No Café Correia dá-se à refeição o tempo que ela merece

Há quase 50 anos que o Café Correia, na Vila do Bispo, é a casa de José e Lilita. Ele ao fogão, ela nas mesas. Comida simples, de tacho, chega à mesa quando estiver no ponto, nem um minuto antes ou depois. Quem vier com tempo para dar à refeição o tempo que ela merece, dificilmente sai sem ficar da família.

Se há ditado que por aqui se leva à letra é aquele que versa assim: a pressa é inimiga da perfeição. Por isso, quando, pouco depois das 13h, chegam os primeiros clientes novos, Maria Elisa trata de pôr tudo em pratos limpos. “Não sei se já cá veio, mas aqui tem de saber esperar, que o patrão já está velho.” Ainda à beira da porta, o casal não se deixa ficar. “Já me tinham dito que a senhora tinha mau feitio”, riem-se. Pratos do dia? “É tudo do dia, não tenho nada da noite”, atira Lilita, como é conhecida, para depois suavizar. “Não há um prato só específico do dia. Nunca fui habituada a isso e mantenho a minha tradição.” Gargalhada para cá, galhardete para lá, estão feitas as apresentações.

Se são os petiscos de José Baptista que trazem gente de todo o lado ao pequeno restaurante na Vila do Bispo, o jeito particular de Lilita receber entra em pé de igualdade na fama do Café Correia. Mas não se deixe levar pelo primeiro impacto. Faz parte do charme da casa e cedo se desmancha em brincadeiras, anedotas e conversa fiada. Só tem de obedecer às regras: não faça fila à porta (abre às 13h e às 19h e não vale a pena querer entrar antes), espere que lhe indiquem uma mesa à entrada, não pergunte por pratos do dia, minidoses, batatas fritas ou grelhados, não venha em grupos maiores do que oito nem peça que adiantem pratos ou acelerem processos. A comida chega à mesa quando estiver no ponto. Nem um minuto antes nem outro depois.

Não é por mal, defeito ou sequer feitio. “É uma questão de servir bem.” Um princípio de que José Baptista e Maria Elisa não abdicam, venha quem vier ao Café Correia. “Demorou um bocadinho mas está bom? É isso que me interessa”, defende o cozinheiro. Talvez seja esse o segredo para tantas fotografias, artigos e elogios emoldurados nas paredes da sala. José gosta de “fazer as coisas com amor”, de “pôr as coisas certas” na “conta certa” e de cozinhar quase tudo no momento do pedido para que cada prato chegue à mesa acabado de fazer, ainda no pequeno tacho no qual foi ao lume. “É como um bebé. Leva nove meses para nascer e a gente não pode apressá-lo”, compara José, enquanto põe um polvo gordo numa panela com água a ferver, uma rolha de cortiça e um limão. “A rolha é para ajudar a cozer mais rápido e o limão é para a panela não ficar preta.” Simples, assim.

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"É como um bebé. Leva nove meses para nascer e a gente não pode apressá-lo”, compara José Baptista FILIPE FARINHA / STILLS

As lulas também já estão ao lume, recheadas apenas com as partes exteriores do molusco e um bocadinho de arroz, para que o sabor das lulas não se perca no excesso de condimentos. Apenas o molho leva os aromas típicos de um refogado. “E tem uma particularidade: não é preciso palito”, mostra José. Sobre o balcão já se começa a preparar o resto da ementa: de um lado, frango em tomate, do outro, coelho à Correia, uma receita que José criou para um concurso culinário da cerveja Sagres – e ganhou – em 1972. Só quando começam a chegar os primeiros clientes se descascam os camarões para o guisado. E as massas e os arrozes são feitos na hora, consoante os pedidos. Apenas os famosos perceves falham no prato: a apanha está em período de defeso até meados de Dezembro.

As receitas foram quase todas criadas por José Baptista ao longo dos últimos 49 anos. Gosta de se deixar ficar sozinho na cozinha, a fazer experiências. “Às vezes, ficam tachos com restos de comida e eu vou provar no final, para ver o que faz falta e para a próxima corrigir.” Tem orgulho nos prémios, nos cursos, na satisfação dos clientes. Mas quando lhe perguntamos pelo maior elogio que lhe fizeram, José larga os tachos para ir ao fundo da memória. Traz a caderneta militar: “Louvado pelo comandante pela dedicação, zelo e boa vontade com que tem desempenhado os vários serviços de que tem sido encarregado, nunca se poupando a esforços para os levar a bom termo. Soldado excepcionalmente educado, pode ser apontado como um exemplo a seguir por todos os seus camaradas”.

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É da horta que José traz o piri-piri, a salsa e uns pequenos medronhos FILIPE FARINHA / STILLS

Na altura, José “era um jovem” - 20 anos na fotografia - e “não esperava” aquelas palavras desenhadas na caderneta de um soldado que nunca pôde ser promovido por ter apenas a terceira classe. “É um elogio muito grande.” Apesar de nunca ter trabalhado oficialmente na cozinha, foi durante o serviço militar que o dedo para os tachos começou a fazer-se notado. “Fiz lá um petisco para os oficiais, eles gostaram e mandaram-me para a messe”, recorda. Aos 13 anos, para fugir ao trabalho no campo, foi pedir emprego num café. Desde os nove que guardava o rebanho de ovelhas do pai e cedo percebeu que “aquilo era vida de que não gostava”. Em 1961, quando a Pousada Sagres foi inaugurada, entrou como empregado de mesa. Mas os olhos já andavam metidos nos tachos. E na Guiné, em colaboração com o cozinheiro da messe, começou “a desenvolver alguma culinária que tinha visto na Pousada e aquilo teve muito êxito”. Nos aniversários e datas festivas “iam pessoas de avião à messe de Cabedú de propósito para comer”.

Quando regressou a Portugal, ainda voltou à Pousada, mas depois de se casar veio com Lilita para o Café Correia. E daqui não saiu mais. Em Fevereiro do próximo ano, faz meio século que o casal está à frente do restaurante, inaugurado em 1957 pelo senhor Correia que dá nome à casa, pai de Lilita. “Nem nos apercebemos que passou tanto ano”, confessam. O toque regional e caseiro mantém-se, mas a ementa foi evoluindo ao longo do tempo. “No princípio, trabalhava-se muito com caça: lebre com feijão branco, coelhos, perdizes, rolas, pombos. Mas depois começou a escassear e tive de optar por outros pratos”, recorda José. Acabou por virar-se para o peixe – arrozes e massadas, nunca grelhados, que isso todos os outros fazem. Até ter de mexer de novo na ementa. “Já me sinto cansado para ir à lota comprar esse peixe e levar a tarde a amanhar, então optei por outros mais simples”, confessa. Aos 74 anos, José mantém-se como único cozinheiro ao serviço do Café Correia. Lilita, de 72 anos, lidera a sala e ajuda na cozinha, enquanto um dos filhos, Sérgio, assume a maior parte do serviço de mesa.

Há dois anos, começaram a fechar durante todo o mês de Agosto. “Não dá. É uma grande pressão. Não vale a pena.” Mas não há um dia que passem fora do restaurante. “Tenho casa, cozinha, tudo, mas a minha casa é esta. Lá em cima, sinto-me encaixotada. É para dormir e chega”, conta a anfitriã. O Café Correia não é um restaurante, é a casa de José e Lilita. Quem vier com tempo para dar à refeição o tempo que ela merece, dificilmente sai sem se tornar parte da família.