Editorial

Um refugiado não é um criminoso

O objectivo não é outro que não o de deportar milhares de refugiados como meio de dissuasão para que mais não repitam a viagem

A caravana de migrantes hondurenhos que se desloca a caminho da fronteira dos EUA com o México vai ser recebida por um exército que ameaçou reagir (independentemente do género ou da idade de quem for interceptado) como se estivesse, de facto, perante um inimigo. Contrariamente ao que a administração Trump tem propalado, a caravana não é composta por terroristas, não é financiada pelos Democratas e acontece que aqueles milhares de pessoas impedidas de seguir em frente também não poderão regressar ao país de onde fogem. E esse país de onde fogem é o mesmo onde os Estados Unidos, na sua tradicional vontade de ingerência na América Central, desempenharam um papel crucial na deposição do Presidente eleito, Manuel Zelaya, em 2009, como há dias alertou a Associação Americana de Antropólogos. As Honduras estão hoje entregues a gangues e grupos organizados que se digladiam entre si.

Quem foge de um país assim é porque procura protecção e uma vida melhor, como em muitas outras circunstâncias ao longo da história, que moldaram a própria história do EUA, feita de caravanas e de migrações. Esta não é a primeira caravana do género e o seu número nem sequer tem vindo a aumentar. Elas sempre existiram e são uma das razões pelas quais Trump tanto deseja um muro fronteiriço com o vizinho México. O que Trump faz desta caravana é mais um pretexto para a exaltação do outro enquanto inimigo. Um inimigo que tem de ser detido antes de entrar em casa, quer enviando soldados, quer tentando negar o direito de asilo a quem entrar no país sem documentos, como a promulgação da última sexta-feira, que nem tem força de lei nem respeita a própria legislação nacional sobre o direito de asilo. O que Trump faz ao chamar criminosos às pessoas deste grupo de migrantes, reunidas para não pagar a contrabandistas, é incentivar um ódio larvar que se reflecte em actos como o do ataque à sinagoga de Pittsburgh no mês anterior. Por que é que ninguém lhes chama refugiados?

O objectivo não é outro que não o de deportar milhares de refugiados como meio de dissuasão para que mais não repitam a viagem. Mas o mais provável que aconteça, com a anunciada redução da ajuda externa dos EUA aos países da América Central, é que cidadãos da Guatemala, Honduras e El Salvador, com os níveis mais elevados de violência fora das zonas de guerra, tenham ainda mais motivos para imigrar.

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