Há 700 mil portugueses que sofrem de enxaquecas graves

A estimativa é avançada pela Sociedade Portuguesa de Cefaleias a propósito de um congresso que acontece esta semana onde vai ser apresentado um estudo internacional em que Portugal participou.

Foto
Miguel Feraso Cabral

Em Portugal cerca de dois milhões de pessoas sofrerão de enxaquecas e, entre estes, há um grupo a quem a esta doença neurológica afecta de forma mais severa, quer pela intensidade das dores de cabeça quer pela frequência. A Sociedade Portuguesa de Cefaleias estima que sejam cerca de 700 mil as pessoas a sofrer de enxaquecas graves, ou seja, com mais de quatro crises por mês. Esta semana vão ser apresentados os resultados de um estudo mundial que avaliou a carga da enxaqueca do ponto de vista do doente e que mostra que metade dos pacientes portugueses faltou em média 3,8 dias ao trabalho por causa das fortes dores de cabeça.

As estimativas da Sociedade Portuguesa de Cefaleias sobre o número de doentes a sofrer de enxaquecas no país têm por base uma tese de doutoramento apresentada em 1995 e que “é o único estudo em Portugal” sobre esta doença, explica Miguel Rodrigues, membro da comissão científica da Sociedade Portuguesa de Cefaleias. Apesar de os dados terem mais de 20 anos, o médico neurologista considera que “não sendo esta uma doença epidémica, não se espera que mude muito”, pelo que as percentagens manter-se-ão semelhantes.

A enxaqueca é uma doença neurológica crónica. Caracteriza-se por dores de cabeça intensas, que surgem acompanhadas de outros sintomas como “algum grau de intolerância à luz, aos barulhos, náuseas, eventualmente vómitos, incapacidade para fazer actividade física e incapacidade profissional e pessoal”, explica Miguel Rodrigues. É mais frequente nas mulheres do que nos homens, sendo que a questão hormonal é uma das justificações. As primeiras crises podem surgir na infância e na adolescência e há quem aos 80 anos ainda sofra com a doença.

“Todos nós poderíamos ter uma enxaqueca. Mas seja pela parte genética seja por factores do próprio ambiente, algumas pessoas, sem nenhum motivo desencadeante, têm regulamente este tipo de dor de cabeça. A causa é multifactorial e infelizmente não conseguimos prever quem vai ter enxaquecas, excepto por algumas coisas como ter história familiar”, refere o especialista.

No Congresso de Neurologia, que se realiza entre os dias 15 e 17 no Porto, vão ser apresentados os resultados portugueses do estudo mundial My Migraine Voice, que avaliou a carga da enxaqueca do ponto de vista do doente. Promovido pela European Migraine e Headache Alliance (EMHA), organismo que junta várias associações de doentes, e financiado pelo laboratório farmacêutico Novartis, o estudo inclui dados de mais de 11 mil doentes (com 18 ou mais anos) com pelo menos quatro dias com enxaqueca por mês, nos três meses anteriores à realização do inquérito.

O trabalho foi conduzido pela empresa de estudos de mercado GfK Health Switzerland. O desenho do estudo pré-determinou que 90% dos inquiridos tivessem feito pelo menos um tratamento preventivo e destes, 80% tivessem já mudado de tratamento uma ou mais vezes. Os dados foram recolhidos em 31 países, entre Setembro de 2017 e Fevereiro de 2018.

Impacto social e profissional

No caso português, a amostra é de 143 doentes, seleccionados através de um painel online (base de dados da consultora a quem foi enviado o inquérito e que levou à selecção das pessoas que preenchiam os requisitos para participar no estudo). De acordo com os resultados, 80% dos inquiridos disse que a enxaqueca tinha impacto na vida profissional e metade dos que estão empregados faltou ao trabalho em média 3,8 dias no último mês.

Quase todos os participantes (95%) relataram dificuldades em dormir, assim como a necessidade, durante uma crise, de terem períodos prolongados no escuro ou isolados. Mais de metade dos inquiridos (54%) disse sentir incompreensão por parte dos outros e 79% assumiram sentir-se limitados para cumprir tarefas diárias durante uma enxaqueca. Apesar da amostra não ser representativa da população, os responsáveis pela condução do estudo em Portugal concluem que as enxaquecas têm um forte impacto na vida emocional, social e ocupacional dos doentes.

“É importante para nós vermos estes resultados porque dá força ao que os nossos doentes relatam. Dizem-nos ‘isto não é vida’, ‘eu não aguento, não consigo funcionar’, são os filhos que dizem à mãe ou ao pai ‘já está outra vez com dor de cabeça?’. Isso causa sofrimento interno ao doente que não está capaz de executar as suas funções e de estar dentro da família como gostaria”, diz Miguel Rodrigues.

Também salienta que “um dos grandes problemas das pessoas com enxaqueca é sentirem que não são compreendidas” por quem não sofre da doença. “A Organização Mundial de Saúde diz que estar um dia com enxaqueca sem tratamento é tão incapacitante como, por exemplo, estar numa cadeira de rodas por um dia”, afirma, chamando a atenção para a necessidade das pessoas recorrerem ao médico.

Estilo de vida é importante

“A maior parte dos doentes chega já com muitos anos de incapacidade e quando os medicamentos funcionam, os doentes conseguem melhorar a sua qualidade vida pessoal e profissional.” Segundo o estudo mundial, 43% dos doentes portugueses são afectados por enxaquecas há mais de dez anos. Por norma os doentes são seguidos pelos médicos de família e os casos graves são encaminhados para neurologistas.

Existem vários medicamentos preventivos. Os tradicionais são comprimidos usados para outras doenças mas que conseguem diminuir as crises de enxaquecas. “São medicamentos que foram inventados para a epilepsia, doenças cardiovasculares, depressão. Quando não funcionam ou têm efeitos secundários, temos outras opções como injectáveis”, explica o médico.

“A parte da modificação do estilo de vida é muito importante” no controlo da doença, destaca ainda Miguel Rodrigues, dando alguns exemplos: “Não deve ter grandes diferenças de sono, tem de ter atenção ao consumo de cafeina porque se beber muitos cafés no dia em que não bebe café vai ter provavelmente uma enxaqueca, deve fazer exercício físico e ter uma dieta equilibrada”.