A activação do património no teatro de Tiago Rodrigues escuta-se na Rússia

Um dos vencedores do 15.º Prémio Europa Realidades Teatrais, Tiago Rodrigues levou até São Petersburgo duas peças, um grupo de cúmplices para pensar e celebrar a sua obra, e uma troca de emails com um advogado sobre as consequências de queimar uma bandeira no palco.

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Tiago Rodrigues em By Heart Franco Bonfiglio
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Faltavam já menos de duas horas para a apresentação de Burning the Flag quando Tiago Rodrigues, no final de um longo painel de intervenções sobre o seu trabalho, dispensou a habitual sessão de perguntas e respostas. Não apenas porque a função seguia atrasada e começava a adentrar o horário atribuído a Lev Dodin, mas porque a sua leitura do texto Burning the Flag, o inédito que levou até à programação do Prémio Europa de Teatro em São Petersburgo – que incluiu ainda apresentações de By Heart e Sopro – dependia ainda de alguns acertos finais. Impunha-se uma pausa, um café, uma última passagem pelo documento que o esperava no computador e umas derradeiras palavras de conforto para o actor que assumiria a leitura – ele próprio.

Neste curto cerrar de cortinas sobre o encontro que celebrava, através de vários depoimentos, a sua obra distinguida pelo júri do 15.º Prémio Realidades Teatrais – que galardoou ainda Sidi Larbi Cherkaoui, Milo Rau, Jan Klata ou Lev Dodin; em 2010 coube também ao Teatro Meridional –, intuía-se a fronteira sempre porosa entre realidade e ficção, mas recuava-se também às palavras de Magda Bizarro, que, por sua vez, recuavam 15 anos. Minutos antes, a consultora artística do Teatro Nacional D. Maria II e que fundou com Rodrigues a estrutura Mundo Perfeito numa cozinha do apartamento de ambos na Amadora, lembrava que duas semanas antes de se estrear uma das suas primeiras peças, Coro dos Amantes, Tiago falava entusiasticamente de uma peça que não estava ainda escrita e que saiu de chofre numa só noite. “Hoje em dia”, acrescentou, “não há qualquer pânico quando os ensaios começam só com duas páginas.”

Burning the Flag, o texto que Tiago Rodrigues apresentou como uma palestra no Dom Aktera (Casa do Actor) em São Petersburgo, tem tudo que ver com ideias à espera de se concretizarem. “Queimar a Bandeira” é um título fictício que o autor tem usado recorrentemente para designar projectos para os quais não tem título ainda definido. “Ocorreu-me esse título da primeira vez, porque achava que podia lançar alguma confusão na equipa – e lançou, em várias ocasiões”, explicou mais tarde ao PÚBLICO. Daí que quando a organização do Prémio Europa de Teatro questionou Rodrigues sobre a possibilidade de apresentar na Rússia um espectáculo mais recente ou até “um work in progress que poderia ser uma coisa tão simples quanto a leitura de um texto em que estivesse a trabalhar”, atribuiu de forma provisória o título que usa por defeito a uma ideia ainda em branco até que percebesse o que queria, de facto, levar consigo na bagagem.

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Só que, desta vez, as palavras ganharam outro peso e evoluíram para um ensaio que se traduz numa troca de emails entre Tiago Rodrigues, na qualidade de autor e de director do Teatro Nacional D. Maria II, e Rui Ferreira, advogado do mesmo teatro, acerca das implicações jurídico-legais de, no contexto de um espectáculo, uma bandeira portuguesa poder ser queimada naquele palco. “E lembrei-me de que, desde que o Scolari popularizou outra vez a bandeira portuguesa no Europeu de 2004, não tem havido episódios com a bandeira, à excepção do que aconteceu com o antigo Presidente da República [Cavaco Silva] ao hastear a bandeira ao contrário.”

Burning the Flag, lida perante a plateia da Dom Aktera, explicitava também três dimensões que as várias intervenções sobre a obra de Tiago tinham já desvelado com mais ou menos profundidade: a relação permanente entre ficção e realidade que o próprio assumiu numa conversa dirigida pela professora Maria João Brilhante, com origem na epifania que teve ao cruzar-se no início da carreira com a companhia belga tg STAN; a forma como a sua vida tem consequências directas na obra que cria, de onde a sua condição de director do Teatro Nacional aqui transpira directamente para um texto; a inevitabilidade de injectar uma dimensão política, mais ou menos clara, nas suas criações – e, neste caso, não se furtou a, ao avançar pelo email dirigido ao advogado, em que colocava a hipótese de toda a sua equipa ser presa, caso prosseguisse com a ideia de queimar a bandeira em palco, comentar que poderiam talvez programar uma temporada na prisão na qual, quem sabe, Kirill Serebrennikov (realizador russo crítico de Putin e da influência da Igreja Ortodoxa no país, em prisão domiciliária devido à acusação de desvio de dinheiros públicos) poderia participar como artista associado.

Essa implicação política foi também lembrada pela actriz Cláudia Gaiolas e pelo crítico de teatro e investigador Rui Pina Coelho, cuja intervenção sublinhou o quanto as abordagens a textos de Flaubert ou Tolstoi por parte de Tiago Rodrigues são também sintomas de uma escrita que se coloca contra a intolerância ressurgida de forma escancarada no território europeu de hoje. E, confirma Rodrigues ao PÚBLICO, essa é também uma das motivações para a apresentação de Burning the Flag num encontro de representantes do teatro do continente, alegando que “é importante propor uma reflexão sobre a emergência dos nacionalismos populistas nas sociedades europeias, uma vez que não podemos deixar essa questão de fora ao pensarmos seriamente sobre a criação artística actual”. Em São Petersburgo, na quinta-feira, Tiago Rodrigues apresentou também By Heart, o espectáculo que se conclui com a aprendizagem de cor de um soneto de Shakespeare por um grupo de dez espectadores, todo ele construído enquanto tributo à memória (e à literatura) como forma de resistência.

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A obrigação de (não) obedecer

Não é certo ainda se Burning the Flag se manterá como uma palestra ou se evoluirá para um espectáculo de palco. A apresentação do texto perante muitos cúmplices que reflectiram sobre o seu trabalho serviu também para Tiago Rodrigues tomar o pulso em relação às opiniões a este respeito. Mas, antes de mais, esses testemunhos – de Magda Bizarro, Rui Pina Coelho, Cláudia Gaiolas, Jolente de Keersmaeker, Mark Deputter, Laure Adler, Francisco Frazão, Jorge Louraço Figueira, Géraldine Chaillou e Sven Age Birkeland, acrescidos de mais alguns em vídeo, sob a coordenação de Maria João Brilhante – colocaram o autor diante de uma série de análises acerca da sua obra que, nalguns casos, o surpreenderam. Sobretudo quando Chaillou, directora do Théâtre de la Bastille, em Paris, sintetizou de uma forma inesperada a ideia frequente de “activação do património”, ou seja, do recurso à memória, ao passado e ao reportório nos seus espectáculos, mas enxertando-os no presente, propondo uma relação criada aqui e agora.

Claro que ser escalpelizado desta maneira, mesmo descontando que todas aquelas vozes pertenciam a profundos conhecedores e apreciadores do seu trabalho – salientando não apenas essa activação do passado, a coerência entre quem se é no teatro e na vida ou o papel do silêncio na sua escrita de palco, apontado por Frazão, nas suas várias valências –, cria agora um perigo de que Tiago Rodrigues se diz consciente. “A grande questão que se levanta quando se tem o privilégio de ter pessoas fantásticas a dizer coisas fantásticas sobre o nosso trabalho é não sentir a obrigação de lhes obedecer. Porque agora que me explicaram que é isso que eu faço, tenho de tentar no próximo espectáculo não perseguir a memória, o silêncio ou a activação do património, sabendo, ainda assim, que é inevitável que tudo isso esteja lá. Tenho um certo receio de um teatro que tenta provar o ensaio que já escrevemos na nossa cabeça sobre a peça que ainda não fizemos. Isso é o contrário do que quero fazer.”

Pela primeira vez, na verdade, ao estrear Sopro em Julho de 2017, em Avignon (a peça passou também por São Petersburgo, numa interrupção da sua carreira de um mês totalmente esgotada no Festival de Outono, em Paris), Tiago Rodrigues não sabia a que peça se iria atirar em seguida. E isto porque soube desde logo que se tratava de uma peça de “fim de etapa, de chegada à meta”, síntese de um conjunto de questões recorrentes nos seus últimos espectáculos: “A transmissão da memória, a função do teatro nessa transmissão, uma reflexão sobre o teatro, uma metateatralidade que se quer altamente teatral, um recurso a estratégias do teatro documental, mas na mão de quem prefere fazer ficção.”

Daí que, depois de se ter assustado com tanto tempo em que se sentiu de “barriga cheia” com Sopro, em 2018 tenha oferecido descanso à urgência a que Laure Adler e Mark Deputter se referiram por várias vezes, para se dedicar sobretudo à pesquisa, a trabalhar com jovens actores e a conhecer novos cúmplices – tudo isto a somar ao constante pensamento da programação e do papel a cumprir à frente do Teatro Nacional. Mesmo que nunca tenha sentido que essas funções no Dona Maria II pudessem comprometer a sua disponibilidade para a criação e para a circulação nacional e internacional das suas obras – “O tempo que passo a trabalhar no Teatro Nacional sem estar a criar é muito mais feliz do que o tempo que antes passava a procurar dinheiro para poder fazer peças”, diz –, o Prémio Realidades Teatrais valoriza também essa inquietação e a constante vontade de abrir sempre novas janelas e buscar novas paisagens. Agora, talvez com Burning the Flag e com Um Novo Final para a Menina Júlia comecemos a entrever o que poderá seguir-se no percurso artístico de Tiago Rodrigues. Ou talvez não. As janelas tanto podem abrir-se para novos lugares como reflectir a própria imagem, mudando ligeiramente o ângulo de visão.

O PÚBLICO viajou a convite do Teatro Nacional D. Maria II e do Prémio Europa de Teatro