Stan Smith, o homem que também é um sapato

Na origem, esteve um sapato de linhas simples, que respondesse tão-somente ao que os tenistas precisavam — um calçado duradouro e confortável. Depois, juntou-se-lhe um grande e humilde campeão. O resultado é um modelo de culto, o mais icónico e transversal de sempre.

Aos oito anos, Trevor Smith perguntou: “Papá, deram o nome ao sapato por causa de ti ou deram-te o nome por causa do sapato?” Para tirar essa e outras dúvidas, Stan Smith publicou uma bonita e gráfica autobiografia. Some People Think I’m a Shoe foi escrito para todos o que desconhecem o campeão de ténis que deu o nome ao sapato mais vendido de sempre. E também para contar a história de como os Stan Smith se tornaram agora, 50 anos após a sua criação, um omnipresente acessório de moda.

Stan nasceu a 4 de Dezembro de 1946, em Pasadena (Califórnia), filho de um treinador de ténis. Mas o desporto preferido na infância era o basquetebol. Só aos 15 anos é que o ténis começou a tornar-se mais sério.

Por ter dado um “salto” na sua estatura, Stan apresentava alguma descoordenação de movimentos e isso levou-o a ser rejeitado para apanha-bolas num EUA-México, na Taça Davis. Decidido a melhorar a mobilidade, começou a saltar à corda todos os dias.

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Stan Smith em acção Cortesia Arquivo Stan Smith

Pouco tempo depois ganhava o seu primeiro torneio de ténis, para delírio dos responsáveis do Pasadena Tennis Patrons e do ocasional treinador Pancho Segura, uma estrela no circuito profissional Jack Kramer que, aos sábados, visitava a Pasadena High School. Com 16 anos, Stan definiu quatro objectivos: fazer parte da selecção norte-americana da Taça Davis; ser o número um dos EUA; vencer o torneio de Wimbledon; ser o número um do mundo. Concretizou-os todos!

Antes, Stan conquistou o título de campeão júnior dos EUA e passou quatro anos na University of Southern California (USC), onde foi campeão nacional universitário, em 1968. O rapaz desastrado tinha melhorado o jogo de pés e a velocidade, factores cruciais para quem apresentava um gabarito físico de 1,93m de altura e 82 quilos de peso, que igualmente lhe permitiu desenvolver um ténis apoiado em fortes serviços e bons vóleis na rede.

Depois veio o serviço militar, mas o seu prestígio nos courts fez com que fosse autorizado a continuar a treinar e a jogar ténis, desde que participasse em várias acções junto dos seus camaradas de armas, um pouco por todo o mundo. E foi nesse período que conquistou os dois títulos individuais no Grand Slam.

Líder do ranking dos EUA desde 1969, Smith chegou a número um do mundo, em 1971, ano em que triunfou no US Open, ao bater na final Jan Kodes. No ano seguinte, venceu em Wimbledon, após derrotar Ilie Nastase na primeira final do torneio disputada num domingo — pois até então, na Grã-Bretanha, não eram permitidos eventos desportivos nesse dia. Depois da introdução do actual ranking ATP, em 1973, Smith não foi além do terceiro lugar.

Ao longo da carreira conquistou ainda mais cinco majors em pares masculinos (entre 1968 e 1980), de entre mais de 100 títulos ganhos nas duas variantes. No período de 12 anos, participou em sete títulos dos EUA na Taça Davis e deu por 16 vezes o terceiro e decisivo ponto à selecção na prova — com destaque para as vitórias sobre os romenos Ilie Nastase e Ion Tiriac, em 1972, na primeira final disputada na Europa de Leste, na capital da Roménia liderada pelo ditador Nicolae Ceausescu, sob condições adversas: severas medidas de segurança, público hostil e juízes de linha parciais.

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Os primeiros sapatos introduzidos nos EUA ostentavam o nome Adidas Haillet e eram recomendados em campanhas publicitárias por Stan Smith Cortesia arquivo Stan Smith

A atitude serena, humilde e confiante dentro do court, além do prestígio, conduziu-o à primeira direcção da Associação de Tenistas Profissionais (ATP), que decretou o famoso boicote de oito dezenas de proeminentes jogadores ao torneio de Wimbledon de 1973 — o que o impossibilitou de defender o título.

Os 1209 encontros realizados no circuito penalizaram-lhe o cotovelo. Uma operação em 1977 permitiu que Stan Smith ainda competisse mais quatro anos, até se despedir do circuito. O convite para comentador de ténis na televisão facilitou a transição. Em 1986, tornou-se o responsável pelos treinadores da federação norte-americana (USTA). E, no ano seguinte, foi entronizado no Tennis Hall of Fame, o panteão do ténis mundial.

Ténis e calçado desportivo

A ideia de associar um nome do desporto a um sapato data de 1932, quando a Converse, que patrocinava uma equipa de basquetebol, baptizou uma versão melhorada de um modelo criado 15 anos antes com o nome do jogador mais popular dos The Converse All Stars: o All Star Chuck Taylor. A Adidas fez o mesmo pouco depois, mas com ídolos europeus, apenas conhecidos neste continente.

Desde os anos 30 que a Adidas procurava substituir a lona habitual nos sapatos por couro, já que os modelos Superstar destinados ao basquetebol nunca duravam mais do que alguns jogos. O inovador modelo surgiu em 1965, desenhado com a colaboração de Robert Haillet — o melhor tenista francês dessa década que deu o nome ao novo modelo —, especificamente para os requisitos de um jogador de ténis: sola em borracha com pequenos pitons para melhor tracção em qualquer piso; parte superior em couro, que se ajusta à forma do pé; parte traseira almofadada, para proteger tornozelo e calcanhar; três linhas de pequenos buracos (em substituição das icónicas três listas da adidas) nas laterais, para ventilação — um avanço tecnológico na altura. E praticamente todo em branco, de acordo com as rígidas regras do equipamento dos tenistas amadores, que proibiam qualquer associação às marcas. O preço de lançamento do sapato em questão era de 49,90 francos.

Em Maio de 1971, ainda antes de conquistar o primeiro dos seus dois títulos individuais no Grand Slam, o amigo e agente de Stan Smith (e ex-capitão da selecção norte-americana da Taça Davis), Donald Dell, marcou uma reunião com Horst Dassler, filho de Adolf  “Adi” Dassler fundador da Adidas, no restaurante parisiense Elle et Lui — onde Smith foi surpreendido ao ser recebido por empregadas fardadas como homens.

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O responsável da marca queria introduzir no mercado americano o modelo Adidas Robert Haillet e ninguém melhor para embaixador do que o melhor jogador desse país. Esse estatuto saiu reforçado após a conquista do Open dos EUA, em Setembro de 1971, numa final disputada numa quinta-feira, devido aos sucessivos adiamentos causados pela chuva — na véspera, Smith ganhou a meia-final de singulares e perdeu a final de pares. Sinal dos tempos: quando a falta de luz ameaçou adiar o quinto set dessa final para quinta-feira, o que não agradava a nenhum dos tenistas, os quatro acordaram em dividir o prize-money e decidir o título num tie-break, até aos nove pontos.

Os primeiros sapatos introduzidos nos EUA ostentavam o nome Adidas Haillet e eram recomendados em campanhas publicitárias por Stan Smith. A personalidade do sapato assentava perfeitamente a “Stan The Man” e o seu sucesso cresceu em paralelo com a notoriedade da selecção dos EUA na Taça Davis, prova que venceram entre 1968 e 1972, tornando o processo de mudança de nome mais lento. Aliás, todos os elementos da equipa chegaram a calçar esse modelo, bem como outros tenistas, como, por exemplo, Martina Navratilova.

Só mais tarde, já na era Open (quando, em 1968, os tenistas profissionais puderam entrar nos torneios e as provas do Grand Slam passaram a atribuir prémios monetários) e depois do triunfo em Wimbledon, em 1972, Smith assinou um contrato profissional e a fotografia do campeão norte-americano apareceu na “língua” dos sapatos; curiosamente, uma imagem tirada nos únicos seis meses da vida adulta em que Smith não usou bigode. Com o nome do norte-americano inscrito nas laterais, Haillet e Smith conviveram no sapato durante sete anos.

Uma “peça de estilo”

Em 1973, a carreira de Smith estava no auge; venceu sete dos onze torneios do WCT Tour — circuito profissional que substituiu o Kramer Tour. Por causa deste sucesso, o nome de Haillet viria a desaparecer completamente do sapato e o de Stan Smith, para além da “língua”, passaria a surgir também no calcanhar.

A popularidade dos ténis saltou para fora dos courts e atingiu o estatuto de culto quando, em 1977, David Bowie posou com eles calçados. O ídolo musical era também um modelo de moda para muitos jovens fãs e ajudou a divulgar os Stan Smith — John Lennon usou uns, pretos, durante a gravação de Strawberry Fields. Entretanto, os ténis Adidas já tinham entrado no mundo da moda, com os modelos Samba e, principalmente, Superstar.

Nos anos 80, altura em que outros tenistas também tiveram direito a modelos “com assinatura” — como Rod Laver, Ilie Nastase, Ivan Lendl ou Stefan Edberg —, os Stan Smith ganharam a mesma notoriedade quando começaram a ser adoptados por músicos de hip-hop, como MCA dos Beastie Boys. Mais tarde, Bernard Summer, dos New Order, ou Damon Albarn, dos Blur e Gorillaz, confirmaram a popularidade do sapato no mundo da música, destacada ainda com a inclusão na letra de Jigga That Nigga, do rapper Jay-Z. E o coreógrafo, bailarino, actor e realizador Mikhail Baryshnikov usou-os na tela, no filme White Nights, de 1985. No entanto, até finais dos anos 90, os seus fãs britânicos tinham de viajar a França para os comprar. A influência do sapato chegou ao Japão, único país que incluiu uma versão para trabalhadores, com a biqueira em metal.

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Ao longo da carreira, Stan Smith coleccionou muitos troféus e chegou a número um da modalidade

Mas foi nessa década que a cotação dos Stan Smith subiu em flecha no mundo da moda: a modelo Naomi Campbell apareceu nua na revista The Face apenas calçada com uns Stan Smith prateados. Desde então, foram poucas as alterações feitas no modelo de base. Mas houve uma, talvez tão insignificante como importante, que marcou a história do calçado desportivo: Smith sugeriu a introdução de uma pequena perfuração na língua, por onde os atacadores passavam impedido esta de se mover para os lados. Outra sugestão do próprio resultou num apoio do calcanhar mais acolchoado.

Os Stan Smith originais viriam a ter uma segunda versão, com uma língua almofadada, mas as variantes do modelo dispararam: nos anos 70, uma versão para criança; e em 1997, surgiu o Stan Smith Confort, com os fechos em velcro; em 2002, apareceu um high-top (cano alto), um modelo Millennium com as últimas inovações tecnológicas e, alguns anos depois, a versão Sleek, mais delgada e destinada ao mercado feminino.

O século XXI ficou marcado pela associação de artistas e grandes nomes da moda ao sapato, como Colette, Yohji Yamamoto, Pharrell Williams e Raf Simons, tornando-os uma referência da cultura popular com a sua interpretação do modelo, muitas vezes em exemplares únicos ou edições limitadas, vendidos ou leiloados através de reputadas marcas ou em leilões solidários, apresentando uma variedade de versões em bota, com pitons, com sola alta, plataforma, sandália e até tamancos. E vários estilistas incorporaram-nos no seu guarda-roupa pessoal.

“Tomo com frequência emprestados os da minha filha, uns clássicos brancos e verdes e uns pretos com bolinhas reflectoras. São um modelo muito fácil de distinguir, porque nos acompanharam ao longo de décadas”, admite Katty Xiomara, que, em 2016, desenhou uma colecção para desporto. A estilista portuguesa justifica o sucesso do modelo com a irreverência da juventude: “Os Stan Smith surgem num tempo em que usar sapatilhas no dia-a-dia era algo incomum. Foram pensadas para a prática de um desporto, mas os jovens da altura elevaram-nas a outro estatuto; são modelos que quebraram as regas de vestuário e penso que esta é a razão mais forte para terem direito a esta longevidade e a este estatuto eterno de peça de estilo.”

O ponto zero da sapatilha

Entretanto, surgiram as ligações de outras “marcas” aos Stan Smith, como o universo Star Wars (com Yoda a tomar o lugar de Stan Smith) ou os Marretas. A fotografia de Smith com o seu inseparável bigode foi impressa na “língua” apenas no modelo de 2014, o Skateboarding.

A criatividade dos diversos estilistas mantém-se igualmente através da utilização de novas texturas, diferentes tipos de tecidos (pano e vários tipos de pele) e materiais (incluindo cortiça) e introdução de novas tecnologias. A mais recente é uma sola em poliuretano termoplástico, desenvolvida em conjunto com a BASF, dotada de uma elasticidade que permite devolver energia ao sapato e deu origem ao modelo Boost.

Actualmente, na loja online portuguesa, existem 70 versões do modelo, para homens, senhora e criança — incluindo nove para recém-nascidos.

Originalmente fabricados em Landersheim, no Nordeste da França, os Adidas Stan Smith tiveram de responder à procura e a produção passou por vários países, como Argélia, Canadá, China, Checoslováquia, Alemanha, Hungria, Índia, Indonésia, Marrocos, Portugal, Espanha, Coreia do Sul, Taiwan, EUA ou Vietname.

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Capa do livro comemorativo editado pela Rizzoli

Em 2011, numa bem delineada estratégia de marketing, a Adidas anunciou o fim da produção do modelo Stan Smith —Craig Kallman, chairman e CEO da Atlantic Records, entrou em pânico e comprou (e mandou comprar) todos os pares possíveis, reunindo seis centenas de modelos nos armazéns onde guarda as suas colecções de discos. A justificação da marca: “Stan Smith é um mito que só se vende em França” Dois anos depois, novamente durante o Torneio de Roland Garros, a marca alemã anunciou o regresso do modelo para 2014, assinalando o 50.º aniversário da sua criação. No relançamento, foi dado aos fãs a possibilidade de personalizarem o seu par, escolhendo a cores e inscrevendo o seu nome na palmilha.

Em 2016, a popularidade dos Stan Smith explodiu na Índia, depois de a estrela de Bollywood Ranveer Singh usar um modelo no filme Befikre. ”É a história de um tipo estranho que se transforma num gajo fixe e conquista a rapariga, com os meus sapatos calçados”, brinca Stan Smith. Mais recentemente, a artista Diana “Didi” Rojas recriou os seus ténis favoritos em cerâmica, numa peça em tamanho gigante.

Durante o torneio de Roland Garros de 1989 e perante Robert Haillet, co-criador do sapato, um representante do Guinness World of Records entregou ao responsável da Adidas um certificado pelos 22 milhões de pares vendidos. Hoje, estima-se que já tenham passado dos 40 milhões.

“Este modelo, mesmo sendo extremamente icónico, é bastante básico, é quase uma tela em branco, o ponto zero da sapatilha. Penso que pode ser comparada ao polo do René Lacoste. São modelos absorvidos pela sociedade de tal forma que muitas vezes nos esquecemos de qual a sua verdadeira origem”, explicou Katty Xiomara.

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50 anos após a sua criação, os Stan Smith tornaram-se um omnipresente acessório de moda

Versátil e minimalista, na linha da máxima “less is more”, o sapato é um fenómeno transversal na sociedade, que surpreendeu o próprio Stan Smith: “Raf Simmons usou os ténis diariamente durante dez anos, Usher disse-me que tem o modelo em todas as cores, vemos Harrison Ford, John Lennon... até a mulher do [actual] Presidente calça uns. Não tenho a certeza se isso é bom ou mau.”

Em casa, Stan reúne 60 pares, divididos por dois roupeiros: um para os do dia-a-dia, outro para os de colecção. Continua activo na sua academia, em Sea Pines Resort (Carolina do Sul) — que criou em 2002 e onde prepara jogadores para o circuito profissional ou para obterem bolsas universitárias —, a par das suas funções de embaixador da Adidas, que o levam a todo lado e onde, repetidamente, se depara com o desconhecimento do seu legado.

“No ano passado, num restaurante em Paris, três de quatro rapazes calçavam os meus sapatos. O meu amigo perguntou-lhes se sabiam quem era Stan Smith e mostrou-lhes que era eu que estava ali. Eles não acreditaram, mas, entretanto, devem ter feito uma pesquisa porque, no final do jantar, vieram pedir-me para lhes assinar os sapatos”, contou recentemente Stan Smith.

Ao longo da vida coleccionou inúmeras amizades, cumprimentou seis presidentes dos EUA — visitou a Casa Branca e o casal Clinton jantou em sua casa. Mas Stan nunca imaginou que o seu nome alguma vez se tornasse tão popular. “Nunca sonhei que os meus filhos fossem um dia calçar Stan Smith, muito menos os meus netos”, admitiu o campeão. Tal como ele, também os Adidas Stan Smith têm lugar no respectivo panteão.