Mostra de dança NANT abre com o prazer eufórico da individualidade

Happy Island é uma criação da espanhola La Ribot para o grupo Dançando com a Diferença e dá o mote para a sétima edição da New Age, New Time. O festival de dança, que inclui cinema e conferências, ocupa o Teatro Viriato, em Viseu, até 30 de Novembro.

Fotogaleria
Júlio Silva Castro
Fotogaleria
Júlio Silva Castro

O palco não é só o palco, mas também a deslumbrante floresta do Fanal, na Madeira, onde os centenários tis se erguem num ambiente de nevoeiro e misticismo. Ao centro, recortada contra a emblemática paisagem da ilha da Madeira, está Maria João Pereira, corpo estendido e trémulo que desce da cadeira de rodas para ser ela própria arte viva. A bailarina é uma das intérpretes de Happy Island, espectáculo da coreógrafa espanhola La Ribot para o grupo Dançando com a Diferença que abre esta sexta-feira o festival New Age, New Time (NANT) no Teatro Viriato, em Viseu. “A Maria João tem um movimento específico que seria muito difícil de imitar por outro bailarino treinado”, diz Henrique Amoedo.

O director artístico do Dançando com a Diferença – grupo fundado em 2001 para trabalhar a dança com pessoas em risco de exclusão social – afirma que a criação “aproveita as capacidades de cada um e trá-las a cena”. Foi, precisamente, a diversidade de potenciais dos bailarinos que encantou La Ribot quando chegou ao Funchal para uma residência artística com o grupo. Inicialmente, a coreógrafa espanhola manifestou vontade em coreografar para o grupo todo, mas confrontou-se com dificuldades logísticas. Então, surgiu como alternativa a ideia de incluir os 35 membros do elenco no filme de Raquel Freire que acompanha os 70 minutos da peça. “Essas individualidades acabaram por tornar o espectáculo mais rico”, nota o também fundador do grupo.

Em estreia nacional, Happy Island exibe a diferença como um trunfo, mas apresenta o prazer como um direito humano e universal. Nesse sentido, procura-se contrariar a castração que as pessoas com deficiências físicas e cognitivas sofrem frequentemente aos olhos da sociedade. “Esta obra fala dos desejos de cada um e toca temas que são muito tabu quando há deficiência envolvida”, explica Henrique Amoedo.

O imaginário levado a palco

Além da coreografia propriamente dita, a peça confia numa “estética ousada” para combater o preconceito e mostrar que somos todos feitos da mesma matéria. Há várias figuras espampanantes que atravessam o palco em clima de festa e euforia numa ode aos “prazeres imaginários, sensuais, sexuais, secretos e cómicos” e ao prazer que contém em si todos os outros – o prazer de existir. Os figurinos de cores garridas e materiais pomposos com plumas e brilhos dão um tom de cabaret e fantasia à peça – e também eles reflectem o mundo dos seus protagonistas. “Esta é uma junção do sonho de cada um e da visão que La Ribot teve para cada um”, nota.

O encontro da coreógrafa com o Dançando com a Diferença foi também o encontro com a ilha da Madeira, que “se tornou uma metáfora para o isolamento” [trabalhado no grupo], segundo disse La Ribot em declarações ao Teatro Viriato para o dossier de imprensa. A partir das particularidades da ilha, cuja beleza e riqueza inspiraram a criadora, buscaram-se as particularidades das pessoas num trabalho que flutua entre o ficcional e o narrativo. “O conceito de heterogeneidade é essencial para mim e orienta a minha visão do mundo.”

A NANT como “lugar de reflexão”

O filme de Raquel Freire oferece um olhar íntimo sobre os intérpretes e as suas histórias de vida. “Acho que [noutra vida] fui stripper, adoro atirar a roupa para o ar e dançar no espaldar do ginásio”, diz, a certa altura, Maria João Pereira, que reconhece que a dança lhe deu “muito mais confiança”. Foi feito um trabalho de fundo com o elenco e os seus familiares de forma a tentar “compreender o desejo, vontade e sonho de cada um”.

A proximidade dos familiares no processo de criação é parte do importante trabalho de bastidores destacado por Telmo Ferreira. O bailarino, presença habitual nas criações do Dançando com a Diferença, passou para fora de cena para fazer assistência coreográfica de Happy Island. “Muitas vezes o público não imagina o quanto temos de trabalhar com os pais e com eles, do comer ao saber vestir, à autonomia necessária”, esclarece.

Até ao final de Novembro, a sétima edição da NANT quer ser “um lugar de reflexão e partilha com o público”, de acordo com Paula Garcia, directora artística do Teatro Viriato. O domínio da palavra e a entrada de som e voz na dança é uma ideia transversal à programação, que integra cinema, com o filme Um Saco e Uma Pedra, de Tânia Carvalho, conferências e espectáculos como a estreia de Um Encontro Provocado. A nova criação de Henrique Rodovalho para a Companhia Paulo Ribeiro propõe uma reflexão sobre a violência através do encontro entre Portugal e Brasil. “Possibilita-se a contaminação da dança internacional num espaço que privilegia a coreografia e a dança nacional”, sublinha Paula Garcia. O espectáculo sobe ao palco a 29 e 30 de Novembro.