Responsável pelo escândalo sexual na Academia Sueca recorre de pena por violação

Condenado a dois anos de prisão, Jean-Claude Arnault, o homem que está na origem da crise que levou à suspensão do Nobel da Literatura, tem até quarta-feira para convencer o tribunal de que está inocente.

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LUSA/JONAS EKSTROMER

Começou esta segunda-feira, num tribunal de recurso de Estocolmo, o julgamento por violação contra o francês Jean-Claude Arnault, de 72 anos, protagonista de um escândalo de abusos sexuais, fugas de informação e irregularidades financeiras que provocou uma crise sem precedentes na Academia Sueca, com sucessivas demissões e o cancelamento do prémio Nobel da Literatura de 2018. 

Casado com a poetisa sueca Katarina Frostenson, membro da Academia Sueca, Arnault foi condenado no mês passado a dois anos de prisão efectiva e ao pagamento de uma indemnização de 115 mil coroas suecas (mais de 11 mil euros) após o tribunal ter dado como provado que violou uma mulher – sabe-se apenas que se trata de uma escritora e académica – no dia 5 de Outubro de 2011, num apartamento de Estocolmo. 

O tribunal deu credibilidade aos testemunhos da queixosa e de sete testemunhas, incluindo um psiquiatra que a tratou, num caso em que não existiam provas físicas. Sete outras mulheres acusaram formalmente Arnault, mas os processos acabaram por não chegar a julgamento, quer por falta de provas, quer por terem sido ultrapassados prazos legais.

A sentença corresponde à pena mínima a que o réu poderia ser condenado, contra os três anos pedidos pela acusação e os seis fixados como pena máxima para este tipo de crime. No novo julgamento, que durará até à próxima quarta-feira, a defesa apresentará novas provas e chamará a depor outras testemunhas, incluindo a mulher de Arnault. Em prisão preventiva desde Setembro, este continua a declarar-se inocente de todas as acusações e pediu ao tribunal que o absolvesse. 

O caso teve origem nas denúncias de abuso sexual feitas há um ano no principal diário sueco por 18 mulheres contra uma "personalidade cultural" muito próxima da Academia Sueca, imediatamente identificada como Jean-Claude Arnault. Segundo a notícia do Dagens Nyheter, Arnault teria cometido parte dos abusos no clube literário que dirigia e que era financeiramente apoiado pela academia, uma situação irregular, já que a sua mulher era simultaneamente membro da instituição e co-proprietária do clube que esta apoiava. 

As acusações contra Arnault, que se estendem ainda a alegadas fugas de informação – teria revelado antecipadamente os nomes de vários vencedores do Nobel da Literatura, incluindo Harold Pinter, em 2005, e Bob Dylan, em 2016 –, abriram na Academia Sueca uma crise sem precedentes, com discussões internas sobre o modo como a instituição devia lidar com o escândalo. Vários académicos já renunciaram ao lugar, Sara Danius, a primeira mulher a assumir o cargo de secretário permanente, foi obrigada a afastar-se, tendo sido substituída por Anders Olssen, e a escolha do prémio Nobel da Literatura de 2018 foi adiada, prevendo-se que possam ser atribuídos dois prémios em 2019