Jota Quest: “No Brasil, quando se fala de paz, estamos sendo quase que um Dom Quixote”

Os brasileiros Jota Quest regressam para mostrar ao vivo um Acústico de luxo. Este sábado dia 17 em Lisboa, no Campo Pequeno, e domingo dia 18 no Coliseu do Porto.

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Jota Quest: PJ, Márcio Buzelin, Rogério Flausino, Marco Túlio Lara e Paulinho Fonseca MAURICIO NAHAS

Este é um daqueles casos em que o espectáculo chega antes do espectáculo: o Acústico da banda brasileira Jota Quest chegou às lojas em CD+DVD, pela Sony, antes dos concertos marcados para Lisboa e Porto, dia 17 no Campo Pequeno (22h) e 18 no Coliseu (21h30). E ele já antecipa, em vídeo, o que será visto em Portugal e que é quase uma superprodução: telas, luzes, imagens em movimento e umas 25 canções, tantas quantos os anos da banda.

Fundada em 1993, em Belo Horizonte, e com um primeiro disco em 1996, sob influência pop, rock, soul, disco e acid-jazz, a banda mantém-se até hoje em Belo Horizonte e com a mesma formação do início (depois de uma curta experiência, falhada, com outro vocalista): PJ (baixo), Paulinho Fonseca (bateria), Rogério Flausino (voz e violão), Marco Túlio Lara (guitarra e voz) e Márcio Buzelin (teclas). Poucos se podem gabar de tal estabilidade.

Uma viagem “para outros lugares”

Este não é o seu primeiro registo ao vivo, já somam cinco. Além de oito discos de estúdio. Mas é o seu primeiro acústico, e quiseram dar-lhe um enquadramento especial. “A gente tinha algumas ideias que remetiam para os acústicos da MTV, que são bem antigos”, diz ao PÚBLICO Rogério Flausino.

Por isso, convidaram Joana Mazzuchelli, autora de grandes produções musicais no Brasil, com quem já haviam trabalhado 15 anos antes, no seu MTV Ao Vivo, de 2003. E foi ela que lhes disse que deviam esquecer aquilo: “Os anos passaram, é uma banda moderna, então deveria ser uma viagem, tentar transportar as pessoas para outros lugares”. E sugeriu-lhe uma tela em 90 graus, onde pudessem projectar vídeos.

O resultado, com uma equipa de luxo, foi gravado em São Paulo, em Maio de 2017 e desde então os Jota Quest fizeram-se à estrada. “Já fizemos mais de 100 apresentações e o show já se conseguiu expandir além disso, está muito bacana.” O nome do grupo vem de um desenho animado dos anos 1960 chamado Jonny Quest, e inicialmente designavam-se apenas J.Quest. Foi uma frase de Tim Maia (1942-1998), cantor que gostava muito deles, que os fez mudar.

PJ recorda como foi: “A gente tocou com ele uma época, foi dos últimos shows dele, eu acho. Terminámos o nosso show e fomos para a frente do palco, para vê-lo. E o segurança, que não nos conhecia, queria tirar-nos de lá. E o Tim Maia disse: ‘Pô, deixa a galera do Jota Quest ver o show!’ Foi a primeira vez que ouvi alguém falar Jota Quest.”

“Além do amor, canções de paz”

A ideia de amor está muito presente nas canções do grupo, e no espectáculo, mas Rogério diz que não é apenas o amor romântico. “Existem canções de amor romântico, como Só hoje. Mas Amor maior, que trata de um amor que pode parecer romântico, de casal, fala de um amor que extrapola essa relação. Canções como Dias melhores, Um sol [gravada no DVD com Milton Nascimento] ou Fácil vão além do amor, são canções de paz.”

O método de composição, embora as canções sejam assinadas pelos membros do grupo, é colectivo. “Nós temos um estúdio em Belo Horizonte”, diz PJ, “e todo o mundo compõe. Na verdade, talvez esse seja o motivo pelo qual a banda está junta até hoje.” Isso e o facto de todos morarem, com as famílias, em Belo Horizonte. O estúdio é o seu lar comum. Por isso não se mudaram para o Rio ou para São Paulo, como fazem outras bandas. Rogério: “Quando a gente vai p’ra casa, a gente vai mesmo p’ra casa. A gente descansa, consegue levar uma vida mais calma e pacata. Não tem paparazzi, tem montanhas, é tranquilo.”

“Na expectativa de dias melhores”

A situação no Brasil, ante e pós eleições, implicou de algum modo no trabalho da banda? Rogério responde: “Nós somos uma banda popular brasileira, de pop rock. A crítica social está presente no nosso trabalho de uma forma delicada, poética. Quando se faz uma música como Dias melhores, ou Na moral, a crítica social está implícita. E quando se fala de paz, estamos sendo quase que um Dom Quixote. Tivemos uma eleição muito conturbada, muito polarizada, que atingiu níveis estranhíssimos e esperamos tenha abrandado. A gente não comprou essa briga, vivemos na expectativa de dias melhores. Acredito que a gente possa ter uma mudança. Mas somos uma nação que ainda está aprendendo a ser nação.”

No Brasil, os Jota Quest fazem 150 espectáculos por ano. Entre 2004 e 2007, tocaram muito em Portugal, incluindo no Rock In Rio. E agora, qual é a sua expectativa? “É uma retomada”, diz PJ. “A gente gosta tanto daqui que até era um sacrilégio não voltar.”