Opinião

Como evitar 80% da diabetes: um guia para governantes

Em Portugal, uma em cada dez pessoas vive com diabetes e uma em cada duas tem a doença mas desconhece que a tem.

Cidália, 43 anos, empresária, tem diabetes há cinco anos. Fernando, 58 anos, eletricista, tem diabetes há dez anos. Maria, 21 anos, trabalhadora-estudante, tem pré-diabetes mas ainda não sabe.

Em comum: trabalham das 9h às 18h, almoçam como sabem e o que o tempo permite e jantam, na maior parte dos dias, um refeição pré-feita, porque o tempo não possibilitou que comprassem os hortícolas para fazerem a sopa que necessitariam. Lanche e refeição a meio da manhã? O tempo não deixou. E desconhecem a sua importância. A caminhada que prometeram fazer? Hoje não deu, fica para depois.

Em Portugal, uma em cada dez pessoas vive com diabetes e uma em cada duas tem a doença mas desconhece que a tem. A diabetes evolui muitas vezes de forma silenciosa e só se descobre casualmente, quando se faz um exame de rotina ou, na pior das hipóteses, na decorrência de alguma complicação relacionada.

Os hábitos alimentares inadequados e a obesidade são os principais fatores para o desenvolvimento da diabetes, uma doença crónica que, não sendo revertida, resta ao indivíduo seguir à risca o tratamento para evitar ou atrasar as suas complicações.

A manutenção de níveis adequados de açúcar no sangue é fundamental para controlar a diabetes. Os antidiabéticos orais, a insulina e a prática de exercício físico são parte da receita e a alimentação é o ingrediente-chave deste tratamento.

A Cidália, o Fernando e a Maria precisam de um acompanhamento adequado, de um plano alimentar personalizado. Mas a verdade é que uma grande parte da população portuguesa com diabetes não consegue ter acesso a uma consulta de nutrição.

Sabemos que os cuidados de saúde primários, ou seja, os centros de saúde têm um papel essencial na educação e no ensino para a autovigilância dos doentes com diabetes. E sabemos também que a diabetes é uma doença em que a alimentação desempenha um papel primordial, sendo, por isso, de destacar a importância dos nutricionistas no acompanhamento destes doentes.

Apesar disso, nos centros de saúde de todo o país só existem pouco mais de 100 nutricionistas. Ora, se mais de um milhão de portugueses tem diabetes, isto significa que cada nutricionista teria de seguir dez mil doentes com diabetes. Uma missão declaradamente impossível.

Portugal é hoje um dos países europeus com maior prevalência desta doença, onde morrem 12 pessoas por dia com este diagnóstico. A juntar a estes dados, devem destacar-se os custos crescentes com o tratamento desta doença, que representa já cerca de 10% da despesa do Serviço Nacional de Saúde e 1% do PIB. Para além dos custos diretos com os cuidados de saúde, é necessário salientar também os custos indiretos que esta doença tem na vida dos doentes e das suas famílias.

E tudo isto quando 80% da diabetes poderia ser evitável, se a população tivesse hábitos alimentares adequados.

No entanto, os nossos governantes continuam a apostar mais no tratamento do que na prevenção e em medidas que evitariam doenças como a diabetes, a hipertensão, a obesidade, entre tantas outras.

A Cidália, o Fernando e a Maria de hoje são as Joanas, os Nunos e os Filipes de amanhã, por isso, urge reforçar a prevenção junto de todos os portugueses, fazendo com que o acesso a consultas de nutrição seja universal. Só assim vamos conseguir reduzir a prevalência da diabetes em Portugal.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico