A vida de luta de um reformador

Senhor de um olhar vivo e de um sorriso malicioso potenciado por sonoras gargalhadas, a sua figura era reconhecida na praceta de Carnaxide onde vivia. Era o “senhor general”.

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lm miguel manso

Estudava, pensava, desenhava soluções mas nem sempre o deixaram agir. À força deste bloqueio se deve, paradoxalmente, o reforço do estudo, o respeito dos camaradas e uma crescente influência na sociedade e entre os seus. Este sábado, aos 82 anos, depois de vários dias internado, morreu em Lisboa o general José Loureiro dos Santos. O seu corpo vai esta tarde para a capela da Academia Militar, no Passo da Rainha, e o funeral decorre na manhã desta segunda-feira para o cemitério de Carnaxide. Acabou a vida de luta de um reformador.

“O grande problema dos militares é que a partir de certa altura, não sabem fazer mais nada. É gravíssimo, sobretudo quando se passa à reserva”, confessou numa entrevista ao PÚBLICO em vésperas de fazer 79 anos. Loureiro dos Santos não caiu na armadilha da inutilidade que a passagem à reserva aos 56 anos lhe estendia. Voltou a estudar, ensinou no Instituto de Estudos Superiores Militares, no ISCSP [Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas], trocou o convívio militar pela Academia de Ciências de Lisboa e a Universidade Nova, divulgou conceitos e análises em livros e artigos.

Abandonou a carreira militar com tristeza mas, também, para dar o exemplo. Era Chefe do Estado-Maior do Exército, protestou contra uma lei do governo de Cavaco Silva – a Lei dos Coronéis – que diminuía o quadro superior do Exército, afectando os que tinham feito a Guerra Colonial, o 25 de Abril e o 25 de Novembro de 1975. Admitia ter convencido do erro o ministro da Defesa, Fernando Nogueira, teve o apoio do Presidente da República, Mário Soares, mas… “O Cavaco, com aquela cara de Cavaco, diz ‘foi tudo muito bem estudado e não estou disposto a fazer nenhuma alteração’, relatou em Abril de 2015 a Anabela Mota Ribeiro.

Os chefes dos outros ramos – Marinha e Força Aérea - presentes na reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional não o apoiaram. Calaram-se. Ficou como alvo a abater. O general ficou triste com este comportamento, mas deu o exemplo. Ainda com nove anos pela frente até à reforma, abdicou da carreira, de vir a ser Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA). Das futuras honrarias em nome da honra. Pediu a exoneração e reforçou o seu prestígio.

Não era a primeira vez que se considerava obrigado a deixar para trás uma missão por falta de condições. Em 1977, com o seu amigo Ramalho Eanes em Belém, teve a incumbência, como vice CEMGFA, de reorganizar as Forças Armadas. Recém-saídas de três frentes de guerra, as fileiras, sobretudo as do Exército, tinham gente a mais. Graduado a general para a missão não teve o apoio dos chefes dos ramos e, ao fim de seis meses, saiu.

O seu plano era o futuro. Como certo era o porvir que desenhou para o conceito de segurança nacional em detrimento do de defesa nacional. O primeiro mais abrangente e moderno, englobando não só as Forças Armadas mas, também, as forças de segurança e vários sectores da sociedade. De recusado passou a ser admitido como inevitável. “Ele esteve sempre à frente do seu tempo”, comentou ao PÚBLICO a jornalista Luísa Meireles, autora da biografia General Loureiro dos Santos, o que tem de ser tem muita força.

E nunca calou a sua opinião. “Pois se viu as provas não acredito nelas”. Foi com esta frase, em tom afirmativo e numa pouca habitual voz alta, que Loureiro dos Santos deu por finda uma conversa telefónica com o primeiro-ministro Durão Barroso sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque de Saddam Hussein. Foi no rescaldo da cimeira das Lajes de 16 de Março de 2003, na qual o Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, o primeiro-ministro britânico Tony Blair, o presidente do Governo espanhol, José Maria Aznar, e Barroso analisaram a situação iraquiana. Quatro dias depois, começou a intervenção militar no Iraque e, do tal arsenal, nunca se divisou o rasto.

São episódios de uma vida que realçam uma das características de Loureiro dos Santos: a determinação. A mesma que o levou a vencer as dificuldades da sua origem. Filho de um casal pobre de Trás-os-Montes, driblou o destino de marçano por influência do professor primário, foi estudar o liceu no Porto para casa de uma tia quando, então, só os privilegiados estudavam. Sempre com o rumo de militar na mente, um fascínio pelo aprumo, disciplina e a necessidade de cumprir missões.

Também foi a determinação que guiou a sua formação militar, apesar da sua mediana estatura e de um corpo franzino. As aptidões físicas eram à justa. Sobravam-lhe as mais decisivas. A determinação levou-o a admirar personagens históricas, para além, ou à revelia, da concordância ideológica. Por admirar Che Guevara, deu o nome do médico guerrilheiro ao seu gato, cuja devoção num momento de doença do dono, o comoveu até às lágrimas do agradecimento.

O sentido de serviço público levou-o a ministro. Não foi de trâmite a sua passagem pelo Ministério da Defesa nos governos de Mota Pinto e Maria de Lourdes Pintassilgo, entre 1978 e 80, em executivos de iniciativa de Eanes: impôs que a venda de material de guerra ao estrangeiro, que era comum numa indústria de defesa dimensionada para uma guerra que acabara, até então decidida pelo titular da Defesa tivesse, em nome da transparência, a autorização do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Mas foi por amizade, respeito e camaradagem ao então Presidente da República que acedeu a entrar nos governos. Encontrou Ramalho Eanes quando veio de Cabo Verde, onde a Revolução dos Cravos o encontrou e foi delegado da Junta de Salvação Nacional. “Quando foram os 40 anos do 25 de Abril, escrevi que instituição militar criou, manteve e destruiu a ditadura”, sintetizou. Um percurso, afinal, virtuoso.

No regresso a Portugal, o seu amigo Melo Antunes e Vasco Lourenço colocam-no na 5ª Divisão para controlar Varela Gomes. Nesta missão foi com Eanes e o então alferes miliciano Medeiros Ferreira. “Para fazer um certo serviço ocidental”, confidenciou há um ano ao PÚBLICO numa entrevista sobre a sua relação com Ramalho Eanes.

Eram os tempos de brasa. Assistiu às convulsões por dentro quando, das ruas, as ondas revolucionárias entravam pelas portas de armas dos quartéis. Foi o primeiro secretário permanente do Conselho da Revolução, recomendou contenção na Assembleia do MFA na noite de 11 de Março de 1975 e esteve com os moderados do Grupo dos Nove [liderados por Melo Antunes].

Depois do 25 de Novembro de 1975, a primeira lei das Forças Armadas tem a sua reflexão e letra. E, desde o início, trabalhou no 2º pacto MFA-Partidos, de 26 de Fevereiro de 1976, na lógica da subordinação dos militares ao poder político democrático. Mas a sua frontalidade foi o guia inicial do associativismo militar.

Senhor de um olhar vivo e de um sorriso malicioso potenciado por sonoras gargalhadas, a sua figura era reconhecida na praceta de Carnaxide onde vivia. Era o “senhor general”.