Torne-se perito Crítica

Lucia Berlin: a grande aventura de existir

Depois de Manual Para Mulheres de Limpeza, Lucia Berlin está de volta com Anoitecer no Paraíso Final, mais um volume de contos que a confirmam como uma das grandes contistas da América.

Lucia Berlin foi uma mulher que sobreviveu apaixonadamente e essa é a marca da sua escrita
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Lucia Berlin foi uma mulher que sobreviveu apaixonadamente e essa é a marca da sua escrita

Um dos maiores receios ao saber que vem aí um novo livro com contos de Lucia Berlin é o de que seja apenas um aproveitar da onda iniciada em 2015, quando Berlin saiu da sombra 11 anos após a sua morte, e as histórias agora publicadas não estejam à altura de Manual Para Mulheres de Limpeza. Esse medo foi dissipado.

Para quem ainda não ouviu ou não leu sobre esta escritora, vale a pena sublinhar que Lucia Berlin (1936-2004) deixou de ser um dos segredos mais injustamente guardados durante décadas para ser um nome no centro da admiração e das atenções de milhares de leitores. A sua obra, produzida com maior fôlego nos anos 70 e 80 do século passado, revelou uma escritora às voltas com uma existência dilacerada, a viver à margem, criadora de uma linguagem que sublinha as arestas dessa vida marcada pela pobreza, o álcool, a itinerância, as paixões, a maternidade solitária, o desespero de quem sente não pertencer a um território, a uma classe, a um tipo de família ou a uma ideia de arte que encaixassem nos parâmetros dos bem — e até dos mais ou menos — sucedidos. Lucia Berlin olhava-os com o mesmo tipo de humor negro com que se via a si mesma. Foi uma mulher que sobreviveu apaixonadamente e essa é a marca essencial da sua escrita.

Como ela, a maioria das suas personagens são apaixonadas, aventureiras, têm uma sinceridade trágica — sobretudo as adolescentes —, e um sentido de humor que vai bem com o desconcerto em quem existem. Ela dá-lhes voz através de uma linguagem lírica, mas seca. É capaz das descrições mais enlevadas como de diálogos corrosivos, e com isso constrói uma relação plena de intimidade com o leitor. Com ela, ele sente que entrou num território interdito com o qual partilha grande dose de cumplicidade.

Durante a sua vida de 68 anos, Berlin publicou apenas 76 contos, de forma mais ou menos dispersa; nunca teve uma grande editora, nunca ganhou um prémio, nunca conseguiu qualquer notoriedade. Isso só veio postumamente. Em 2015, quando a Farrar, Straus and Giroux pubicou o volume de contos Manual Para Mulheres a Dias — um dos livros-sensação dos últimos anos —, pensava-se que aquilo era tudo. E se aquilo era tudo, era para guardar bem perto, ir lendo e relendo como quem está diante de uma raridade. Mas Berlin regressa agora às livrarias com Anoitecer no Paraíso Final. Este é o título da edição portuguesa de um volume que reúne 22 contos, prefaciado por Mark Berlin, o mais velho dos seus quatro filhos, que morreu apenas um ano depois da mãe. “A Lucia, Deus a valha, era uma rebelde e uma artesã notável, e como dançava. Quem me dera poder contar todas as histórias, como quando ela deu boleia a Smokey Robinson na Central Avenue, em Albuquerque, a fumar uma ganza, enquanto se dirigiam para o concerto dele no Tiki-Kai Lounge.”

 Tudo era inusitado em Berlin, como quase tudo sempre é nos contos onde a biografia se mescla com alguma fantasia e permite chamar ficção às histórias de muita “má sorte” — expressão de Mark — que compuseram a vida e a obra desta mulher nascida no Alasca, que andou pelo Chile, Texas, México, Oakland, Novo México, Nova Iorque, Califórnia, que atravessou a América e, conta ainda o filho, teve “uma vida de uma média de nove meses em qualquer morada”.

Como em Manual Para Mulheres a Dias, este Anoitecer no Paraíso é revelador da condição nómada de Lucia Berlin. Conhecendo a sua biografia, não é difícil imaginá-la sendo a mulher que, por exemplo, vive em Claire, protagonista de A Minha Vida é Um Livro Aberto, a 13ª história da colecção. Ela chega a uma pequena cidade, instala-se na única casa de adobe com os seus quatro filhos e torna-se amante de um rapaz de 19 anos, bem parecido mas “chanfrado”. Depois, há o olhar dos outros sobre ela e a versão dela sobre esses dias. “Passaram oito meses antes de eu pensar. Tinha ignorado os olhares carrancudos das velhas na loja do Earl e tínhamo-nos limitado a rir da Jennie Caldwell a observar-nos com os binóculos do seu alpendre das traseiras. O Casey e eu éramos o escândalo da cidade, disse-me a Betty Boyer. Depois, o Keith disse-me que os filhos dos Price não podiam vir brincar à nossa casa. Sentei-me no alpendre de trás. Tinha-me mudado para Corrales para começar uma vida nova, educar os meus filhos como deve ser. Numa cidadezinha pacífica, como parte de uma comunidade. Planeara fazer o doutoramento e dar aulas, ser simplesmente uma boa professora e uma boa mãe. Se tivesse pensado num homem no meu futuro, ele seria grisalho, bondoso, com emprego efectivo. E agora olha.”

Berlin está também no sangue que corre na narradora de Do Pó a Pó, o quarto conto, a adolescente que consegue autorização para ir ao funeral de um motociclista. “Há coisas de que as pessoas simplesmente não falam. Não me refiro às coisas difíceis, como o amor, mas as desconfortáveis, como o facto de os funerais serem divertidos ou de ser empolgante ver edifícios a arder. O funeral de Michael foi maravilhoso.” Num diálogo de Andado, um Romance Gótico, que abre o volume, alguém diz diante da imensidão de uma fazenda: “- Num filme americano, seria, nesta altura que Don Andrés diria: ‘Tudo isto é meu.’” Mas outra personagem deixa a observação: “Mas é um filme a preto e branco. A única coisa que posso dizer é que tudo isto desaparecerá em breve”.

A vida e a escrita de Berlin encaixam na segunda fala. Um filme a preto e banco com o sentido do trágico, onde não faltam momentos de uma imensa luz. Quase sempre diáfana, pontuada por música, um elemento persistente nas histórias da escritora que fez de Laura, a protagonista deste conto inaugural, uma espécie de alter-ego quando escreve isto: “Teria sido difícil dizer que Laura era americana. Filha de um engenheiro de minas, tinha a capacidade de adaptação comum a filhos de militares e diplomatas. Aprendiam rapidamente, não apenas a língua ou o jargão, mas também o que se faz, quem é preciso conhecer. O problema de tais crianças não é estarem isoladas ou sempre num sítio novo, mas o facto de se adaptarem tão pressa e tão bem.” Berlin viveu assim, cresceu dessa maneira, mas nada disso significou que o mundo se adaptasse à espécie de selvajaria que fazia parte da sua essência e nos deixou contos como estes.

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