Avery Bibeau
Entrevista

Românticos de todo o mundo: vêm aí The Saxophones

Lançaram o álbum de estreia há um par de meses e deste então o culto tem-se alastrado. Na próxima semana, o casal Alexi e Alison vai estar no Porto e em Lisboa para expor a sua música íntima, vagarosa e sonhadora e muitos suspiros prometem ser libertados.

O que é ser romântico hoje? “Só posso responder por mim e sem certezas”, defende-se ele, para de seguida arriscar: “Talvez seja olhar para o amor não como um acontecimento mas como um caminho, algo que nos faça acreditar que, individual ou colectivamente, por mais problemas que tenhamos no imediato é possível superá-los desde que assumamos também os conflitos e não nos escondamos de nós próprios.”

Di-lo Alexi Erenkov, voz e guitarra dos The Saxophones. O outro membro do duo é a esposa, a baterista e cantora Alison Alderdice. Em Junho lançaram Songs Of The Saxophones, daqueles registos que se foi propagando lentamente, tornando-se num objecto de culto através do boca-a-boca viral. Música romântica e voluptuosa para voz tão grave quanto frágil, guitarra, percussão subtil e ambientes límpidos, uma pop de câmara minimalista, com os olhos cheios de doçura, compaixão e nostalgia por aquilo que não se viveu ainda, seja no passado ou no futuro.

E as letras? “A maioria das canções discorre sobre relacionamentos no abstracto — apesar da minha relação com Alison também lá estar inevitavelmente inscrita — através dos traumas, dificuldades e incertezas, mas também dos afectos calorosos e da esperança. Por vezes devolvem-me que se trata de um disco melancólico. Não para mim. Para mim é sobre crescimento e a possibilidade que cada um guarda para se transformar.”

É música que apetece dançar lentamente a dois, com manchas da pop sonhadora dos anos 1950, do estilo exótica como ele foi definido por Martin Denny, do jazz mais clássico, da folk mais luminosa ou da bossa nova mais acinzentada, tudo isto contaminado pelos ambientes misteriosos de David Lynch como ele os transpôs para a série Twin Peaks. É esta dupla que irá estar na próxima semana, pela primeira vez, em Portugal — a 22 de Novembro no Hard Club do Porto e, a 24, no contexto do festival Super Bock em Stock, no cinema São Jorge em Lisboa.

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Apesar de só este ano terem lançado o álbum de estreia, o projecto já existe na cabeça de Alexi há dez anos. Depois de ter completado estudos de jazz na universidade, onde aprendeu a tocar saxofone, clarinete ou flauta, mas onde o formalismo que encontrou não o convenceu a seguir esse caminho, começou a tocar guitarra e a cantar, ouvindo Daniel Johnston, Roy Orbinson ou Leonard Cohen. “Depois de anos preso a teorias foi muito libertador começar a compor de forma totalmente diversa.” Às tantas sentiu que necessitava de alguém a acompanhá-lo e a mulher foi o seu primeiro pensamento. “O factor mais importante para trabalhar bem com alguém é o afecto e comecei a pensar: quem é que amo neste mundo?”, diz por entre risos, “e o nome da minha mulher surgiu logo, até porque sempre quis fazer qualquer coisa com ela. E por outro lado não aguentaria andar em digressão sem ela!”

Depois de algum tempo de procura, a chave para encontrar o tipo de sonoridade a aprofundar surgiu quase por acaso. “A Alison estava a ver Twin Peaks na sala enquanto eu jardinava e às tantas comecei a ouvir em fundo a canção Just you, de David Lynch e Angelo Badalamenti e aquilo fez-me sentido. E pensei: é assim que gostava que o grupo soasse, com este tipo de aproximação instrumental tão lírica e minimal”. De tal forma levaram aquele momento de revelação a sério que mais tarde haveriam mesmo de criar uma versão dessa canção lançada num single.

E foi assim que em 2016 foi lançado o EP If You’re on the Water, inspirado num tumultuoso Verão em que Alexi e o seu pai estiveram envolvidos num acidente de barco quase fatal, a que se seguiu o suicídio do melhor amigo do pai e alguma instabilidade relacional no casal devido a viagens. “Felizmente as coisas acalmaram depois”, diz, e o casal pôde focar-se no nascimento do primeiro álbum e do primeiro filho. As canções acabaram por ser compostas durante um período em que os dois viveram num barco, durante um Inverno frio e chuvoso em São Francisco. “Acordava cedo — gosto de acordar cedo e de escrever e tocar quando ainda está toda a gente a dormir, porque me foco e é uma altura introspectiva em que me questiono sem distracções — e compunha na cabine do barco com a guitarra enquanto lá fora chovia”, recorda, adiantando que desde o início tinha claro que desejava que o “som final fosse muito espaçoso”, para que as canções “flutuassem e respirassem”.

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Um dos grandes temas do álbum — mesmo que isso nem sempre seja nítido — é a nossa relação e a forma como fomos crescendo como pessoas graças a ela. Devo isso a Alison

O que foi claro desde o começo também é que o duo desejava ter um álbum consistente, com unidade sonora e temática. “Sou capaz de gostar de álbuns que contém várias direcções no seu interior. Alguns dos discos mais conseguidos dos Beatles eram assim, por exemplo. Mas por norma gosto de mergulhar em obras com um universo consistente e de conceito simples. Talvez tenha a ver com o facto de ter ouvido muito jazz clássico e por norma esses discos serem consistentes e muitos deles gravados numa única sessão. No nosso caso demorámos pouco mais de uma semana a gravá-lo. Escrevi as letras, compus à guitarra, arquitectei as canções e depois foram-se introduzindo outros elementos, flautas, percussão ou o baixo, mas sempre com esse pressuposto de ter muito espaço entre sons.”

Está longe de ser um disco político. À primeira vista é até idílico. Mas precisamente por isso Alexi diz que para ele é uma obra de reacção aos tempos pós-Trump. “Foi composto depois da sua ascensão ao poder e, pelo menos na minha mente, de alguma forma, constituiu uma resposta a isso mesmo. Claro que não abraça directamente nenhum tópico político — embora tenha composto nos últimos tempos canções que abordam comportamentos relacionais opressivos — mas vejo-o como um disco que tenta projectar esperança, num tempo em que a necessidade de contacto, de articulação, de conhecimento dos outros, é fundamental.”

Nesse contacto com os outros os concertos e as viagens têm-se revelado fundamentais. “É muito emocionante ver como canções que foram compostas de forma doméstica acabam por ser vividas e partilhadas. Especialmente na Europa é muito emocionante quando as pessoas nos vêm ver. Pode parecer estranho mas nessas alturas sinto-me abençoado por conhecer pessoas, cidades e países de uma forma que não é perfeita — porque também há cansaço, monotonia ou pouco tempo — mas que também não é uma mera visita turística. Há em tudo aquilo que fazemos, e naquilo que nos é devolvido, muita generosidade e isso é importante.”

Na presente digressão o duo faz-se acompanhar do baixista Richard Laws, que tem tocado nos discos, o que vai contribuir para que, desta vez, a sonoridade em palco não se afaste muito daquilo que foi gravado.

“A grande diferença é a nossa boa disposição”, ri-se Alexi. “Pelo facto de a nossa música ser calma e introspectiva as pessoas imaginam que não somos divertidos em palco. Mas não é assim. Ficam desde já avisados: vivemos as canções com intensidade, mas nos intervalos temos a capacidade de nos rirmos, a maior parte das vezes de nós próprios.”

Entre as influências mais subtis que ajudam a perceber a música de combustão lenta e de motivos melódicos arrebatadores do duo encontramos a bossa nova. “Por acaso criámos uma canção nova recentemente que, na introdução, tem um som de guitarra na linha da bossa nova”, confessa Alexi, fazendo-nos de seguida várias perguntas acerca de Caetano Veloso, dizendo que tem ouvido com insistência alguns discos recentes do músico brasileiro, apesar dos seus álbuns de referência daquele país serem maioritariamente dos anos 1960, como as aventuras do saxofonista americano Stan Getz ao lado do violão de João Gilberto.

“Gosto de música complexa, mas que é exposta de uma forma tal que parece simples e a bossa nova tem essa qualidade”, afirma, para de seguida dizer que essa simplicidade é algo que tenta preservar na sua vida também. Neste momento o duo habita em Portland onde tem outras actividades para lá da criação musical. Alison é psicóloga e ele dá aulas de música. “A nossa rotina é muito orientada hoje em dia para o nosso bebé, mas cada um de nós tem as suas ocupações durante o dia”, descreve ele, dizendo que é ao jantar que todos se juntam, mas “raramente” falam de música, diz, irrompendo em gargalhadas. De que falam então?

“Nesta altura do bebé, do bebé e do bebé. E da nossa relação. Reflectimos muito sobre ela. Mas também falamos dos comportamentos sociais das pessoas, do futuro, enfim, esse tipo de coisas. É engraçado porque, no fim de contas, é também isso que acabamos por espelhar nas canções. Na verdade um dos grandes temas do álbum — mesmo que isso nem sempre seja nítido — é a nossa relação e a forma como fomos crescendo como pessoas graças a ela. Devo isso a Alison”, afirma por entre risos. “E isto não é romantismo. É um facto.”