Israel recusa cessar-fogo para pôr fim aos piores conflitos desde a guerra de 2014 em Gaza

Uma operação das forças israelitas na Faixa de Gaza, no domingo, provocou uma intensa troca de fogo entre o Hamas e Israel. Grupos armados palestinianos aceitam trégua, mas Governo de Netanyahu não parece convencido.

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Um palestiniano deficiente é ajudado a atirar pedras para Israel junto à fronteira Mohammed Salem/REUTERS
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Israelitas manifestam-se contra a possibilidade de um cessar-fogo com o Hamas Amir Cohen/REUTERS
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Veículos militares israelitas junto à fronteira Amir Cohen/REUTERS

Os grupos armados na Faixa de Gaza comprometeram-se esta terça-feira a pôr fim ao lançamento de rockets se o Governo de Benjamin Netanyahu travar os bombardeamentos no enclave. Mas depois de dois dias como não se viam desde 2014, com os palestinianos a lançarem mais de 400 rockets através da fronteira e os israelitas a bombardearem 100 alvos no território sob bloqueio, os esforços dos mediadores egípcios e da ONU podem não chegar.

Pelo menos quatro ministros de Netanyahu opõem-se ao fim dos ataques e dezenas de residentes do Sul de Israel reuniram-se ao início da noite em protesto contra notícias que davam conta da aceitação da trégua. Os manifestantes queimaram pneus e bloquearam a estrada que dá acesso à cidade de Sderot.

Ministros da ala mais radical do executivo, como Avigdor Lieberman, da Defesa, anunciaram a sua oposição ao acordo. Segundo a televisão israelita Channel 10, para além de Lieberman, estão ainda contra a ministro da Justiça, Ayelet Shaked, e os ministros da Educação, Naftali Bennett, e Protecção Ambiental, Ze’ev Elkin.

Oficialmente, o Governo de Israel não aceitou a trégua negociada pela comitiva egípcia. Um responsável não identificado citado pela imprensa israelita afirmou apenas que as acções de Israel serão determinadas pelos “passos dados no terreno”. E sabe-se que as sete horas de reunião do chamado gabinete de segurança não foram suficientes para decidir os próximos passos.

Questionado pela YNet Intrenet TV sobre se o Governo estava a caminhar para um cessar-fogo, Yuval Steinitz, ministro da Energia e membro do gabinete de segurança, deu uma resposta bastante bélica: “Diria que uma definição mais rigorosa é que o Exército israelita impôs um golpe sem precedentes ao Hamas e aos grupos terroristas em Gaza, e veremos se foi suficiente ou se serão necessários novos golpes”.

Em Nova Iorque, o Kuwait e a Bolívia pediram uma reunião à porta fechada do Conselho de Segurança para discutir o aumento da violência em Gaza. Mas o embaixador de Israel nas Nações Unidas, Danny Danon, avisou que o seu país “não vai aceitar um apelo para que os dois lados” exerçam contenção. “Há um lado que ataca e dispara 400 mísseis contra populações civis, e outro lado que protege os seus cidadãos”, justificou.

Tudo começou com uma operação das forças israelitas contra a Faixa de Gaza, interceptada pelo Hamas, no domingo. No caos que seguiu morreram sete combatentes do grupo palestiniano, incluindo um comandante, e um coronel israelita. Depois veio a maior troca de fogo desde a guerra de 2014. Segundo Israel, mais de 400 rockets foram disparados de Gaza desde segunda-feira à tarde (nunca tantos terão sido lançados em tão pouco tempo) e os aviões israelitas realizaram mais de 100 bombardeamentos.

Em Israel morreu uma pessoa de 40 anos – um palestiniano da Cisjordânia que trabalhava na cidade israelita de Ashkelon – e o Governo contabiliza 108 feridos. A cada vaga de ataques, a Força Aérea respondeu com intensos bombardeamentos, que atingiram centenas de posições do Hamas e alguns edifícios residenciais. De acordo com médicos em Gaza, cinco pessoas morreram, incluindo dois combatentes.

“Marchas da vitória”

Na fronteira entre Gaza e o Sul de Israel, bloqueada pelos israelitas, vive-se desde Março em conflito. Os palestinianos protestam junto à fronteira todas as semanas para pedir o fim do bloqueio e o direito de regresso aos territórios perdidos em 1948. As forças israelitas mataram mais de 220 palestinianos, que muitas vezes lançam pedras contra os soldados e conseguiram atravessar a fronteira em várias ocasiões.

Mas as 24h entre segunda-feira e terça à tarde foram as piores para os habitantes dos dois lados desde 2014, quando Israel e o Hamas travaram uma guerra de 51 dias que matou mais de 2200 palestinos e deixou 74 mortos entre os israelitas, a maioria militares.

A chegada da delegação do Egipto e da ONU já estava prevista e visava pôr fim à tensão dos últimos oito meses na fronteira. Terão sido estes mediadores a acalmar os ânimos já que, logo após a sua chegada, o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, anunciou estar na disposição de suspender o lançamento de rockets se a Força Aérea israelita terminasse também com os bombardeamentos.

Apesar da aparente recusa israelita em aceitar o cessar-fogo, em Gaza, nas primeiras horas da noite houve “marchas da vitória” incentivadas pelo Hamas, que consideram a mediação internacional depois da escalada de violência “uma vitória militar”. “Os nossos rockets golpearam Israel e enviaram uma mensagem clara: bomba por bomba, sangue por sangue”, congratulou-se o responsável do grupo, Ismail Radwan. “Se atacam Gaza e o nosso povo, os rockets do Hamas vão encontrar-vos em qualquer lado, Haifa, Jaffa, Ashkelon e Ashdod.”