Opinião

The Guns of August

1. A correspondente da BBC na Casa Branca dava na sexta-feira a sua própria versão do que aconteceu durante a conferência de imprensa de Donald Trump dois dias depois das eleições intercalares, escolhendo um título que chamava a atenção: “A questão Acosta: uma opinião impopular.” “Quando olhamos para os clips que passaram incessantemente ao longo do dia, e as respostas nas redes sociais, Jim Acosta emerge como o herói do momento. O homem que enfrentou Trump. O combatente pela nossa liberdade de imprensa. Não o conheço, parece uma pessoa decente, mas sinto que é necessário o contexto.” “Ele foi chamado por Trump para fazer a pergunta que quisesse. E quando acabou a primeira, fez outra (...), foi apenas quando tentou a terceira — ou talvez a quarta, dependendo da forma como definirmos os follow-ups — que o Presidente se irritou e lhe disse para se sentar.” Seguiu-se a luta pelo microfone e “as palavras ridículas do Presidente acusando-o de ser uma pessoa rude e terrível”. “Podemos argumentar que o Presidente procura estas situações (...). Mas não nos enganemos. Os media também sabem que se saem bem quando estão a desafiar o urso. Por isso, é conveniente dar um passo atrás.” “Quando o incidente acabou, ele continuou a aceitar perguntas de jornalistas do mundo inteiro — num total de 90 minutos.” De cada vez que chego aos EUA e ligo a CNN, não é preciso muito tempo para a desligar. Só há um tema: Trump. O que disse, o que fez, o que não fez, as consequências do que fez. Cada apresentador-estrela dos sucessivos programas de informação e debate ao longo do dia parece ter como único objectivo ser mais incisivo em relação ao Presidente do que aquele que o precedeu. Sucedem-se os debates com comentadores de várias opiniões, é certo, mas não assim tão várias, a discutir até à exaustão a mesma coisa. Com demasiado ruído e muita monotonia. Algumas horas depois, continuamos sem a mínima ideia do que se está a passar no mundo, que não tenha uma relação directa com a América (de Trump) e sempre nessa perspectiva. É entediante e é, sobretudo, pouco saudável para uma opinião pública que, já de si, tem pouco interesse pelo que se passa fora das fronteiras dos Estados Unidos e para um país dividido ao meio, com cada lado numa guerra de trincheiras contra o outro. Não se pode dizer que os grandes jornais de referência sofram do mesmo mal. Ainda se encontram nas suas páginas alguns dos melhores artigos e análises sobre acontecimentos que, envolvendo ou não a América, marcam a agenda internacional. Trump fez da imprensa livre um dos seus alvos predilectos, revelando até que ponto os seus instintos autoritários são perigosos, mesmo numa democracia com a solidez da americana. Os jornalistas têm um combate a travar para romper as barreiras de acesso à informação. Mas menos obsessão informativa com o Presidente e, sobretudo, mais resistência à tentação de se verem como heróis seria muito bem-vinda. Na América, ninguém corre risco de vida para obter uma boa informação ou desafiar o Presidente com uma série de perguntas incómodas.

2. Já quase tudo foi dito sobre as eleições intercalares americanas. A democracia funcionou. A Câmara mudou de mãos, abrindo espaço para travar parte da agenda de política interna do Presidente. Nunca como hoje houve tantas mulheres eleitas para a Câmara de tantas origens sociais, políticas ou étnicas. Mesmo que o cômputo final seja uma América ainda mais polarizada, o que não são boas notícias para o futuro, o ar tornou-se mais respirável. Igualmente importante, o resultado das eleições foi uma mensagem para aqueles que, no mundo inteiro, resistem à ascensão dos novos “homens-fortes” inspirados por Trump: nada está perdido. Os dados estão lançados para a corrida presidencial de 2020. Trump não perdeu essa guerra, muito longe disso. Primeiro, porque obteve apenas uma semiderrota e a polarização é justamente o que melhor o serve; segundo, porque é bom lembrar que Clinton ou Obama perderam (ainda mais) as intercalares do seu primeiro mandato, o que não os impediu de ganhar o segundo. Mas há um outro lado desta vitória democrata na Câmara que é, porventura, mais importante do que a entrada em força das minorias e dos candidatos situados mais à esquerda, sobre os quais há, aliás, uma coisa que sabemos à partida: não são eles que podem vencer as presidenciais de 2020. Sem atrair o centro onde se situa uma larga fatia de independentes, nenhum candidato democrata conseguirá ser eleito apenas pela soma das minorias que, além disso, não votam todas da mesma maneira. O voto das mulheres brancas educadas (com diplomas universitários) nos democratas subiu quase 10% desde 2016 (de 51% para 60%). Muitas delas vivem nos subúrbios das grandes e médias cidades, terreno tradicionalmente favorável aos republicanos, não foram particularmente afectadas pela crise nem mudaram o seu modo de vida. Pura e simplesmente, rejeitam os lados mais ofensivos e extremistas da mensagem de Trump, incluindo o desprezo pelas mulheres. A onda mudou, incluindo entre as soccer moms dos subúrbios mais favorecidos. Alguns dos candidatos republicanos mais radicais deixaram escapar os subúrbios da classe média maioritariamente branca das grandes cidades. Mantiveram um apoio inabalável nas zonas rurais e no amplo espaço que vai da Costa Leste à Costa Oeste. Mas, em geral, há alguns bons sinais que podem dar aos democratas um ponto de partida para a corrida de 2020, desde que não se enganem de direcção. E podem obviamente enganar-se, ainda mais num país política e culturalmente polarizado como não há memória na sua história recente. Obama e Clinton venceram dois mandatos por olharam para o centro, conquistarem o centro, governarem ao centro. O primeiro teste vai ser o comportamento dos democratas no Congresso. É fácil cair na tentação da oposição cega, respondendo com as mesmas armas ao comportamento dos republicanos. Mas basta, talvez, lembrar a célebre frase de Mitch McConell, o líder republicano do Senado, durante o primeiro mandato de Obama. “Temos um único objectivo no Congresso: fazer de Obama um Presidente de um só mandato.” O compromisso e o bipartidarismo morreram. Se a agenda democrata não se limitar a ser “contra” e procurar resolver alguns problemas sérios da generalidade dos americanos através de propostas de compromisso, mesmo que a resposta do outro lado seja cega, cultivará o único terreno que lhe pode dar a vitória em 2020. É a única maneira de não oferecer a Trump de mão beijada o argumento que ele mais deseja para se manter na Casa Branca: os democratas impediram-no de tornar a América “Great Again”. Como escrevia ontem no New York Times David Brooks, a classe trabalhadora branca continua a sofrer a “carnificina” dos efeitos da globalização, a América ainda é um país onde “apenas 37% dos adultos esperam que os seus filhos vivam melhor do que eles”, e onde “milhões de novos empregos são criados através de ‘contratos alternativos’, o que significa sem salário fixo, sem horário fixo, sem segurança”. Enquanto os democratas não conseguirem chegar a este eleitorado, dificilmente vencerão as eleições.

3. Ontem, as imagens de Theresa May e Emmanuel Macron percorrendo um dos cemitérios do Somme com os soldados britânicos que defenderam a França valem mais para a sobrevivência da integração europeia do que uma mão-cheia de discursos. Tornam também o “Brexit” ainda mais absurdo. Mas estas comemorações não serão iguais às anteriores por uma simples razão. Pela primeira vez, o Presidente americano não estará no centro dos acontecimentos. Trump assistirá à cerimónia diante da chama eterna do Arco do Triunfo e não perderá por nada a parada militar, mas não participará (por vontade própria) no Fórum Global da Paz, que Macron organizou, com a presença de um número raro de líderes mundiais, para reflectir sobre a guerra. Haverá apenas três oradores: Macron, Merkel e Guterres. Trump cortou-se a si próprio da fotografia quando rejeitou a obra-prima política que os Estados Unidos ajudaram a criar depois da II Guerra. É difícil defender a democracia e os valores ocidentais sem a liderança americana. O nacionalismo ganha de novo terreno na Europa. Bill Clinton costumava dizer que mantinha ao alcance da mão um livro de uma quase desconhecida historiadora americana, Barbara W. Tuchman, descrevendo o que aconteceu desde a decisão de declarar a guerra à Alemanha até ao início da ofensiva franco-britânica que travou o avanço alemão sobre a França. The Guns of August ganhou o Prémio Pulitzer de 1963. Descreve como se pode caminhar para a guerra quase sem se dar por isso.