu há 50 académicos e cientistas a assinar o nosso texto, do ISA ou da UTAD, gente que estuda este tipo temas, e não há nada que indique isso. E se houver seremos os principais interessados em estudar.

Estão preocupados com as necessidades de matéria-prima para a indústria? Já importam cerca de um terço das vossas necessidades? 
O importante são os 400 mil produtores florestais.

E quanto à matéria-prima? 
O tema aqui é desenvolver ou não a matéria-prima portuguesa. Já hoje a indústria em Portugal importa 200 milhões de euros de eucalipto [são pagos 350 milhões a proprietários portugueses]. São 200 milhões que os produtores portugueses não ganham. Se não houver mais eucalipto, o problema número um é para os produtores, que terão menos uma fonte de rendimento, menos oportunidade de criar emprego. Nós, indústria, vamos pagar mais caro, mas temos a possibilidade de comprar fora. Já o fazemos. Os produtores florestais é que vão ter esse problema. E como cadeia de valor, isso terá um impacto social grande. Fizemos recentemente um trabalho com os auditores da KPMG para perceber os efeitos multiplicativos no nosso sector, quer a nível de PIB local e nacional, mas sobretudo a nível social. O nosso sector tem um factor multiplicativo a nível do emprego de 8. Portanto, se somos 4000 a trabalhar na indústria, quer dizer que, mais ou menos, temos 32 mil empregos directos, indirectos e induzidos no sector. E o factor número um multiplicativo é o mundo da floresta. Todos os serviços de prestação de limpeza, de transporte, são muito criadores de emprego. Esses é que estarão ameaçados se não houver mais floresta em Portugal.

Acha que esta nova legislação, que prevê a plantação em zonas ecologicamente mais aptas para o eucalipto, implicando um corte nas áreas totais, põe em risco essa sustentabilidade? 
Na média da UE, 13% da área da floresta é protegida. Em Portugal, há 20% de área protegida. Portanto, já existe uma preocupação muito grande. Não sei se tem correlação com um outro facto que é o da maioria da floresta em Portugal ser privada, daí haver 400 mil proprietários. Em média na UE, o Estado detém cerca de 40% da floresta. Em Portugal, 2%.

Vê isso quase como uma ingerência do Estado em propriedade privada. Mas o Estado não se deve preocupar com questões de ordenamento? 
Claro, o Estado, o Governo, o poder local. O tema do ordenamento é de todos nós. Somos totalmente favoráveis a isso. Mas é preciso reconhecer que como 98% da floresta é de iniciativa privada, temos de ter isso em conta.

A indústria tem sido acusada de se manter muito no fim do ciclo do produto, de não se envolver com os produtores, acompanhando a produção, incentivando a gestão… 
É uma sorte essa pergunta. Aqui a associação, a Celpa, tem tido uma actuação fundamental nessa área e portando vou dar dois ou três factos sobre isso. Primeiro: nós damos um apoio muito claro a tudo o que é abordagem profissional da gestão da floresta porque remuneramos com um prémio monetário significativo tudo o que é comprado em gestão certificada. Os aderentes da Celpa pagam, em média, quatro euros por metro cúbico a mais por madeira certificada. Não é um incentivo genérico, é, como dizem os americanos, pôr o dinheiro onde está a boca. De resto, Portugal foi o primeiro país em que houve um incentivo monetário para os produtores de forma a reconhecer-se a certificação. Mais um exemplo, mais recente, e em relação ao qual tenho algum orgulho, e que se chama “Melhor eucalipto”. Nós disponibilizamos técnicos florestais que vão visitar proprietários e técnicos para fazer duas coisas: mostrar as boas técnicas, as boas práticas, e depois com um programa que se chama “Limpa e aduba”, segundo o qual, se eles limparem os terrenos, nós pagamos o adubo e o serviço de adubar. Todas as nossas áreas [das empresas aderentes à Celpa] têm as suas florestas certificadas, mas é importante que se veja o esforço que estamos a fazer junto dos outros 400 mil proprietários florestais. Em 2014, menos de 5% da madeira que nós comprávamos aos produtores era certificada; no fim deste ano 42% da madeira que compramos em Portugal é certificada. 

O Governo anunciou que vai apoiar financeiramente a retirada de plantações de eucaliptos, a compra de plantas será controlada e haverá multas pesadas para as plantações não autorizadas. É isso que vos levou a dizer agora que o eucalipto é um bode expiatório dos males da floresta? Foi, digamos assim, a gota de água que vos fez tomar esta posição pública? 
Não está directamente associado. Já há alguns meses que temos sentido que o debate não era factual, objectivo. Acho que a ideologia tem contaminado o debate sobre a floresta….

Quer dizer que o Bloco e o PCP mandam mais do que o PS nas medidas do Governo? 
Como vim falar de factos não me vou permitir comentar isso. Mas devo dizer que tudo conta. Posso dizer que um editorial do PÚBLICO, em que dizia que a indústria era cobarde, também contribuiu. Tudo tem contribuído. Quando fui para o terreno e os produtores me dizem: “Quando é que fala, quando é que a associação fala?” Dizem uma vez, dizem dez e depois chega ao momento em que uma pessoa diz: “Têm razão, vamos a isso, vamos dar-vos voz, vamos falar.” É isso que estamos a fazer agora.

Sentem-se vítimas de uma injustiça, de uma perseguição? 
O problema não é saber se é uma perseguição. De resto, aqui entre nós, quando se sai daqui de Lisboa, assim que vamos para fora, para o campo, para o interior, não há estas questões sobre a floresta. As pessoas sabem o que é a floresta. Há floresta em 200 concelhos em Portugal. Em Lisboa é que há ideologias, mas no mundo real as pessoas sabem como é, como é que as coisas acontecem.

Como viram o episódio do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa a arrancar eucaliptos? Chegaram a dizer-lhe qualquer coisa? 
Com certeza. Várias pessoas comentaram. O Presidente é uma pessoa respeitada. Foi mais um elemento que veio confirmar a necessidade de partilhar factos. Tenho a íntima convicção que com factos a atitude podia ter sido outra. Nós até recompensamos a limpeza de terrenos, e é por isso que eucaliptos ou carvalhos que aparecem de forma seminal, e que nunca vão dar madeira, nunca vão dar rentabilidade, também somos favoráveis para que sejam limpos e até há um plano para esse efeito. 

Olhando para o quadro político desfavorável em relação ao eucalipto e o aumento das dificuldades de abastecimento de matéria-prima, estão a pensar suspender o investimento em Portugal e reforçar os investimentos em outras latitudes? 
O nosso primeiro objectivo como sector é tentar apoiar a fileira portuguesa. Primeiro porque é uma responsabilidade, nós somos portugueses. Depois porque nos sai mais barato, somos mais competitivos em custos. Se nós temos de importar madeira brasileira ela chega cá caríssima pelo custo de transporte. A nossa prioridade é sempre desenvolver em Portugal. Mas reconheço que, face às dificuldades, já iniciámos a aquisição e gestão em Espanha, nomeadamente. Reconheço. É a fileira, não só a empresa da qual eu sou presidente.

Deslocalizar a indústria é uma hipótese mais remota? 
Totalmente remota. Não está minimamente em cima da mesa, de maneira alguma. Não há razão nenhuma para deslocalizar.

Vão regressar à vossa habitual discrição? 
Sentimos que nesta altura havia necessidade de esclarecer. Mas não é nos jornais que se resolvem os problemas. Isto não significa uma mudança na nossa postura genérica. É um esforço pontual, que pretende trazer objectividade a um debate que está mais perto do futebol do que de outra coisa.