LEFFEST: uma competição de filmes ímpares

O acontecimento desta competição é uma descoberta, Bi Gan. Há um consagrado, Christian Petzold, que, num filme corajoso, se põe a jeito para os mal-entendidos. Ethan Hawke comove. A secção competitiva do LEFFEST é uma mistura sedutoramente heteróclita de filmes ímpares.

Foto
Um exercício de “vacilação” pleno de peculiaridades: Chrisitan Petzold, Transit

Os onze filmes que integram a secção competitiva do LEFFEST compõem uma mistura sedutoramente heteróclita, quer na origem das obras seleccionadas (vamos dos EUA ao Cazaquistão), quer no "diálogo" entre realizadores de gerações muito diferentes, uns já "consagrados" e com longos percursos, outros ainda no princípio, e finalmente, como seria o resultado óbvio desta combinação, na própria natureza dos filmes a apresentar – dá vontade de dizer que não há "redundâncias", e que todos fazem, neste contexto figura de filmes "impares" (não contando com os três títulos que não pudemos ver antecipadamente, e que adiante mencionaremos).

Ímpar é, certamente, Long Day's Journey Into the Night, segundo filme de um realizador chinês de 29 anos, Bi Gan (Monumental, dia 21 às 18h, e dia 22 às 15h30). O título internacional pede emprestado o nome de uma peça de Eugene O'Neill, mas o título original em mandarim significa, ao que podemos saber, algo como Últimas Noites na Terra – que é um título que, por sua vez, faz pensar no Ferrara de 4.44  Last Day on Earth. E todas estas referências, tomadas à letra ou em sentido figurado, parecem estranhamente vir a propósito. É um filme dum longo fluxo, entre a vigília e o sonho, entre a sobriedade e a alucinação, a fazer vénias a um espírito de noir multicolorido enquanto segue as deambulações do protagonista masculino, às voltas com fantasmas do seu passado (mulheres, homens), pelos bares, vielas e bas-fonds, sempre nocturnos, de uma cidade (Kaili) no sul da China. Bi Gan vem da China Popular mas o seu filme parece inundado da languidez de Taiwan – a humidade quente de Tsai Ming-liang, o enlevo quase romântico (há vários números musicais, muito crooning chinês) de Hou Hsiao-Hsien. Bi Gan, em entrevistas e conferências de imprensa, a propósito de influências, falou de um cocktail singular: Dante, Chagall e Billy Wilder, e mais uma vez tudo isto, bem vistas as coisas, não é disparatado (nem a referência a Wilder, se pensarmos em Marlene Dietrich lançada nas ruinas de Berlim em A Foreign Affair). Há tour de force, e bastante original: a meio, o protagonista entra numa sala de cinema para ver um filme 3D e o espectador é convidado, nessa altura, a pôr os óculos; e, como se cruzasse um portal qualquer para dentro da mente do protagonista, a hora final do filme praticamente se converte num longo plano-sequência, experiência "sensorial" feita de coisas muito materiais (até um jogo de ping pong, por exemplo). É um filme, mais do que para a "suspensão da descrença", para a "suspensão do juizo" – avançamos por aquele ambiente terrivelmente "atmosférico" e gozamos o passeio. Só depois começamos a pensar sobre o que é que, exactamente, aconteceu aqui. Boa sensação, e sensação rara. A respeito de descobertas, Bi Gan será o principal acontecimento desta competição.

Depois há um "consagrado", que nos últimos anos se tornou conhecido dos portugueses, e que também propõe um exercício de "vacilação" pleno de peculiaridades. Falamos de Christian Petzold, de quem veremos Transit (Monumental, 20, 18h, e dia 23 às 21h45). De certo modo, é uma sequência para o precedente Phoenix, que lançava Nina Hoss nas ruínas da Alemanha do pós-guerra (como a Dietrich de Wilder, já que falámos dela). Aqui não há Nina Hoss (pela primeira vez em muitos anos Petzold não filma com a sua actriz recorrente), nem a Alemanha, mas há o Sul de França, Marselha, e uma história da II Guerra (adaptada de um romance de Anna Seghers, publicado em 1942, sobre um fugitivo dos campos de concentração que tenta conseguir passagem para o porto de abrigo dos EUA). Singularidade "conceptual" do filme: Petzold não faz um filme de época, conta uma história da II Guerra com vestuários e lugares modernos, e a "mensagem" é evidente no seu sentido político, talvez até um nadinha demasiado, quando enquadrado perante esta Europa de reaccionarismos galopantes. Phoenix era um dos melhores filmes de Petzold, Transit talvez fique longe de o ser, mas é um filme corajoso, a todos os níveis, até como se põe a jeito para os mal-entendidos.

PÚBLICO -
Foto
Um filme dum longo fluxo, entre a vigília e o sonho, entre a sobriedade e a alucinação: Long Day’s Journey Into the Night, de Bi Gan

Outro nome que – felizmente! – se tem vindo a tornar mais familiar ao espectador português é o do brasileiro Júlio Bressane, de quem veremos A Sedução da Carne (19, 15h30, e 22, 18h30, Monumental). Retoma o que tem sido a prática dos últimos filmes de Bressane, como Beduíno (recentemente estreado por cá): pouquíssímos meios, quase nada mesmo, apenas uma actriz, um décor quase teatral mas virado do avesso pela imaginação (e até luxúria, luxúria minimalista) da câmara e da luz de Bressane, e rituais eróticos, excertos de filmes antigos. E com isto, Bressane, prosseguindo o rumo dos últimos anos, reencontra algumas preocupações antigas da sua obra, nomeadamente a reflexão sobre a identidade brasileira, a persistência de uma identidade "pré-Cabral" mas também de uma identidade para além do "cultural", ligada à natureza, à paisagem, à fauna (pontifica um papagaio, ou arara, como "actor secundário").

Veremos ainda outra descoberta recente, Ryosuke Hamaguchi e Asako I e II (17, 15h30, e 19, 19h30), a sequência que o japonês deu a Happy Hour. Agora são só duas horas, e o I e II do título não se refere a duas partes diferentes, mas aos dois homens muito semelhantes que se sucedem na vida da protagonista feminina (como uma espécie de Vertigo com os géneros invertidos) – mas deflaciona um bocadinho o entusiasmo gerado por Happy Hour, perde-se o "labirinto" narrativo, talvez também o efeito de surpresa. Surpresa é Blaze, de Ethan Hawke em versão realizador (17, 18h30, 19, 21h45), bastante comovente evocação do mundo da country americana clássica, através da figura de Blaze Foley, músico que morreu prematuramente no final dos anos 80, com 39 anos. É um realismo doce e cheio de afecto, pleno de presenças e de fantasmas – Kris Kristofferson aparece como actor, Townes van Zandt aparece como personagem.

PÚBLICO -
Foto
Blaze, de Ethan Hawke, é uma bastante comovente evocação do mundo da country americana clássica

Do que vimos, este grupo de filmes acima mencionado foi o que mais nos entusiasmou. Mais, pelo menos, do que Ray & Liz, de Richard Billingham, variação espampanante sobre os códigos do "realismo" britânico"; do que a fábula pós-apocalíptica de Ulrich Kohler (In my Room), do que o cinema muito contemplativo mas também muito de "festival" de Emir Baigazin em The River. A competição integra ainda outros três filmes: L'Homme Fidèle, de Louis Garrel, Vox Lux, de Brady Corbet (com Natalie Portman noutra performance de alta intensidade cuja descrição faz pensar no Cisne Negro), e um filme sobre John McEnroe (In the Realm of Perfection, de Julien Faraut), que quem viu descreve como um exercício formalista que transcende o biopic para se tornar num olhar sobre os movimentos do ténis e dos corpos que jogam ténis. Mas tudo isto fica, para já, por conferir.

PÚBLICO -
Foto
Uma actriz, um décor teatral virado do avesso pela imaginação (e até luxúria) da câmara e da luz de Júlio Bressane: A Sedução da Carne

 Toda a programação em: www.leffest.com