GONçALO F. SANTOS

As melodias de Marcelo Camelo são coisa de orquestra

Sempre o conhecemos como inspirado escritor de canções. Agora, o músico brasileiro estreia-se como compositor sinfónico. Primitiva, peça evocadora do romantismo, aí está a fazer as apresentaçoes.

Não é raro ouvir de um músico a confissão de que a chegada de um bebé aos seus braços teve implicações directas no período criativo que se seguiu. Muitas vezes, por questões de ordem eminentemente prática: quando se adormece uma pequena bomba de choro com pulmão de cantor de ópera, os instrumentos não demoram a perceber que têm de alcatifar as notas, a voz cantada aprende à primeira que deve rasar o silêncio para o bem de ambos. E, por isso, é bastante habitual a descida drástica de decibéis nas criações seguintes, decorrente não apenas do embevecimento por um pequeno ser – esse estado deslumbrado também não se coíbe de aparecer na música –, mas sobretudo em dívida para com o justo descanso das duas partes.

O que é raro – senão único – é que alguém que tenha passado a sua vida artística a escrever canções, algumas delas já tangentes ao silêncio, por vezes de uma candura que só pode domar energias e de uma beleza que suspende, por momentos, as ameaças do mundo lá fora, encare a paternidade como um convite a encostar o violão a um canto e a eleger como projecto para os dois anos seguintes a escrita de uma sinfonia. Mas foi mesmo isso que aconteceu com o músico brasileiro Marcelo Camelo, membro dos intermitentes Los Hermanos e autor de dois soberbos álbuns a solo (Sou/Nós e Toque Dela). Se a ideia soa meio louca, é porque não há como negar o quase delírio do gesto – a típica ideia megalómana que, regra geral, perde qualquer razoabilidade após uma noite de sono (mesmo que mal dormida).

Em rigor, podemos rectificar e precisar que o violão não foi encostado à parede; antes serviu para tecer nas suas cordas as melodias que, muitos meses depois, viriam a ser passadas para os vários naipes de uma orquestra. Mas foi o nascimento, em Portugal, da sua filha com a cantora Mallu Magalhães, a empurrar Marcelo Camelo na direcção de uma experiência totalmente nova na sua carreira. Impelido antes de mais, revela o músico ao Ípsilon, pela “ideia de não viajar, pela necessidade de estar em casa, disponível para todos os aspectos [da nova vida a três]”. “Havia esse cansaço de já ter viajado durante muitos anos e fiquei pensando como é que podia fazer um disco que não significasse uma tournée neste momento da minha vida.” E foi assim que, sem se dar tempo para grandes hesitações, começou a “compor muito em casa, no sofá, com a televisão ligada”. “Depois a parte da orquestração é que exigiu uma imersão um pouco maior.”

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Primitiva, a primeira obra orquestral de Marcelo Camelo, disponível na íntegra esta sexta-feira no YouTube (outras plataformas se seguirão) GONçALO F. SANTOS

Antes de iniciar essa vida regrada de compositor ao serviço da música escrita, que lhe permitiu aproximar-se da “vida normal da maioria das pessoas” graças ao cumprimento de uma rotina – “Sempre ansiei por essa organização de poder acordar todos os dias e ter um certo horário para fazer um determinado trabalho”, confessa –, Marcelo Camelo ainda produziu os mais recentes álbuns de Mallu e de Momo, bem como um disco em registo familiar assinado por Ana Camelo em parceria com Luis Otávio (mãe e tio do músico). Ao longo desse período em que se permitiu ainda dispersar a atenção por projectos alheios, Marcelo ia amadurecendo a ideia espaventosa de compor uma sinfonia, tão mais espaventosa quanto até então a sua experiência era simplesmente a de ser co-autor de arranjos de metais para os discos dos Los Hermanos. Formação em música escrita: nenhuma. Experiência em orquestração: zero. Mas isso não o deteve.

Aquilo que fez foi apetrechar-se com quatro ferramentas fundamentais: fez um curso de composição e orquestração online, para se familiarizar com a linguagem e aprender acerca das “especificidades da escrita” dos vários instrumentos; experimentou vários softwares de composição até encontrar aquele que melhor se adequava às suas necessidades de iniciado; ouviu milhentas sinfonias, analisando a estrutura das peças e percebendo a linguagem com que se identificava de forma mais flagrante; e, por fim, a noção pessoal de que cada álbum obedece a um processo de aprendizagem. “Ser artista é uma profissão em que quem arrisca  e quem está em contacto com aquilo que nunca fez devia ser regra”, diz. “Não me atrai muito a ideia de acertar aquilo que já acertei, isso só serve para mostrar ‘Olha como eu acertei!’. Acho que aquilo que me move a fazer é a jornada de aprendizagem. É reconfortante essa ideia de que se está a ganhar algum conhecimento enquanto se cria alguma coisa. Isso é fundamental para mim.”

Músico romântico

Antes de avançar para a composição de Primitiva – a primeira obra orquestral de Marcelo Camelo, disponível na íntegra esta sexta-feira no YouTube (outras plataformas se seguirão) –, Marcelo já vinha “paquerando a música sinfónica há algum tempo”, argumenta. Mas nada que se fizesse sentir ainda de uma forma clara: tinha contado com a colaboração da pianista clássica brasileira Clara Sverner em dois temas de Sou/Nós e encomendado uma versão para orquestra de Téo e a gaivota, faixa de abertura desse mesmo primeiro álbum a solo. A empreitada foi entregue ao maestro Laércio de Freitas, mas nunca passou da partitura, devido à falta de meios financeiros para avançar com uma gravação capaz de dar um outro corpo a uma das canções mais belas desse álbum em que o músico explorava de forma brilhante o seu instinto melódico.

Até agora, por isso, Marcelo nunca tinha ido além de pendurar na imaginação o som de uma orquestra a interpretar a sua música. E durante muitos meses, a experiência com Primitiva não foi muito diferente, enquanto desenhava notas nas pautas do computador e se defrontava com a reprodução artificial das muitas horas de criação devolvidas pelos auscultadores ou pelas colunas. Nessa altura, no entanto, Marcelo já tinha avançado o suficiente para o caminho se afirmar e para aprender, através da prática, a linguagem escrita para a qual naturalmente tendia. “Acho que isso vem muito por afinidade, igual ao que acontece também com as canções”, justifica. “É simples: você ouve uma coisa e gosta mais do que de outra.” No seu caso, não demora a perceber-se que a sua escrita composicional não partilha com as experiências semelhantes de músicos oriundos do pop/rock com obra sinfónica – casos, por exemplo, de Jonny Greenwood (Radiohead) ou Bryce Dessner (The National) –, a estética bastante mais aventureira que estes músicos perseguem.

Não se colha daqui, ainda assim, que o menor aventureirismo estético da sinfonia do brasileiro é sinal de fraqueza. Nada disso. É apenas sintoma de uma identificação fora de moda com o período romântico. Apreciador de músicos de perfil bastante mais vanguardista como Derek Bailey, Fred Frith ou Phil Minton, nos terrenos apensos ao jazz, Marcelo nota que “a música sinfónica do último século tem muito pouco resquício do romantismo, é quase toda mais estranha, mais experimental, mais ruidosa”. “Também ouvi muito dessa turma para tentar ver se era esse o caminho, mas acho que o meu desejo de composição se assemelha um pouco com o tipo de música que fazia e faço no violão quanto vou cantar alguma coisa. Tem mais que ver com essas melodias que causam uma sensação de beleza imediata. Não sei como descrever, se é romantismo, mas é uma coisa mais palatável e menos desafiadora.”

Não é muito diferente com a música pop, garante Marcelo Camelo. Sempre se deixou encantar por melodias trauteáveis, “gostosas de cantar e de assobiar”, sempre baixou as guardas diante de composições de Ary Barroso (e cita temas como No rancho fundo ou No tabuleiro da baiana) Dorival Caymmi, Assis Valente, João Gilberto (nomeia Para machucar meu coração) ou Tom Jobim. Tal como acontece com as canções, portanto, Marcelo aprecia “linhas melódicas mais estranhas, caminhos mais truncados”, mas também na música sinfónica não se prende tanto em autores como Ligeti ou Penderecki, voltando sempre com mais frequência a nomes como Ernesto Nazareth, Mahler ou, sobretudo, Brahms. “As sinfonias, em geral, têm momentos memoráveis”, comenta, “é difícil conseguir uma sinfonia que seja toda ela memorável. A menos que seja Brahms. A música dele é como uma canção, pode cantar-se um movimento inteiro. E acho que isso faz dele um compositor único.”

De certa forma, Marcelo Camelo sente-se também um compositor único. Não no mesmo sentido laudatório que atribui a Brahms, mas antes pela condição solitária em que se vê metido ao criar uma sinfonia tão distante das práticas autorais contemporâneas. Tanto assim que, sentindo-se um estranho e um verdadeiro outsider no que toca ao meio da música clássica, “sem qualquer contacto com algum compositor contemporâneo”, peneirou a mesma internet (onde descobriu muitas das respostas para as dúvidas que lhe foram surgindo ao longo do percurso) à procura de “pares”, gente da sua idade que partilhasse idêntica inclinação para a criação segundo uma estética caída em desuso e arrumada nas prateleiras da História da Música. “Não encontrei muitos”, desabafa. “Na verdade, não encontrei ninguém”, ri-se.

A música de Primitiva nasce do enorme espaço de liberdade que Marcelo pode reclamar ao não estar obrigado a respeitar os mandamentos da academia e um “compromisso com a inovação” que norteia a generalidade das novas criações contemporâneas. Isso acontece também porque ao não ter enfiado a cabeça nos livros e estudado de forma exaustiva os movimentos que se foram sucedendo na História da Música, o brasileiro pôde escolher um ponto na recta temporal que se inicia, por exemplo, em Bach e chega até, por exemplo, Esa-Pekka Salonen, sem ter de se pensar como continuador de uma tradição. Em vez disso, poder-se-ia dizer que Marcelo Camelo aponta com o dedo para o século XIX e planta-se musicalmente no período romântico, partilhando o ar de Brahms, Tchaikovsky ou Dvorak. Mas sem qualquer preciosismo, porque as primeiras notas de Primitiva também nos podem remeter, sem esforço, para a música sinfónica aplicada ao cinema por compositores como Nino Rota ou Henry Mancini.

Esse peso que linguagens passadas possam ter na sua música pouco preocupa Marcelo Camelo. À ideia por demais repetida de que “as melodias já se encerraram porque as notas são finitas”, o músico responde que é o mesmo do que dizer que “as ideias já acabaram porque as palavras são finitas também”. A par disso, acredita, “existe uma readequação e um arranjo dessa informação” do romântico de acordo com as referências do nosso tempo. “Nenhum desses compositores que temos como clássicos”, argumenta, “ouviu Beatles, nenhum deles viu cinema.” Nem que fosse apenas por isso, a música sinfónica de Marcelo Camelo nunca poderia ser uma mera reprodução serôdia de um padrão de outro tempo.

Fim e princípio

Aliviado por não ter de escrever letras destinadas a acompanhar a música e por poder prescindir de apresentações em palco enquanto intérprete, Marcelo Camelo confessa que o grande desafio por que passou, ao transitar da música pop para a música escrita cunhada como erudita, foi a quantidade de ideias que a composição da sinfonia obrigou a acumular. Ou seja, quando numa canção duas ideias melódicas são suficientes para construir toda uma estrutura que se prolonga por três minutos, repetindo verso e refrão as vezes que forem necessárias, ao compor a partitura de Primitiva surpreendeu-se quando “condensava um monte de meses de música composta, passava para a partitura, começava a orquestrar e descobria que tinha um minuto e meio de música”.

Os minutos foram-se empilhando até se disporem em torno de quatro movimentos que se organizam sob a intensidade de um ciclo. Não só porque é esse o entendimento que Marcelo Camelo faz da estrutura de uma sinfonia, mas também porque os últimos dois anos da sua vida levaram-no a lidar com o nascimento da sua filha e com a perda do seu irmão mais velho. Primitiva começa, por isso, pela melancolia da iminência da morte e vai fazendo o seu caminho até reencontrar a luz nos momentos finais.

Foi tudo isto que Marcelo Camelo levou consigo para Praga, ao alugar por um dia (o orçamento pessoal não permitia extravagâncias maiores) a City of Prague Philharmonic Orchestra e, finalmente, ver ganhar vida uma música que, durante dois anos, viveu apenas dentro da sua cabeça. Após algumas “broncas” da maestrina e da música que fazia a ligação com a orquestra, normais em quem se aventura pela primeira vez neste meio, e feitas as correcções necessárias, Primitiva soou e não soou àquilo que o músico tinha imaginado. Mas a felicidade de Marcelo era impagável por ter levado até ao fim a sua empreitada e criado um registo que lhe lembrava que tudo aquilo fora real e materializava todo o processo de aprendizagem. No entanto, se “o Rubber Soul é o Rubber Soul”, diz comparando o peso de um registo fonográfico no mundo pop e no clássico, com as peças orquestrais a sua existência plena só acontecerá de cada vez que uma nova versão, dirigida por um outro maestro, passar pelas mãos de outra orquestra.

Enquanto não se decide se o próximo passo na sua carreira passará por um novo disco de canções ou a conclusão de uma sonata que já está em marcha, a sua esperança é que esta encantadora Primitiva venha a conhecer diferentes vidas daquela que agora partilha com o mundo. Esta é só uma forma de Marcelo Camelo se apresentar como compositor. Agora cabe ao mundo responder-lhe de volta.