Uma perda de tempo

Um romance, ainda que seja um romance histórico, é um romance, é um romance, é um romance. O problema são, por assim dizer, os atavios que, no caso de José Rodrigues dos Santos , são escassos e pobres.

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Eis o segredo da legibilidade imediata da prosa de Rodrigues dos Santos: vemos e ouvimos a acção, por assim dizer, mas não reparamos no texto dro daniel rocha

Finalmente — após quase uma vintena de livros de ficção publicados pelo autor e não sei quantos milhões de exemplares vendidos em Portugal e no mundo —, convenceram-me a ler um romance de José Rodrigues dos Santos de fio a pavio. A expressão, que o meu ortodoxo corrector de texto automático considera, aliás, duvidosa, talvez não seja, de facto, a mais adequada, mas por outras razões: A Amante do Governador tem fio bastante, o seu autor sendo alguém que, reconhecidamente, sabe contar uma história e aparenta gostar de fazê-lo; já o pavio é literariamente curto e não se mostra capaz de fazer justiça à mais modesta e mais apressada das musas.

Li mais de 700 páginas. Sem saltar uma única. Perdoem-me o auto-elogio: é obra. Não só porque contrária aos costumes do mercado, mas também porque a leitura do romance em apreciação não sairia prejudicada (antes pelo contrário) com menos rigorosa e menos honesta abordagem. Li A Amante do Governador de cabo a rabo por três motivos: respeito pelo autor, respeito pelos meus leitores e respeito por mim próprio. Respeito, não respeitinho. E lido, desde o princípio até ao fim, o mais recente romance de José Rodrigues dos Santos, não saí desiludido: o autor conseguiu fundir numa única obra, e com indesmentível e insuperável eficácia, as melhores qualidades de uma historieta de aventuras do Major Alvega e as de uma novela cor-de-rosa de Corín Tellado (que só agora li para poder comparar). Com uma única desvantagem: a ausência das vinhetas da banda desenhada.

Decorrendo em Macau durante a Segunda Guerra Mundial, o romance conta a história de um heróico governador que — acolitado por um expedito subordinado, um conhecedor da “psicologia oriental” que encontra no vinho do Porto com o qual embebeda os interlocutores a sua grande arma político-diplomática… — conseguiu, sob a capa da neutralidade oficial portuguesa no conflito, manter a salvo das pretensões japonesas a integridade daquele território chinês então administrado por Portugal. Tal como outras no livro (o cônsul japonês e o inglês, e um juvenil “Stan Li Ho”, por exemplo), estas são personagens que radicam em figuras históricas concretas, cujos pensamentos, palavras e obras o escritor encena aqui com a liberdade e os atavios que cumprem ao romancista. Quanto à liberdade romanesca, nada a dizer, portanto. Um romance, ainda que seja um romance histórico, ou didáctico, ou documental, o que seja, é um romance, é um romance, é um romance. O problema são, por assim dizer, os atavios que, no caso vertente, são escassos e pobres.

Guiada pelos grandes jogos político-militares da História, a acção de A Amante do Governador abunda em imaginadas peripécias miúdas e anedóticas, nomeadamente aquelas de natureza erótico-sentimental, como não poderia deixar de ser em obra de entretenimento popular. Além da amante do título, sobressaem duas outras personagens femininas, uma delas sendo decisiva num episódio ilustrativo do erotismo que é, creio saber, uma das qualidades notórias da obra ficcional de José Rodrigues dos Santos. Jorge Lobo, o já referido braço direito do governador, um solteirão maduro, está no cinema com uma donzela (18 ou 19 anos, se bem me lembro) portuguesa e casadoira fugida de Hong Kong (tomada pelos japoneses). Foram ver o filme Dumbo. Eis o que acontece: “Ela parecia compenetrada no filme, mas no momento em que Lobo chegou a cara aos seus cabelos negros e lisos a rapariga virou-se de repente e recebeu-o com os lábios. Foi um beijo súbito, longo, e quente e sensual. E revelador. Revelou que nessa altura ela estava tudo menos interessada nas aventuras de Dumbo. E mais Carminho revelou quando, depois do primeiro beijo, deslizou a mão marota pela perna dele, lhe abriu a braguilha e introduziu os dedos pela abertura, apalpando a sua força e rigidez de homem enquanto, num bafo de fêmea em cio, exalou um longo suspiro de desejo.” (p. 404) Será necessário acrescentar que, depois disto, saíram do cinema “a ferver de lascívia e cegos pela volúpia”? O amor do governador e da sua amante não é menos “ensopado de paixão e volúpia”.

Já esta obra de Rodrigues dos Santos é ensopada de lugares-comuns, estereótipos, clichés, trivialidades. Tanto quanto ao tipo das peripécias narradas, como à sua focalização e, sobretudo, quanto à linguagem utilizada. É esse, aliás, o segredo da legibilidade imediata desta prosa. É como se o texto não existisse na página, como se a narração do romance o dispensasse. Vemos e ouvimos a acção, por assim dizer, mas não reparamos no texto. Por exemplo, e tal como em uma série de animação de baixo orçamento e nenhuma ambição artística, as personagens agem segundo um código quase caricatural: “arregalam” os olhos para mostrar espanto e surpresa; “estreitam” os olhos, ou as pálpebras, quando querem concentrar-se num assunto ou objecto; “esfregam” ou coçam o queixo, quando meditativas e indecisas. Fazem tudo isto (e muito mais) com uma frequência mecânica e tópica entediante, seguindo um aparente princípio de máxima economia de recursos possível. Uma perda de tempo.